terça-feira, 29 de julho de 2008

o mundo anda estranho nesses últimos dias. não sei se é a ausência do frio nesse mês de julho. o julho mais quente da minha vida. não sei se é a ausência de vontade. mas tudo anda tão estranho. as pessoas. as confianças. as esperas.

eu ainda acho que eu espero demais de quem está perto de mim. eu ainda espero que faça frio. que vente. que chova. que o pasto amanheça coberto de gelo.

sofro quando há uma nova realidade dentro daquela que existiu até tão pouco tempo atrás. nesses dias de calor, quase nada é o que parece ser. mas vamos levando. de vez em quando eu rio. de vez em quando você está comigo. e quando ficamos juntos e quando olhamos para o mesmo futuro as coisas até parecem fazer algum sentido. e fazem.

resolvi parar com tudo o que me tira do mundo real. isso implica muitas coisas. muita coisa tem me tirado do mundo real ultimamente. isso implica eu mesmo tentar controlar um pouco a minha cabeça.

passei dois dias tremendo. agora parou. hoje de meio-dia pensei que iria morrer, mas não foi tão forte como há dois dias atrás. há dois dias atrás eu vi alguma coisa feia puxando a minha perna e eu tremi por quatro horas sem parar. e comi sal, mas nada mudou. e bebi leite, mas nada mudou. e rezei, mas eu ainda não acredito. e eu pensei em chamar uma ambulância. e eu pensei que realmente estava morrendo. mas não foi dessa vez. 

quando se está em processo de limpeza parece que as sujeiras vão tomando novas dimensões. o que antes não era notado assume características um pouco gigantes demais. pequenos problemas me desestabilizam e eu queria que alguém me dissesse que estou fora de mim ou que alguém me pegasse pelos ombros e me sacudisse até que eu saísse de mim e deixasse de ser eu para voltar a mim mesmo.

agora eu vejo máscaras onde antes havia um rosto. agora eu choro acordado onde antes era um sonho. vai passar. o tempo vai mostrar e vai nos dividir e eu vou voltar a ser eu mesmo. sozinho. vazio de vícios. limpo de virtudes. essencial. o bastante para que eu me baste só. só nós dois. o que vem de fora nos separa. o que nos mata não nos fortalece. eu quero e eu rezo e eu vou estar do lado do bem. e vou descansar em paz aqui na terra antes de voltar para o mesmo ponto de onde partimos. aqui na vida do agora eu quero a paz do eterno. eu não quero e eu não vou morrer ainda. hoje não. amanhã também. e assim por diante.

mas agora eu estou morto.

sábado, 26 de julho de 2008

ontem tive a tarde de folga aqui em cotiporã. depois do almoço voltei para a cabana com meu amigo. ficamos batendo papo e bebendo chá. quando as moças da limpeza pediram que a gente fosse dar uma volta no pomar, saímos pelos arredores da pousada até encontrar um portão que delimitava a propriedade. nos olhamos. e avançamos. talvez fôssemos nós dois 15 anos atrás. atravessando quintais. explorando pequenos riachos. descobrindo árvores grandes demais para nossos braços de criança.

caminhamos por uma trilha estreita e fazia sol e o sol esquentava pouco. as árvores mais espinhentas eram as que mais nos chamavam a atenção. como se fossem espelhos nossos, as espinhentas eram toda a proteção que vamos criando. nos reconhecíamos na vilania dos espinhos. crescíamos no afiado das pontas. eram elas tudo o que precisávamos ser se a nós fosse dado o direito de crescer. é bom trabalhar com amigos. era o dia de folga dele. era a minha tarde livre. a primeira de muitas. 

avançamos a trilha até chegar a um grande chiqueiro do outro lado do matinho. os porcos gritavam enlouquecidos e talvez fossem nós antes dos dezoito. talvez fossem nossos chinelos arrebentados. nossos pés quando pisados sobre prego enferrujado. nossos dedos quando picados de abelhas. nossas tristezas de crianças. o medo de que a mãe morresse. o dia em que deveríamos partir. as tardes quando passariam a ser de trabalho. ontem, no meio da tarde, explorando terrenos, eu poderia ter me dado conta de que a infância continua aqui. nos dias livres. nas poucas horas de trabalho que bastam para pagar as minhas poucas contas. gasto tão pouco. tenho quase nada. quase lugar nenhum me prende. e a cabeça transborda idéias que ainda me renderão mais dias de trabalho e contemplação.

ontem de tarde eu era feliz com meu amigo. nós dois perdidos no infinito dos quintais desconhecidos.

ao lado do potreiro a bergamoteira pendia os galhos e a quantidade de frutos era um fardo que ela não deveria jamais suportar sozinha. avançamos. avançamos nossas mãos e os frutos cor de laranja eram gomos e gomos eram massagens refrescantes do lado de dentro das nossas gargantas. no meio do matinho havia uma casa. eu tive medo.

- melhor a gente ir embora, eles podem nos dar tiro. estamos em um terreno privado.
- cala a boca guri. isso aqui é terra de italiano. italiano recebe a gente rindo.
- é verdade. esqueci que aqui não tem alemão.
- é. alemão é quem sempre desconfia de quem aparece no potreiro para comer bergamota.
- ainda bem que a gente tá longe deles.
- é. mas eu tô com saudade da minha mãe.
- a tua mãe é alemoa, mas ela é louca.
- sim, ela veio de berlim.
- por isso.

depois a gente ficou cansado de comer bergamota, mas o meu amigo ainda encheu os dois bolsos do casaco para comer de noite se desse fome. ou saudade.

na volta vimos um porco dormindo sob o sol. quando chegamos mais perto notamos a rigidez das suas patas e ele estava morto. duro. debaixo do sol os seus pêlos brancos pareciam feitos de cera e uma tristeza tomou conta do meu coração. 

depois voltamos para a cabana e ouvimos mais uma música que nos deixou animados para pegar o carro e ir conhecer veranópolis. e foi legal. comprei cuia, bomba e erva. e agora é sábado de manhã. acordei para ver o sol nascer daqui do alto. as araucárias sob a primeira luz da manhã são deus quando posso enxergar. os quero-queros estão mais silenciosos hoje. deve ser o sábado. deve ser o inverno. alguns pedaços da grama perto do açude continham vestígios de geada, mas o frio do ano passado ainda não chegou. nem deve chegar.

quando o sol terminou de nascer eu voltei para a cabana e fiz o meu primeiro chimarrão. coloquei cat power e li as notícias do mundo sentindo o gosto amargo da solidão das rodas de chimarrão quando não há com quem trocar. o chimarrão e a solidão aqui no topo da colina são menos tristes.

pensei em são paulo. pensei em berlim. e pensei em mais um vício que vai me trazer saudade para quando eu estiver longe daqui. 

