quarta-feira, 2 de julho de 2008

o café está vazio. apenas um homem em uma das mesas. esse homem sou eu. do outro lado do vidro a cidade acontece. faz sol aqui. há dias que faz sol. a pequena cidade corre. finge ser uma coisa que ela não é. como todos daqui, a cidade também finge ser uma coisa que ela não é.

a vida de ator é sempre um pouco triste e bastante solitária. talvez a vida de um ator seja mais solitária do que a vida de um escritor. gosto das artes solitárias pelo simples fato de elas não fingirem ser uma coisa que elas não são. elas são solitárias. simples assim. elas não vendem nenhuma falsa promessa de socialização.

ontem tivemos uma experiência teatral aqui nessa pequena cidade. o jornal local vendia o curso como uma noite de transcendência. uma noite transcedental. eu não deveria começar nada nas terças-feiras. talvez a noite transcedental seja a pedra do meu caminho. talvez eu não tenha tomado o devido cuidado com ela. é preciso atenção com o que promete nos transcender. é preciso cuidado em dobro com aqueles que nos prometem visões e com aqueles que são intensos. com aqueles que choram vendo o sol se pôr. com aqueles que escrevem mensagens de amor incondicional e de sentimentos explosivos. a falsidade é quase vizinha dos intensos demais. tenho um pacto fiel comigo mesmo em relação aos intensos: botar pra correr. simples assim. se uma garota chega dizendo que sente-se tocada pelas palavras quase xamânicas dos meus textos, sorry beibe, vou te botar pra correr. se um adolescente me mandar um email dizendo que ele é o personagem que eu escrevi, sorry beibe, vou te botar pra correr. o foda é que tão difícil colocar os intensos para correr pq, de certa forma, eles nos fazem um bem danado. eles nos fazem acreditar que estamos no caminho certo. mas é preciso cuidado. 

eu me inscrevi para participar da noite transcedental. e é sobre ela que quero te contar. não sobre essa bobagem de querer descobrir pq algumas poucas pessoas tentam se aproximar de mim. essa é uma questão que não me levará a lugar nenhum. eu perco tempo demais com questões que não me levarão a lugar algum. 

estacionei na frente da casinha cor de laranja com o nome de um curso de yoga na frente. a aula transcedental seria lá.

o professor era um homem sem idade. não parecia uma dessas pessoas que vivem nessa cidade. nessa cidade todos são tão iguais. nessa cidade os homens não usam cachecol. não usam roupas com cortes diferentes. não ousam nas cores. não usam óculos escuros com formato antigo. aqui não se confundem as idades. os jovens usam roupas de surfista. os outros usam roupas funcionais. tudo o que possa camuflá-los entre o bando. como se sempre existisse uma fera faminta pronta a lhes devorar, todos passam os dias, os anos, a vida, tentando ser mais um no meio do bando. a fera come os mais fracos. a fera devora quem se destaca da paisagem. a fera me comeu. e foi bem legal. hoje eu sou um fantasma nessa cidade. meus contatos são espirituais, quase fantasmagóricos. 

o professor era diferente. usava um casaco de couro vermelho. mas não é por isso que ele era diferente. um professor de vermelho dentro de uma casa cor-de-laranja. alguma coisa estava errada. pelos meus cálculos alguma coisa estava errada. as cores eram quentes demais e eu sempre desconfio de tudo o que é quente demais. pessoas quentes demais me deixam cansado antes mesmo da festa começar. prefiro os gelados.

o professor sorriu e perguntou o meu nome. 
- ah, você é o escritor da cidade. já ouvi falar sobre você.
- não sou escritor e não sou da cidade. 
- estão fazendo um filme aqui né? se precisar de alguém para ajudar...
- você deve estar me confundindo.
- eu vi uma foto sua no jornal. era você sim o escritor da cidade.
- eu não sou da cidade.
- vocês são parecidos.
- pode ser.

