quarta-feira, 16 de julho de 2008

 

Eu estou no quarto. Ela chega em casa. Ouço o barulho do carro na calçada. Ouço o barulho da porta da garagem se abrindo. Ouço a risada do meu sobrinho quando ela desliga o motor do carro e o barulho termina. Procuro o desodorante por cima da mesa, aqui ao lado do computador. O desodorante que ela odeia. Quando o barulho da porta do carro batendo eu espirro o desodorante que ela odeia por todo o meu quarto. Os seus passos caminham pesados pelo corredor e ela larga sacolas na mesa da cozinha. Depois os passos voltam com força no corredor  e depois o barulho da porta do banheiro se fechando. O barulho dos passos pesados do meu sobrinho batendo com força na porta do banheiro querendo entrar. Ele chorando e eu pensando em abrir a porta e ele chorando e ela gritando e eu abrindo a porta e ele chorando sentado no piso do corredor e ela cagando do outro lado da porta. Ele não olha para mim. Continua chorando e olhando para a porta fechada.


Eu falei para ele: - duvido que você consegue parar de chorar antes de ter vontade de parar de chorar.


Ele olhou para mim e pensou por um tempo. Ficamos nos olhando por um tempo. Um tempo que foi curto se fossem contados pelos segundos que duraram. Ele olhou para mim e os dois olhinhos eram o medo de ficar sozinho quando somos os três anos de idade. A sua boca encurvada para o chão era a força mortal da gravidade sempre nos empurrando um pouco mais para baixo. Ela puxou a descarga e ele lembrou que deveria voltar a chorar e eu fechei a porta. A porta do banheiro se abriu e ela pegando ele no colo. As coreografias que vamos memorizando ao longo dos dias. As seqüencias e o seus movimentos a cada novo passo um pouco mais complicados.  Ela beijando o rosto do meu sobrinho e depois abrindo a porta do meu quarto.


E ela falou para mim: - tu tava fumando aqui dentro?

E eu respondi: - não.


Ela bateu a porta e os seus passos voltaram para a cozinha, mas dessa vez eles pareceram mais pesados por causa do peso do meu sobrinho que ela carregava no colo e por causa da raiva que eu sentia dela, um pouco mais.


Voltei ao texto. O barulho da louça batendo na cozinha foi ficando cada vez mais distante e a raiva que eu sentia dela ia se confundindo com uma raiva que eu sentia de mim mesmo e por um estômago ardendo um pouco por saber que sempre que eu preciso ser eu mesmo, eu não consigo. O texto seguia devagarzinho e eu sentia todas as palavras se contaminando um pouco mais de uma raiva que eu sentia de verdade e que nunca seria literatura.


Depois os pezinhos bem leves do meu sobrinho batendo contra o chão não eram mais barulho, eram uma musica triste e antiga, e ele voou até  a porta do meu quarto. Ele não voou como uma ave, mas como pessoas quando os seus passos se enchem de sentimento e quase se descolam do chão. Senti alegria naquela hora. Mas eu duvidei que fosse de verdade. Saltei da cama e abri a porta. Os olhos do meu sobrinho estavam ainda vermelhos e o mais triste era saber que eles ficariam assim para sempre. Ou ainda piores. Coloquei os joelhos no chão e, por muito pouco, não éramos feitos do mesmo tamanho. E nos olhamos dentro dos nossos olhos vermelhos quase como se fôssemos da mesma altura. E ficamos um tempo assim. Quando eu estava quase chorando ele sorriu. E o sorriso que ele sorria tinha tanta falsidade ou tanta ingenuidade ou tantas dessas coisas que as crianças sentem e que as tornam burras e inteligentes ao mesmo tempo. E eu chorei de pena do meu sobrinho misturada com pena de mim e com pena dela tirando as coisas das sacolas na cozinha. Eu chorei de pena do meu sobrinho por que ele só tem três anos e eu já tenho quase dez vidas a mais do que ele e a vontade de chorar e os olhos vermelhos nunca vão passar. Mas ele quer ser mecânico de avião e isso até que me acalma. Pelo menos ele vai ser homem.


Depois ele pediu para eu brincar de médico e fazer caricias nos seus pés sem deixar que ele sorrisse. Fiquei um tempo acariciando a sola macia dos seus pezinhos e minhas mãos tinham quase o dobro do tamanho deles. Minhas mãos cresciam e envelheciam e a pele se enrugava e eu sabia de tudo isso pela primeira vez. Ela entrou no meu quarto.


E ela falou para ele: - sai desse quarto. Ta fedendo a maconha.

E ele falou para mim: - maconha! Maconha!


E eu sorri para ele quando ele mostrou a língua para mim. E senti nojo daquela língua cor de rosa quase branca. 

3 comentários:

Felipe disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
t. disse...

as sensações que nos passam em um intervalo de 3 minutos

sara lee disse...

bibo é tio adolescente bibo é tio adolescente;)
e eu sou uma mãe adolescente e velha
ah ah ah
q engraçado

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