é tão fácil se apegar. 

quinta-feira, 24 de julho de 2008

o dia nasce. os passarinhos me acordam. eu te beijo antes de fugir pela janela do seu quarto. ninguém pode saber de nós. nem nós mesmos. ninguém deve saber, nem nós mesmos, mas o paraíso mora aqui.

tomamos o mesmo café sem que em nós se conheçam os lençóis percorridos da noite passada. os nossos olhos se entrelaçam e as linhas que me aquecem são as mesmas que te fizeram dormir. adormeço entre o cheiro dos seus cabelos. ninguém deve saber, mas o paraíso mora aqui, nas minhas mãos quando guardam em mim o cheiro que um dia foi teu.

de manhã eu descanso para você trabalhar. de manhã eu sonho com preocupações que não tenho. com prazos que não me são cobrados. com os sonhos quando são reais. com a vida que invento e finjo tão bem que todos acreditam nela. menos. ninguém deve saber, mas o paraíso mora aqui.

de tarde caminho por essa nova cidade onde estou antes do fim. compro vinho e taças novas para a noite no supermercado vazio. compro mais um aquecedor portátil para o chá. compro flores para o vaso. compro um vaso para as cores. troco os móveis de lugar até fazer daqui cenário perfeito onde você nunca irá habitar. você não deve saber, mas o paraíso mora em ti.

os cheiros da limpeza. as camareiras varrendo assujeiras. a grama sendo cortada do outro lado da janela. os passarinhos. o sol se pondo na fenda exata entre a cortina amarela e o vidro. o paraíso mora lá, mas ninguém pode saber.

a estrada. as flores que roubei. o dia que acabou. o paraíso esteve aqui, mas eu não pude suspeitar.

a noite antes do ocaso. o acaso. o nosso. 
o paraíso coube aqui, mas você não pôde enxergar.

terça-feira, 22 de julho de 2008

COM O FILME FOI-SE O BOSQUE

 

As filmagens do longa-metragem baseado no meu segundo livro, “Os Famosos e os Duendes da Morte” chegaram ao fim aqui em Lajeado. Foram três semanas de grande intensidade para as mais de cinqüenta pessoas, vindas dos mais distantes pontos da America Latina,  para dar vida a um a história que escrevi contando um pouco do que foi a minha adolescência aqui nessa região. Agora Lajeado será eterna nas telas de cinema do mundo inteiro. Dentro de pouco tempo milhares de dvd’s chegarão às locadoras de todo o país, difundindo nossas belezas e o nosso povo. Agradeço do fundo do meu coração por toda a comunidade que se mobilizou para que a nossa cidade aparecesse mais bonita para o mundo. À toda a figuração, aos restaurantes que tão bem nos alimentaram, ao hotéis, motoristas, aos atores, aos músicos da região. Lajeado estará belíssima na tela. Nós, lajeadenses, teremos um pouco mais de orgulho ao dizer que somos daqui.

Eu poderia estar feliz. Nesse último dia em lajeado saí para andar pelas minhas ruas. Essa cidade é minha, assim como é das mais de setenta mil pessoas que fazem daqui o seu lar. Caminhei para me despedir antes de voltar à Berlim onde darei continuidade a mais um projeto envolvendo literatura e cinema.

Eu deveria estar feliz. Mas não estou. Caminhar por Lajeado me encheu de uma tristeza profunda. De uma raiva frustrada. Caminhar por Lajeado me fez entender que esse não é mais o meu chão. Essa não é mais a minha terra. Pena. Triste.

Descendo a Avenida Bento Gonçalves, quase na rua Alberto Torres, o céu parecia mais nítido. Alguma coisa parecia diferente na paisagem. De longe era um pouco complicado entender o que estava diferente.

Alguns passos foram o suficiente para que eu entendesse a gravidade daquela estranha visão. Alguém havia roubado um pedaço da nossa paisagem. Alguém havia tirado de nós o nosso bosque. Não importa quem seja o dono. Não importa no nome de quem estava a centenária araucária localizada no exato ponto em que a Bento Gonçalves se encontra com a Alberto Torres. Não importa dar nome aos bois. Nem aos burros. Nem aos ignorantes.

A araucária não está mais lá. Junto com ela foi-se o bosque. Junto com o bosque foi se uma paisagem. Junto com a paisagem foi-se mais um pedaço de Lajeado. Mais um pedaço de mim. Mais um tanto da nossa história.

Pelo menos o filme está feito. Pelo menos um pouco de nós eu consegui prender nos meus livros. Pelo menos havia um senhor com a sua bengala, e ele também olhava atônito para aquela paisagem de destruição. Fiquei parado ao lado dele como quem vela um morto sem ainda ter se dado conta da sua morte. Olhávamos para uma paisagem que não estava mais lá. Ele tremia e os seus olhos choravam. “Estão acabando com tudo”, ele disse, e me perguntou se eu tinha estudado naquela escola. Respondi que não. “Ainda bem”, ele me respondeu. “É triste ver o que a nossa escola está fazendo com ela mesma”. Ele tirou os óculos e foi embora. Seus passos lentos não olharam para trás. Eu fiquei mais um tempo sentindo a terra e as raízes expostas daquelas árvores que um dia foram um bosque. Que um dia foram Lajeado. Que um dia foram minhas. Os galhos todos no chão. As lembranças desaparecendo devagarzinho, para nunca mais voltar.

Olhei para o colégio Alberto Torres e senti muita raiva. Senti muita vontade de gritar. Senti vontade de escrever sobre a ganância. Sobre a absoluta incoerência que leva uma escola a depredar a paisagem da minha cidade. Senti vontade de questionar os alunos, os professores, os funcionários. Eu queria saber se todos concordavam com aquilo. Será que os professores também foram a favor da queda de todos os séculos que aquela araucária carregava? Será que os alunos sabiam e achavam certo que um bosque inteiro fosse removido do coração da nossa cidade? Pouco a pouco a minha raiva foi dando lugar a uma grande pena e a uma triste constatação de que estamos todos perdidos. De que não somos donos de nada. De que as nossas lembranças não estão nas nossas mãos. Quando a escola mais tradicional da cidade destrói a própria história a olhos vistos, pouco resta a ser feito a não ser lamentar. E chorar profundamente sobre a ignorância do ser humano. Sobre, como disse Caetano Veloso, “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”. O desejo incontrolável de se destruir e de se destruir e de se destruir a qualquer preço, custe o que custar. Doa a quem doer.

Chorei lembrando da araucária e daquele bonito bosque que deixava um pouco menos triste a nossa cidade. Agora acabou. Em breve teremos mais paredes. Em breve mais alunos sentarão em mesas onde um dia houve um bosque. Em breve todos esqueceremos. E todos seremos esquecidos. As tradições serão perdidas. As reputações serão destruídas. As escolas não mais serão exemplo de educação e respeito ao meio ambiente, nem ao próximo, nem à cidade que a fez crescer.

À tarde telefonei para a escola. Havia uma esperança. Talvez aquela área de terra não pertencesse ao Alberto Torres. Talvez fosse de propriedade de algum empresário ávido pelo lucro. Talvez o Alberto Torres não fosse o responsável por mais essa barbárie. Talvez ele não fosse o assassino de um bosque.

Quando o funcionário da escola atendeu ao telefone tivemos uma breve, porém esclarecedora conversa:

-       boa tarde. Gostaria de saber se os responsáveis pelo desmatamento do bosque na esquina da Bento Gonçalves com a Alberto Torres foi a própria escola.

-       Sim. Mas aquilo não foi desmatamento. Foi a remoção de arvores para construção de um prédio.

-       ah, que pena.

E assim terminou o nosso triste diálogo. E assim vou me embora de Lajeado carregando na bagagem um pouco menos de vontade de voltar. E assim me preparo para sempre perder um pouco mais. Para sempre me decepcionar com a ignorância humana. Para sempre esperar pelo pior de quem somente deveria nos ensinar a plantar. Nos ensinar a preservar. Nos ensinar a manter o pouco que ainda temos de belo. Pobres alunos. Pobres professores. Pobre senhor Alberto Torres. O seu nome ficou mais feio depois desse inverno. Nosso ar ficou mais sujo depois desse julho.