o diálogo foi interrompido pela chegada de dois garotos. um garoto e uma garota. ela tinha a pele mais clara que eu já havia visto. todos aqui tem a pele bastante clara, mas a dela era diferente. era  a pele clara que somente as pessoas que gostam de ser claras conseguem ter. aqui todos têm vergonha de ser tão brancos. a única coisa que pode ser pior do que ser branco demais, para eles, é ser quase negro, moreno escuro, cafuso, mulato. aqui os brancos queimam a pele no verão e escondem o corpo branco no inverno. a garota da aula transcedental não. ela era dessas pessoas que sabem ser brancas sem ter vergonha de si. aqui todos têm sotaque de colono. todos são meio alemães. aqui todos ridicularizam os colonos. ela não. ela era meio colona. meio a nico. meio a marianne faithfull. meio essas musas que o cinema nunca mais soube fazer. ela falava com a voz mais fina do mundo e ela sabia que aquela voz seria feia em todas, menos nela. naquela voz fina eu podia escutar os ecos de uma mãe colona. de uma avó histérica. de um dialeto pomerane que a faria diferente de quase todos. quase igual a mim. talvez fôssemos parceiros de imigração num distante tempo partindo de uma terra encantada. a pomerânia. longe daqui. talvez ela fosse de uma criação que conhece a cidade há tão pouco tempo. talvez fôssemos primos sem saber. ela carregava nos olhos uma ancestralidade. por entender-se ancestral, nunca faria parte do bando camuflado da cidade. talvez ela estivesse morta. assim como eu.

ela disse "oi" e sentou-se em um banco. 

o garoto sentou ao lado dela. ficaram em silêncio. o garoto parecia um pouco mais jovem. talvez ela tivesse 18 e ele 17. ele enroscava os dedos e olhava para as mãos magras e brancas. talvez fossem irmãos. ele olhou para ela e sorriu. ela comprimiu os lábios, olhou para mim e depois olhou para as mãos dele e disse alguma coisa que eu não consegui escutar. ele mordeu os lábios e naquele instante um laço de sangue os transformou em irmãos.

o professor olhou para o relógio e perguntou se estávamos dispostos a começar. ela disse "sim". eu acenei a cabeça com um sorriso que já me parecia ridículo antes mesmo de começar. o garoto se pôs de pé e esticou os braços. o professor pediu que tirássemos nossos sapatos. encontrei um canto escondido antevendo o suor encharcar as minhas meias. antevendo o dedão gasto furando a malha branca e encardida. o chão parecia frio. tirei os sapatos e as meias. voltei ao centro da sala. ela ainda tirava as botas. a meia branca com flores amarelas fazia com que fosse um pouco palhaça. ele desamarrou o all-star e a meia cinza parecia tão quente. seus pés pareciam limpos e, naquela hora, eu os lamberia, se eles deixassem. eu estava descalço e o frio era só por não confiar que eu poderia ser tão limpo quanto eles e manter as meias sem pensar no cheiro úmido que viria delas. nada pode ser pior do que um cheiro úmido. eles faziam com que eu me sentisse úmido perto deles. eu não era o escritor da cidade. o professor parou de olhar para mim e se colocou entre os dois pegando na mão de cada um. eles estenderam as suas respectivas mãos até mim e eu sorri para ela quando os nossos olhos se encontraram antes de a roda se fechar. ela tinha mãos úmidas. ele tinha a mão fina e suave. olhei para o esmalte e as cutículas cresciam de um jeito um pouco relaxado. talvez ela fosse a escritora da cidade. talvez ela não fosse daqui. talvez os dois fossem, assim como eu, forasteiros interessados no estudo da hipocrisia humana que se desenvolve nas pequenas cidades de colonização alemã do interior do brasil. talvez eles fossem a prova concreta de que a vida nas pequenas cidades não seja tão pequena quanto a geografia dos seus contornos. talvez eles viessem da mesma pomerânia dos meus avós. talvez eles também tenham sido alfabetizado nesse dialeto sem regras.

ficamos um tempo em círculo sentindo o calor das nossas mãos passar de um dedo para o outro. o professor respirava com força dando a entender que deveríamos respirar todos igual a ele. ele fechou os olhos. depois abriu. e olhou para nós dando a entender que, além de termos todos que respirar profundamente, também deveríamos fechar os nossos olhos. o rapaz olhou para a menina e os dois fecharam os olhos ao mesmo tempo. tentei fechar os meus olhos junto com eles, mas as minhas pálpebras se atrasaram em uma fração de segundos, tempo o bastante para que eu fosse devorado pela fera que percebe os diferentes e mastiga os desiguais. ensaiei um sorriso tentando aplacar a fúria assassina. "eu sou um deles" - pensei baixinho sem querer admitir que os meus pensamentos pudessem formular a frase odiada.