Mas logo esqueceremos. E tudo seguirá igual. E nem vai doer tanto assim. Foram apenas algumas árvores. Foi apenas uma remoção para construção de um prédio. Melhor assinar abaixo-assinados em favor da Amazônia...

 

Trise. Triste fim para um filme que poderia ser belo. 




























segunda-feira, 21 de julho de 2008

para quê a gente tem um blogue?

sexta-feira, 18 de julho de 2008

então vai  continuar tudo assim.
antes a porta da garagem abriu e quando a porta da garagem é hora de tentar voltar a habitar esse mundo e tentar fazer de mim uma pessoa normal. um filho como o filho da vizinha. mas ele joga bola. e eu nem sei o quê eu sou. ele sempre jogou bola. e nunca soube que eu sou.

quando a porta da garagem abre eu desligo o som. fico um tempo parado pensando se deveria fingir estar dormindo. lembro do desodorante. espirro desodorante por todo o quarto o que não me dá NENHUMA espécie de prazer. o cheiro é frio demais e o preço é bem caro e isso é uma daqueles coisas que eu penso quando tento definir o que pode ser "jogar dinheiro fora". às vezes as minhas frases são longas demais e eu esqueço o que estava falando no meio dela. há algum mal nisso? você leva a sério as perguntas que eu te faço? você acredita na anticarpintaria dos espaços virtuais? você acredita na anticarpintaria da vida? você ri quando me ouve falar? você chora toda a vez que fica em silêncio? eu queria saber mais sobre você. mas tenho vergonha de te perguntar. eu não sei por qual nome te chamar. nunca saberei.

o problema é sempre ter que demandar energia demais para as coisas da vida. deve ser por isso que tenho estado cansado. pela primeira vez na vida eu tenho um nome a guardar. e cansa guardar o próprio nome. como é complicado manter esse filha da puta. como é difícil sempre se irritar além do tamanho real de cada problema. é tudo grande demais. e é complicado suportar quando fica assim. controlar a minha conta é coisa que nunca fiz. nunca tive a minha conta e a minha conta nunca teve dinheiro ganho do meu trabalho. todo o dinheiro que ganhei passou por mim para o que eu devia e eu nunca pude planejar nada para a frente pq todas as dívidas pendiam nas minhas costas. e eu era mais leve. e eu ria mais. e eu acreditava que a felicidade estava longe. num lugar que seria para inabitado forever. inabitado forever. felicidade. e eu era mais feliz. ou menos triste.

quando alguma amiga que teve filhos entra no msn eu nunca puxo assunto. parece que estou sempre roubando de outro filho um tempo que não foi meu.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

 

Eu estou no quarto. Ela chega em casa. Ouço o barulho do carro na calçada. Ouço o barulho da porta da garagem se abrindo. Ouço a risada do meu sobrinho quando ela desliga o motor do carro e o barulho termina. Procuro o desodorante por cima da mesa, aqui ao lado do computador. O desodorante que ela odeia. Quando o barulho da porta do carro batendo eu espirro o desodorante que ela odeia por todo o meu quarto. Os seus passos caminham pesados pelo corredor e ela larga sacolas na mesa da cozinha. Depois os passos voltam com força no corredor  e depois o barulho da porta do banheiro se fechando. O barulho dos passos pesados do meu sobrinho batendo com força na porta do banheiro querendo entrar. Ele chorando e eu pensando em abrir a porta e ele chorando e ela gritando e eu abrindo a porta e ele chorando sentado no piso do corredor e ela cagando do outro lado da porta. Ele não olha para mim. Continua chorando e olhando para a porta fechada.


Eu falei para ele: - duvido que você consegue parar de chorar antes de ter vontade de parar de chorar.


Ele olhou para mim e pensou por um tempo. Ficamos nos olhando por um tempo. Um tempo que foi curto se fossem contados pelos segundos que duraram. Ele olhou para mim e os dois olhinhos eram o medo de ficar sozinho quando somos os três anos de idade. A sua boca encurvada para o chão era a força mortal da gravidade sempre nos empurrando um pouco mais para baixo. Ela puxou a descarga e ele lembrou que deveria voltar a chorar e eu fechei a porta. A porta do banheiro se abriu e ela pegando ele no colo. As coreografias que vamos memorizando ao longo dos dias. As seqüencias e o seus movimentos a cada novo passo um pouco mais complicados.  Ela beijando o rosto do meu sobrinho e depois abrindo a porta do meu quarto.


E ela falou para mim: - tu tava fumando aqui dentro?

E eu respondi: - não.


Ela bateu a porta e os seus passos voltaram para a cozinha, mas dessa vez eles pareceram mais pesados por causa do peso do meu sobrinho que ela carregava no colo e por causa da raiva que eu sentia dela, um pouco mais.


Voltei ao texto. O barulho da louça batendo na cozinha foi ficando cada vez mais distante e a raiva que eu sentia dela ia se confundindo com uma raiva que eu sentia de mim mesmo e por um estômago ardendo um pouco por saber que sempre que eu preciso ser eu mesmo, eu não consigo. O texto seguia devagarzinho e eu sentia todas as palavras se contaminando um pouco mais de uma raiva que eu sentia de verdade e que nunca seria literatura.


Depois os pezinhos bem leves do meu sobrinho batendo contra o chão não eram mais barulho, eram uma musica triste e antiga, e ele voou até  a porta do meu quarto. Ele não voou como uma ave, mas como pessoas quando os seus passos se enchem de sentimento e quase se descolam do chão. Senti alegria naquela hora. Mas eu duvidei que fosse de verdade. Saltei da cama e abri a porta. Os olhos do meu sobrinho estavam ainda vermelhos e o mais triste era saber que eles ficariam assim para sempre. Ou ainda piores. Coloquei os joelhos no chão e, por muito pouco, não éramos feitos do mesmo tamanho. E nos olhamos dentro dos nossos olhos vermelhos quase como se fôssemos da mesma altura. E ficamos um tempo assim. Quando eu estava quase chorando ele sorriu. E o sorriso que ele sorria tinha tanta falsidade ou tanta ingenuidade ou tantas dessas coisas que as crianças sentem e que as tornam burras e inteligentes ao mesmo tempo. E eu chorei de pena do meu sobrinho misturada com pena de mim e com pena dela tirando as coisas das sacolas na cozinha. Eu chorei de pena do meu sobrinho por que ele só tem três anos e eu já tenho quase dez vidas a mais do que ele e a vontade de chorar e os olhos vermelhos nunca vão passar. Mas ele quer ser mecânico de avião e isso até que me acalma. Pelo menos ele vai ser homem.


Depois ele pediu para eu brincar de médico e fazer caricias nos seus pés sem deixar que ele sorrisse. Fiquei um tempo acariciando a sola macia dos seus pezinhos e minhas mãos tinham quase o dobro do tamanho deles. Minhas mãos cresciam e envelheciam e a pele se enrugava e eu sabia de tudo isso pela primeira vez. Ela entrou no meu quarto.


E ela falou para ele: - sai desse quarto. Ta fedendo a maconha.

E ele falou para mim: - maconha! Maconha!


E eu sorri para ele quando ele mostrou a língua para mim. E senti nojo daquela língua cor de rosa quase branca. 

eu queria ter alguma verdade para postar. eu queria ter alguma vontade para continuar. eu queria ter alguma história para seguir. ou um fluxo para respeitar.

fui na loja de discos aqui da cidade.

- a fraternidade é vermelha.
- eu, christiane f.
- blondie. greatest videos.
- a liberdade é azul.
- a igualdade é branca.
- roxy music e t-rex live.
- we are scissor sisters.


vou tentar ser feliz com a nova pilha de dvds não assistidos. porém meus. para sempre.

sábado, 12 de julho de 2008

é madrugada. bastante madrugada. ou exatamente a sua metade. são 3 e 15 da manhã e agora já é sábado. a garrafa de vinho está bem boa. santa ana reserva malbec. argentino safra 2005. baixíssima acidez. não parece malbec dada a suavidade. é um vinho bem bom. não conheço muito de vinho. minha última descoberta havia sido o graffigna. custa em média 9 reais nos mercados aqui no sul e vale a pena. mas esse santa ana. uau. nem se compara com o graffigna. é bem melhor. custa quase o dobro, mas vale a pena. uma coisa que aprendi com uma nova amiga argentina é que vinho argentino deve sempre ser malbec e vinho chileno deve sempre ser cabernet. ela disse isso e depois falou "isso se você for hard como eu". ela disse isso na primeira noite em que nos conhecemos e naquela noite que foi a nossa primeira eu sabia que ela era uma garota legal essa andréa. trocamos poucas palavras, mas os nossos olhares sempre se entendiam. nossos sorrisos eram iguais nos momentos em que somente nós dois captávamos toda a ironia contida nos diálogos alheios naquela nossa primeira noite juntos. eu fumando e você sorrindo com uma taça na mão e bebendo o meu concha y toro. naquela época, há tão pouco tempo atrás, eu pensava que concha y toro era a aposta certa para impressionar na medida exata da nossa elegância etária e financeira. eu ainda não sabia nada sobre graffigna. nem sobre esse santa ana de agora. agora toca the who. see me feel me e eu lembro de uma adolescência que não pude ter. eu lembro de um jeito de enxergar a vida que demorou para eu perceber. mas quero falar sobre a garota argentina. na nossa primeira noite juntos o jantar acabou e eram folha e carnes e nós dois entendendo nos outros os diálogos que sobravam em nós. ou palavras que nos faltavam. o mundo quando é grande demais e ficamos nós dois olhando um para a cara do outro naquela fração de segundo, a última antes de cair na risada. mas você foi a melhor garota dos últimos tempos e a última com quem eu teria um filho. eu casaria se a imigração te pedisse uma prova para poder continuar vivendo no brasil. não sabem que o brasil é quem precisa de provas concretas para que você continue aqui entre nós. para que buenos aires não te leve de volta. toca white stripes e agora eu te vejo deitada aqui na cama do meu quarto. e te vejo dividindo a mesma taça e nossos beijos todos através do cristal. eu te vejo me enxergando dentro do poster do bob dylan. eu te vejo sorrindo ao reconhecer no anjo da guarda toda a auto-irônia pregada na parede. eu te vejo olhando obcecada para as minhas mandalas tentando entender a simetria dos meus olhos. tentando desviar de mim o que existe em você. como te olhar dentro deles sermos nós dois um mesmo passado. às vezes eu queria que ser jack white valesse à pena. às vezes eu queria ser a fram quando ela escreve com fúria e pressa e fôlego. às vezes eu queria ser o coração dois segundos antes do tiro para os cem metros livres. ou queria ser as baquetas de meggy white quando ela erra o compasso mas ninguém sabe que. ou me ver dentro dele dançando alguma música pela primeira vez. a primeira vez que entendi the cure em uma pista de dança. a primeira vez que tocou the smiths em uma noite de domingo numa pista cheia de iguais. a primeira vez que eu fiquei sozinho em uma pista de dança lotada às três da manhã de uma segunda-feira rezando para não cair ou rezando para que alguém me arrastasse para o banheiro e me fizesse nascer de dentro de mim. e me fizesse respirar fundo e I love new york. depois voltar ao bar e pedir mais uma dose de contreau e ter vontade de vomitar e depois rir e pensar que a vida é tão bonita, mas logo tudo vai acabar. agora tudo acabou. jack white grita aqui, mas não é mais como antes. necessitava desse desabafo o dia inteiro. a hora em que abriria um novo vinho e acenderia o portão para a noite. a luminária está acesa. as duas. a que está ao lado da cama sobre o amplificadora. coloquei borboletas do paraguai em volta dela e as asas sacodem quando a música fica alta o suficiente para a caixa vibrar. agora não. agora são exatamente 3 e 33 da manhã e eu tenho medo dessa hora. tenho medo dos números. e dos homens quando se tornam santos. não gosto de textos assim. acho que ninguém vai ler esse texto até esse ponto. duvido que alguém chegue tão longe ou acompanhe por tanto tempo uma mente confusa. duvido que você suporte amar por muito tempo o meu coração intraquilo. duvido que você nunca mais vá me sentir a falta quando eu estiver longe. eu sempre estive longe. sempre estarei. é como se a voz de jack white atravessasse o tempo e habitasse em todas casas de uma cidade que seria perfeita. de um país que seria o nosso. misturar um pedaço da argentina, um canto do uruguai e o sol do brasil e a pomerânia talvez seja agora. três pedaços de uma mesma terra e um diamante talvez nascesse. seríamos frios e eu seria uma espécie de rei. eu me coroaria mais do que agora. eu sentaria em um trono se a multidão de súditos fossem todas células de mim mesmo. 

quarta-feira, 9 de julho de 2008

eu acho que o problema é quando a pessoa se expõe demais.