depois de um longo tempo o professor falou baixo e pausadamente: "caguem nos seus pudores". pensei em abrir os olhos. ou falar sem abrir os olhos: "sim, eu sou o escritor da cidade". alguma coisa me dizia que eu não estava assim tão sozinho. eu queria que eles lessem os meus textos. eu queria que eles soubesse de mim. eu precisava que eu entendesse que eu era um deles. estar de mãos dadas respirando a mesma roda não era o bastante.

ficamos um tempo assim. senti que o professor já havia saído da roda quando a sua voz surgiu de um ponto distante da sala pedindo que nos aproximassemos lentamente ao som da música. esperei o som se estabelecer. era uma espécie de um mantra indiano com toques eletrônicos. uma world music que empurrava os meus pés para o chão e me fazia querer dançar por dentro. senti o garoto dar um passo na direção do centro da roda. antes de ser o último, dei um passo também e ficamos mais perto um do outro. a garota demorava a dar o seu passo e talvez ela fosse devorada pela fera. pensei em puxar o seu braço e obrigá-la a dar o seu passo para protegê-la dos perigos de não ser igual. o garoto deu mais um passo tímido, mas o bastante para os nossos braços se encontrarem. apesar das camadas de mangas sobre nossos braços eu sabia que ele era quente. dei um pequeno passo tímido e pude sentir um cheiro de xampú. o cheiro do xampú da minha avó. ficamos assim. eu e o garoto nos espremendo em um lado da roda, e ela com os dois braços estendidos mantendo-se longe de nós. indiferente à fera. despreocupada com ser igual.

a música terminou e ficamos sentindo as nossas respirações todas ao mesmo tempo. o ar parecia um pouco sujo. ela deu dois passos de uma só vez até e que os nossos braços ficassem bastante pertos. seguindo as ordens do professor, continuamos "cagando para os nossos pudores" avançando à frente até que as pontas dos nossos narizes se encontrassem. senti um cheiro ruim. um hálito de gente normal e algum de nós estava se entregando à fera. algum de nós era diferente dos três. meu pau ficou duro e eu afastei a bacia do centro da roda. meus pés se desiquilibraram e as pernas tremeram um pouco antes de recobrar o equilíbrio. eles continuavam respirando no mesmo ritmo. 

ficamos assim por duas horas.  de vez em quando nossas mãos suavam. de vez em quando alguém ensaiava um sorriso. de vez em quando o professor falava mais uma vez para que cagássemos nos nossos princípios. 

um pouco antes de o exercício chegar ao fim, os meus olhos começaram a chorar e o meu corpo começou a tremer e uma onda de tristeza bastante profunda se abateu sobre mim. misturado com a tristeza eu sentia uma estranha alegria. algo próximo de um estranho alívio. algo que fazia de mim um escritor. algo que fazia de mim estar perto deles. quase um igual. senti os dedos da garota me apertarem com força em volta dos meus e aquele era o sinal de que eu precisava. ela havia sentido o meu estado e ela se preocupava comigo. naquele momento eu não era mais o escritor. naquele momento eu era sim uma espécie de ator ou de qualquer artista que faz uma obra coletiva e, por isso, sente menos a dor da solidão da falta de inspiração e a frustrante falta de vontade. eu era alguém em um grupo e alguém me dava a mão e alguém me apertava com força se eu chorásse ou se o meu corpo fizesse coisas que nunca fez. eu transcenderia junto deles. 

a música terminou mais uma vez e eu prestei atenção no volume das respirações tentando entender se eles também estavam alterados, assim como eu estava. eles respiravam profunda e suavemente e talvez a fera tenha me devorado. 

pouco a pouco, seguindo as ordens do professor, abrimos os nossos olhos e ficamos nos olhando profundamente por um longo tempo. eles sorriam quando se olhavam e voltavam a ficar sérios quando olhavam para mim. talvez eu fosse o escritor da cidade e talvez por isso eu nunca seria um deles.

a aula terminou. ela calçou as botas e ele amarrou os cadarços do all star. e foram embora antes que eu terminasse de colocar minhas meias úmidas. o professor sorriu e perguntou se eu estava bem. respondi que sim. que era sempre bom fazer uma arte coletiva.

no caminho de volta para casa eu tentava engolir a pedra da terça-feira. e eu tentava voltar a ser um escritor. a fazer uma arte solitária sem estar só. e me perguntava, sem eu mesmo escutar, por que eu não era um deles. por que as pessoas iguais a mim, assim como eu, aqui nessa pequena cidade, também se escondem umas das outras?

Um comentário:

sara lee disse...

porque a gente treina desde criança...esconde esconde e suas maldades

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