ouvir bob dylan. beber vinho. ler. tomar um expresso duplo e uma água sem gás depois do almoço e antes de anoitecer. pensar em alguma coisa bem ruim que poderia me acontecer. ter alguma idéia genial para depois não entender. viver um momento de euforia fugaz. viver um momento de decepção logo após a euforia. checar o email obsessivamente durante todo o dia todos os dias. checar o orkut mesmo quando é manhã cedo. checar o hotmail que não uso mais. apagar spams de festas em que nunca irei. deletar spams de peças de teatro que jamais verei. deletar spams de viagras e pílulas para perder peso e tudo o que não me falta também não me faz feliz. responder a alguém de quem não gosto com um carinho que não sinto. pensar no envelhecimento meu e dos meus pais e do mundo e de todas as pessoas que passam pela vida ao mesmo tempo que eu. ninguém vai sobrar para contar a nossa história. escrever alguma coisa pensando em alguém que não conheço. ouvir cat power bem alto e escrever durante uma música inteira sem parar. fazer um set-list para a próxima meia-hora. tirar um auto-retrato e depois jogar na lixeira. entrar na folha on line e não encontrar nenhuma novidade sobre o mundo e meus problemas. ler blogues de inimigos, de rivais e de afins. ler os blogues dos amigos sem prestar muita atenção quando os textos ficam longos demais. entrar no msn e desconectar logo em seguida. tomar banho duas vezes por dia. olhar para o céu e desejar estar no sol vendo o mundo de longe. pensar em deus como se fosse em mim. ou entre nós. pensar no fim do mundo como se tivesse sido ontem. colocar uma moeda no cofrinho e pensar no quanto de dinheiro em moedas esquecidas se esconde lá dentro. fazer um desenho pensando em coisas que me irritam. criar diálogos imaginários com pessoas com quem gostaria de discutir. responder entrevistas que não foram feitas para mim. dirigir o carro do meu pai com saudade de quando eu era a criança no banco ao lado. sentir impaciência quando eles estão por perto, os homens da cidade de lajeado. tomar um café na padaria suíça e escutar a rádio da univates e perguntar a mim mesmo até quando passarei fome ou até quando comerei sentindo culpa. escrever um texto para depois apagar. olhar para o elefante azul que minha irmã pintou para o filho dela na parede do meu quarto. não entender como foi que a minha irmã virou mãe e nem por que tudo foi tão rápido? lembrar de alguma fotografia que minha mãe tirou. ligar o ar-condiciando e pensar no preço que custa ao bolso deles, os donos da casa. ligar o ar-condicionado e pensar no quanto custa ao mundo esse luxo que é só meu. pensar no quanto de dinheiro me faria feliz. pensar no quanto estou feliz hoje e no tanto que não posso reclamar de nada. de quase nada. ter um pouco de medo de morrer quando penso no que vai vir. ter um pouco de vontade de morrer quando penso que talvez nada venha. é quase certo que não. é bem mais certo que não. sentir o coração cansado. chorar sempre na hora mais errada e cada vez com mais frequência. coisas que eu faço todos os dias. pensar em quem seria eu se eu fosse uma mulher. pensar que eu seria uma senhora grã-fina. pensar que logo serei um velho grã-fino. pensar nas palavras que eu só escutava quando era criança. pensar no quanto de tempo eu  vou continuar sendo eu assim do jeito que eu sou. ler a zero-hora e achar tudo tão chato e tudo tão igual e tudo tão nada, menos quase tudo o que o paulo sant'ana escreve e  quase tudo o que a martha medeiros deixa de escrever para entregar à multidão de dois mais dois igual a mim. quero ser a martha medeiros, mas ninguém pode saber. penso na fran e lembro dela e hoje ela não mais a garota que um dia eu conheci. pensar nas águas passando pelo rio e indo para o guaíba e ver paisagens de natureza e me emocionar com tudo isso. com as plantas crescendo. com o sol caindo. com o pasto afiando orvalho até o último limite antes do sol nascer. pensar no quanto eu te amo. pensar no quão nada eu seria se você parasse de me amar. chorar pensando nos filmes que virão. emprestar problemas ao romance que não vem. que talvez nunca mais virá. esperar respostas de pessoas que não entendem o que quero perguntar. responder o que não me foi perguntando. escrever o que não me é aceito. escrever até nunca mais ser entendido. deitar na cama e desligar a luz da cabeceira e os olhos caindo sobre as páginas do livro que nunca termino. coisas que eu faço todos os dias. 

terça-feira, 8 de julho de 2008

um passarinho. dois.

era cedo na manhã do domingo. a chuva da noite tinha ficado para trás. um vento quente entrou pela janela do banheiro e fazia sol do outro lado do vidro. fiquei um tempo olhando para mim mesmo dentro do espelho. a água saía da torneira e escorria pelo cano. até onde ela poderia chegar?  meus olhos pareciam acordados há muitos anos. não era como se fosse manhã para os meus olhos. eles estavam despertos e eu parecia tão bonito. eu não tinha consumido nenhum tipo de droga, mas me sentia belo naquela hora da manhã daquele domingo que passou. sempre que me vejo bonito, o primeiro pensamento que me vem é "o que foi que eu tomei para ficar assim?" ou "o que foi que eu bebi para pensar assim?" ou "preciso aproveitar antes que isso passe".


quando tomo ácido eu me sinto sempre realmente belo. quando cheiro cocaína eu me sinto acima da média da beleza e, mesmo sabendo que não sou tão belo, sei que sou mais do que a maioria das pessoas. quando fumo eu me confundo e nunca consigo me olhar por tempo demais. acabo sentindo medo, angústia, qualquer coisa ruim e que me desvia de mim. do meu eu exterior.


mas eu não tinha feito nada dessas coisas que são erradas de se fazer e que a gente só faz até uma certa idade (ahahahhahahah). nem bebido vinho eu tinha. era cedo demais de um domingo de manhã e o inverno parecia ter dado uma trégua e eu resolvi, naquele momento, em frente à pia daquele banheiro, que aquele seria um domingo perfeito. lembrei de você. há quanto tempo nós não nos víamos? como você estaria agora? onde você estaria naquele domingo? pq eu não podia estar contigo? pq não crescíamos juntos? pq vc não crescia comigo?


fiz a barba e, estranhamente, eu continuava me sentindo belo. as palavras do juiz voltaram à minha cabeça e eu não ficaria longe de você esperando uma solução de pessoas que não nos conheciam.  a justiça nem sempre é justa. meu coração doeu um pouco mais e eu faria qualquer coisa para passar por cima dos outros e chegar perto de ti.


na frente de casa a grama estava verde e o sol brilhava alto. a natureza eram todos os sinais de que o mundo seria belo se eu fizesse alguma coisa por nós. o sol brilhando seria a chave para que eu tomasse alguma atitude. um passarinho parou de voar perto de mim e ele tinha o peito amarelo e ele piou alto e depois desapareceu dentro do pé de manga. a imagem de um ninho cheio de filhotes famintos era a saudade que eu sentia de você. a passarinha esperando o papai alimentar os pequenos era a sua fome que não me deixariam matar. os bicadinhos na testa dos passarinhozinhos pequenos eram os carinhos que não tivemos para nos dar. qual seria o tamanho das suas mãos? para quem os seus olhos sorriam agora? quantos quilos você ganhou desde a última vez em que te levantei nos meus braços?


peguei as chaves do carro. antes de dar a partida voltei correndo para dentro de casa. peguei a cadeira de praia. peguei um espeto e uma garrafa de álcool. aquele seria um domingo perfeito e você estaria comigo. não importaria nada mais além de nós dois e além do sol que brilhava tão lindo e de todas as famílias de passarinhos felizes se escondendo dentro de todas as árvores da nossa cidade. nós dois estaríamos juntos meu passarinhozinho e você me faria voar sobre o domingo e o domingo seria perfeito para nós dois.


escondi o espeto e a garrafa de álcool dentro do porta-malas e joguei a cadeira de praia no banco de trás. poucas ruas nos dividiam. liguei o limpador e as merdas dos passarinhos foram, pouco a pouco, sendo lavadas do para-brisa. pensei em lavar o carro para você não sentir o cheiro do meu cigarro. pensei em lavar o carro para não levantar suspeitas. o policiamento tem sido ostensivo nos últimos meses. todo o cuidado é pouco. um carro bem lavado sempre levantará as menores suspeitas. 


avancei algumas ruas até chegar à sua e o domingo brilhava o sol sobre o mês de julho. no meio do inverno uns poucos raios nos aqueceriam e nós dois teríamos a eternidade de uma tarde de domingo somente para nós dois, meu passarinhozinho. eu seria o seu passarão-pai e nós dois voaríamos para longe e nós dois seríamos as asas que nos arrancaram. eu limparia as suas penas dos piolhos de passarinho e você devolveria a força aos meus braços até que você voasse sobre mim e até que você olhasse nos meus olhos e dentro deles encontrasse o seu pai de verdade que sou somente eu e sempre eu. e eu te lamberia os olhos até entender dentro do seu gosto o sabor exato de um filho quando volta para casa para nunca mais partir. seríamos um mesmo na tarde eterna do domingo perfeito.


coloquei um cd da joni mitchell para tocar e acelerei um pouco mais. antes de chegar na sua rua eu parei de andar rápido. você poderia aparecer a qualquer momento e você poderia estar mais perto de mim e o que eu faria com você não seria sequestrar criancinhas. o meu amor te deixaria um pouco assustado no comecinho, mas depois seríamos um só e a tarde que eu te daria seria nossa para sempre.


fiquei parado na esquina da sua casa. o motor parou de fazer barulho e uma senhora foi até o portão. talvez ela esperasse uma visita. talvez eu fosse o seu filho que nunca mais voltou. talvez ela soubesse de tudo o que eu pensava em fazer com você. talvez ela soubesse que eu planejava partir para muito longe levando você comigo. ela não sabia que os crimes sempre compensam. todo o crime sempre será recompensado quando praticado com o amor correspondente à dor que ele pode causar.


na frente da casa da sua mãe a rua parecia mais calma. liguei o motor e acelerei um pouco. avancei alguns metros e parei outra vez. a sua casa parecia vazia. abri a porta e saí do carro. o ar estava tão quente e tudo era um sinal para que eu avançasse um pouco mais. o gramado na frente da sua casa eram os seus caminhões de plásticos e a sua pequena bicicleta com rodinhas para te equilibrar. você já tinha idade para andar sem rodinhas. o tempo passa rápido demais. meu filho crescia sem que eu aprendesse a me equilibrar longe dele. meu filho ganhava velocidades, mas o medo de cair será sempre maior para os passarinhos sem pai. para as bicicletas sem rodinhas. a porta da sua casa se abriu e ela saiu te carregando no colo. assim que vocês chegaram na rua ela parou e te colocou no chão. você levantou os braços e talvez você tenha chorado e ela bateu com carinho na sua cabeça e os cachos loiros do seu cabelo eram os meus antes de ser teu pai. depois ela caminhou e você continuou parado na calçada sem saber o que fazer. ela andava olhando para a frente e ela iria embora sem olhar pra trás e ela te deixaria sozinho. elas sempre irão embora. cedo ou tarde, você também ficará para trás, meu pequeno. cedo ou tarde eu teria que ser o seu pai e você o meu filho.


você se virou para ver a rua às suas costas e eu estava lá. ela continuava andando sem notar que você não estava mais com ela. eu abri os braços e o tubo de àlcool explodiu no porta-malas. você abriu todos os sorrisos e a ponta do espeto ganhou fio mais perto de nós. 


de braços abertos o pássaro grande se ajoelhou na calçada e o passarinhozinho pequeno foi correndo até ele e a pássara grande que era a sua mãe te viu voar até mim. quando nos abraçamos o domingo virou a cena de um filme que nunca sairía de nós. ela gritou e os seus passos correram até nós. antes que eu pudesse girar com você nos meus braços e antes que o tempo pudesse parar e antes que a rua sorrisse o pai e o filho abraçados eu tive que te jogar dentro do meu carro. e eu precisei acelerar sem te amarrar no banco de trás e eu precisei correr e avançar estradas e encontrar algum atalho que nos levasse para perto do rio.


quando chegamos no rio você sorria e você pediu para eu correr mais forte e eu sabia que éramos feitos do mesmo tipo de amor. "agora nós não precisamos mais correr". nossas asas nos aqueceriam e você nunca mais ficaria sozinho meu pequeno passarinhozinho.


helicópteros nos perseguiriam, mas as nossas asas nos fariam fortes contra todos os ventos e aquela era uma tarde de domingo e aquele era o primeiro sol de todos os domingos que seríamos eu o seu pai e você o meu filho daquele dia até todos os que chegariam depois desse.


descemos do carro. eu te vi correr na grama verde e o rio estava cheio de inverno. liguei o rádio e ficamos correndo na grama como se fôssemos os dois uma propaganda de leite. ou de comida para café da manhã. ou de celular. éramos o comercial de tudo o que aproxima os que se amam. éramos o lanche da manhã. éramos a força que nos manteria juntos para sempre. o calor dos laços de sangue. o amor quando não deixa dúvidas. as fugas quando não deixam rastro.


depois as suas perninhas ficaram cansadas de correr e nós voltamos para dentro do carro. eu abri a cadeira de praia e ela era o seu abrigo contra as bombas nucleares que explodiriam em tão pouco tempo sobre nós. abri o porta-malas e o álcool estava lá e o espeto seria o churrasco que nunca fizemos e você seria a carne para que eu continuasse forte. fechei os olhos. o sol queimava. o sangue era vermelho dentro das pálpebras fechadas. o sangue é sempre mais quente. naquela tarde nós dois seríamos um só. eu e você seríamos o mesmo homem. eu te faria em mim e eu te ensinaria a andar como um deus caminhando na terra e eu te faria asas para ver o mundo lá do alto. lá em cima, naquele alto, ninguém nos tocaria. longe dos homens nós dois teríamos a nossa própria lei e não seria preciso mais estar vivo para continuar vivendo. 


partimos. e você voltou para mim. e eu ganhei a guarda definitiva sobre nós. o mundo é dos que são rápidos. a vida voa quando não temos asas.

segunda-feira, 7 de julho de 2008


acordei. era meio da noite quando acordei. não fazia tanto frio. não o frio de uma noite de julho. não o frio que faria se fosse essa mesma noite só que há dez anos atrás. não o frio que faria se eu ainda precisasse ir para a escola logo assim que amanhecesse. para escutar professores. para copiar matérias. para decorar números e para conviver com a pior espécie de ser humano com a qual eu já convivi: os meus colegas de segundo grau. filhos da burguesia. filhos da cidade. bem-nascidos. bem-alimentados. tão maldosos e tão fracos nas suas intenções. tenho medo deles até hoje. tenho medo do que eles fizeram de mim. um homem cheio de escudos e uma armadura de ferro que nenhum tiro pode sangrar. eles me ensinaram a sangrar por dentro. escondido de mim mesmo. eles me fizeram tão forte que até eu acredito nessa força inventada para sobreviver a eles. como diz a minha avó: quanto mais merda na terra, mais força no tronco. então foi assim. dezesseis anos de merda para hoje eu estar forte. e frio. e longe. eles me empurraram para o alto. mas o alto talvez seja alto demais do chão. e talvez a queda venha e, se ela vier, vai ser bem foda encontrar alguém disposto a empurrar a minha cadeira de rodas.


mas o domingo foi perfeito. e é dele que eu vou me lembrar.


quando acordei era madrugada e não fazia frio. sentei na cama e eu estava sozinho no quarto onde cresci, na casa da minha mãe, nessa pequena cidade perdida ao sul do sul do sul do brasil. ontem era uma noite de julho e teria sido fria se o planeta ainda ventilasse. fiquei um tempo sentado no escuro sem saber o que fazer. era madrugada. a janela estava fechada e nenhuma claridade atravessava as cortinas fechadas. deveria ser madrugada. levantei da cama e fui até o banheiro. fiquei um tempo sentado no vaso esperando que as minhas cochas aquecessem o plástico da privada. mijei e o jato era forte. ainda era forte. os azulejos eram o passado antes de ontem. meus olhos se acostumavam, lentamente, à claridade da madrugada e eu pensei que talvez tenha ido dormir cedo demais na noite anterior. eu pensei que estava ficando velho. eu pensei que tudo era rápido demais. pensei em fazer cocô. contraí os músculos da barriga, mas meu intestino parecia tão limpo. minha mãe perdia o brilho dentro do quarto. meu pai roncava e a cidade que eles habitavam nunca mais seria a minha. a casa onde eles me fizeram nascer nunca mais seria eu. as fotografias sobre a mesa de jantar eram páginas de um livro que eu não lembrava de um dia ter escrito.


voltei para a cama. a escuridão voltou a tomar conta dos meus olhos e um galo cantou em algum lugar do bairro. as ruas estavam silenciosas. os carros dormiam nas garagens. a noite era alta demais para uma madrugada de domingo. lembrei de são paulo. das suas ruas que nunca descansam. lembrei das histórias de assombração dentro do meu quarto há tanto tempo atrás. se eu abrisse os olhos eu veria minha irmã e eu sentados no chão invocando espíritos de luz em um jogo do copo em alguma noite de julho. muito mais fria. muito mais longe. muito mais bela. para os dias ficarem bonitos basta que estejam no passado. lembrei dos espíritos nos comunicando mensagens cifradas. o autor do incêndio na igreja era revelado para nós. o dia da nossa morte era segredo entre os da luz. o espírito das trevas nos insultava e era joão satanás o homem que tirava o nosso sono quando o copo girava rápido demais e nossos dedos tão pequenos eram toda a força para que ele não virasse.


mas preciso te contar sobre um domingo perfeito. é ele que importa agora.


um galo cantou na rua de baixo e depois outro galo respondeu no quintal do vizinho e talvez já fosse quase dia. abri os olhos e o quarto continuava imerso naquela mesma escuridão. era madrugada de domingo e eu pensei em tudo o que estaria fazendo se o meu corpo não estivesse dormindo na mesma cama onde cresci. lembrei das punhetas antigas. da espessura do meu pau quando o seu tamanho ainda era um mistério. a textura da minha pele antes que eu crescesse. se eu estivesse em são paulo a noite de sábado seria tudo para fugir de mim mesmo. seria a festa e a bebida e a putaria e tudo o que pensam ser a vida. longe daqui a vida é uma sucessão incessante de posts frenéticos sobre tudo o que se faz. sobre o tanto que se bebe. sobre as drogas que nos distanciam e sobre o sexo que não nos contém. e eu fiquei feliz por estar longe de lá. longe das livrarias, dos cinemas, dos cafés... e eu adiei em meus pensamentos a volta para aquela cidade que não era mais eu. são paulo é um passado distante. lembrei dos meus livros esperando por mim na casa onde não cheguei a habitar. lembrei dos meus vinis me esperando na grande metrópole. a vitrola sozinha na sala esperando que eu voltasse para cantar as noites de vinho e amigos. a janela onde o abacateiro perde as folhas. o sabiá nos seus galhos espiando a tarde passando tão devagar. são paulo. lajeado. dois pontos distantes onde tento me equilibrar. onde preciso me equilibrar. onde sempre terei que habitar.


mas preciso te contar sobre o domingo perfeito.


ainda no escuro tirei o braço debaixo dos cobertores tateando a caixa de som ao lado da cama sobre a qual estão os livros. o celular estaria lá, ao lado da luminária de borboletas. o celular estava lá e ele veio até mim e a luz azul clara eram três e quarenta da manhã e talvez eu tenha ido dormir realmente cedo demais. acendi a luminária e fiquei deitado na cama sentindo muita fome. muita fome. muita fome. pensei em tudo o que havia comido antes de deitar. pensei nos quilos que perdi. acariciei minha barriga e ela estava magra. mas nunca magra o bastante para que eu pare de sentir fome e vontade de ser magro um pouco mais a cada dia. enfiei a mão dentro da calça e eu estava mole e triste. saí dos cobertores e, na cozinha da minha mãe, comi um iogurte desnatado encostado na pia da cozinha. as louças da noite passada estavam todas lá. os três cálices de vinho foram nós quando rimos depois da novela. os pratos foram ela quando eu recusei o excesso de gordura no assado. o cinzeiro eram os nossos baseados e minha mãe rindo antes de ir dormir e meu pai se queimando antes que a lareira nos aquecesse sem precisar. 


mas preciso te contar sobre o domingo perfeito. só ele pode esperar.










ps - aqui nesse café toca a rádio da universidade de lajeado. não preciso mais comentar sobre isso. sobre o quanto a rádio da univates é exatamente a rádio que essa cidade precisa. sobre o quanto a univates é a universidade que essa cidade reflete. sobre o quanto esse café semi-frequentado são os homens da manhã devorando sanduíches apressados antes de começar a semana. hoje esqueci de trazer os fones de ouvido. nenhuma canção me levará para longe. mas tem a rádio da univates. é sempre possível emporcalhar um pouco mais essa cidade. quanto mais merda, mais forte a planta. era assim que ela me ensinava a enfiar sementes na terra. quanto mais podre, mais colorida a folhagem. não tenho os meus fones. e um domingo perfeito jamais será escrito ao som dessa rádio. à tarde, com cat power em meus ouvidos, voltarei aqui para te contar o nosso domingo como teria sido se perfeição. com a rádio da univates tocando ao fundo fica impossível escrever. mas eu tentei. eu sempre tento. sempre tentarei.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

a entrevista
















ela - você está nervoso?

eu - nervoso com o quê?

ela - com toda essa coisa do filme...

eu - hmmmm. não.

ela - mas, assim, você não está nem um pouco preocupado se o filme vai ser um sucesso?

eu - hmmmm. não!

ela - e se ele não for um sucesso?

eu - ele já é um sucesso. pelo simples fato de estar acontecendo acredito que já seja um sucesso...

(pausa)

ela - mas, e se as pessoas não gostarem do filme?

eu - normal.

ela - mas e se falarem mal?

eu - alguém sempre vai falar mal...

ela - mas. assim, você não se preocupa com a reação das pessoas?

eu -  que pessoas? de quais pessoas você está falando? foda-se as pessoas. se eu desse bola para as pessoas não escreveria as coisas que eu escrevo.

ela - vc não está preocupado se vc vai ganhar algum troféu?

eu - troféu? eu faço arte. eu não faço esporte. se eu fosse esportista eu estaria pensando em troféu.

ela - (me ridicularizando) hummmmmm. eu faço arte...

eu - faço mesmo. ainda bem.

ela - nunca pensei que você pudesse ser tão cagão.

eu - o quê?

ela - cagão! cagão! cagão! 

eu - cagão pq?

ela - não tem nem coragem de assumir que está com medo. que cagão!

eu - eu não estou com medo. se eu tivesse medo eu não me exporia do jeito que me exponho.

ela - que mania é essa de falar em se expôr? só sabe falar em se expôr... pra quê isso agora? pensa que me intimida com isso de "se expôr"?

eu - pelos livros que eu publico você pode perceber que eu não tenho medo de me expôr...

ela - (quase gritando) livro-s? livro-s??? que plural é esse? pelo que eu saiba você tem apenas UM livrinho publicado.

eu - cagona é tu!

ela - eu?

eu - sim. tu! é tu quem está TODA cagada de medo pq eu fui ter a infeliz idéia de fazer esse filme bem aqui... tá TODA cagada de medo de as "pessoas" saírem falando mal de mim. tá com medo de que as pessoas entendam que eu só sei falar mal desse cu de mundo em tudo o que eu escrevo. tu morre de medo de que as pessoas não adorem o teu filhinho. não babem em cima dele. só que agora tu te fudeu querida. pq o teu filhinho tá CAGANDO para ti. o teu filhinho NUNCA foi adorado e nunca vai ser. e sabe pq? FODA-SE pq! FODA-SE. FODA-SE. FODA-SE.










ela continuou lavando a louça. peguei as chaves e saí de casa. antes de bater a porta ela ainda resmungava alguma coisa na cozinha, mas eu preferi fazer de conta que não estava escutando. lembrei de quando eu era criança e não via ofensa maior de um filho para a sua mãe do que deixá-la falando sozinha e sair de casa. e falar palavrão. e não ter pena dela.






naquele dia eu saí de casa sentindo muita raiva dela. quase bati o carro por duas vezes. minha mãe devia ser entrevistadora. minha mãe daria um banho na gabi gabriela.




o foda é que eu amo essa mulher que, não sei como, é a minha mãe. ela me ensina a ser forte com o mundo. pq ela é mais forte do que ele. ela é muito mais forte do que eu. depois dela acho que nenhum chumbo grosso pode me derrubar.

quinta-feira, 3 de julho de 2008



























na tradição popular diz-se que os elfos vivem em sociedade, como os homens. possuem reis sumamente respeitados. amantes do jogo e da dança, passam a noite inteira em bailados infatigáveis que só cessam com o canto do galo, pois temem a luz e o olhar do homem. aquele que, numa noite enluarada, nos ermos e descampados, se deixe fascinar por uma filha dos elfos, está perdido para sempre. em geral, porém, suas danças não têm testemunhas. de manhã percebe-se apenas, na erva, o traço ligeiro dos seus pezinhos. 




os famosos e os duendes da morte
04.07.2008















...

quarta-feira, 2 de julho de 2008

o café está vazio. apenas um homem em uma das mesas. esse homem sou eu. do outro lado do vidro a cidade acontece. faz sol aqui. há dias que faz sol. a pequena cidade corre. finge ser uma coisa que ela não é. como todos daqui, a cidade também finge ser uma coisa que ela não é.

a vida de ator é sempre um pouco triste e bastante solitária. talvez a vida de um ator seja mais solitária do que a vida de um escritor. gosto das artes solitárias pelo simples fato de elas não fingirem ser uma coisa que elas não são. elas são solitárias. simples assim. elas não vendem nenhuma falsa promessa de socialização.

ontem tivemos uma experiência teatral aqui nessa pequena cidade. o jornal local vendia o curso como uma noite de transcendência. uma noite transcedental. eu não deveria começar nada nas terças-feiras. talvez a noite transcedental seja a pedra do meu caminho. talvez eu não tenha tomado o devido cuidado com ela. é preciso atenção com o que promete nos transcender. é preciso cuidado em dobro com aqueles que nos prometem visões e com aqueles que são intensos. com aqueles que choram vendo o sol se pôr. com aqueles que escrevem mensagens de amor incondicional e de sentimentos explosivos. a falsidade é quase vizinha dos intensos demais. tenho um pacto fiel comigo mesmo em relação aos intensos: botar pra correr. simples assim. se uma garota chega dizendo que sente-se tocada pelas palavras quase xamânicas dos meus textos, sorry beibe, vou te botar pra correr. se um adolescente me mandar um email dizendo que ele é o personagem que eu escrevi, sorry beibe, vou te botar pra correr. o foda é que tão difícil colocar os intensos para correr pq, de certa forma, eles nos fazem um bem danado. eles nos fazem acreditar que estamos no caminho certo. mas é preciso cuidado. 

eu me inscrevi para participar da noite transcedental. e é sobre ela que quero te contar. não sobre essa bobagem de querer descobrir pq algumas poucas pessoas tentam se aproximar de mim. essa é uma questão que não me levará a lugar nenhum. eu perco tempo demais com questões que não me levarão a lugar algum. 

estacionei na frente da casinha cor de laranja com o nome de um curso de yoga na frente. a aula transcedental seria lá.

o professor era um homem sem idade. não parecia uma dessas pessoas que vivem nessa cidade. nessa cidade todos são tão iguais. nessa cidade os homens não usam cachecol. não usam roupas com cortes diferentes. não ousam nas cores. não usam óculos escuros com formato antigo. aqui não se confundem as idades. os jovens usam roupas de surfista. os outros usam roupas funcionais. tudo o que possa camuflá-los entre o bando. como se sempre existisse uma fera faminta pronta a lhes devorar, todos passam os dias, os anos, a vida, tentando ser mais um no meio do bando. a fera come os mais fracos. a fera devora quem se destaca da paisagem. a fera me comeu. e foi bem legal. hoje eu sou um fantasma nessa cidade. meus contatos são espirituais, quase fantasmagóricos. 

o professor era diferente. usava um casaco de couro vermelho. mas não é por isso que ele era diferente. um professor de vermelho dentro de uma casa cor-de-laranja. alguma coisa estava errada. pelos meus cálculos alguma coisa estava errada. as cores eram quentes demais e eu sempre desconfio de tudo o que é quente demais. pessoas quentes demais me deixam cansado antes mesmo da festa começar. prefiro os gelados.

o professor sorriu e perguntou o meu nome. 
- ah, você é o escritor da cidade. já ouvi falar sobre você.
- não sou escritor e não sou da cidade. 
- estão fazendo um filme aqui né? se precisar de alguém para ajudar...
- você deve estar me confundindo.
- eu vi uma foto sua no jornal. era você sim o escritor da cidade.
- eu não sou da cidade.
- vocês são parecidos.
- pode ser.

o diálogo foi interrompido pela chegada de dois garotos. um garoto e uma garota. ela tinha a pele mais clara que eu já havia visto. todos aqui tem a pele bastante clara, mas a dela era diferente. era  a pele clara que somente as pessoas que gostam de ser claras conseguem ter. aqui todos têm vergonha de ser tão brancos. a única coisa que pode ser pior do que ser branco demais, para eles, é ser quase negro, moreno escuro, cafuso, mulato. aqui os brancos queimam a pele no verão e escondem o corpo branco no inverno. a garota da aula transcedental não. ela era dessas pessoas que sabem ser brancas sem ter vergonha de si. aqui todos têm sotaque de colono. todos são meio alemães. aqui todos ridicularizam os colonos. ela não. ela era meio colona. meio a nico. meio a marianne faithfull. meio essas musas que o cinema nunca mais soube fazer. ela falava com a voz mais fina do mundo e ela sabia que aquela voz seria feia em todas, menos nela. naquela voz fina eu podia escutar os ecos de uma mãe colona. de uma avó histérica. de um dialeto pomerane que a faria diferente de quase todos. quase igual a mim. talvez fôssemos parceiros de imigração num distante tempo partindo de uma terra encantada. a pomerânia. longe daqui. talvez ela fosse de uma criação que conhece a cidade há tão pouco tempo. talvez fôssemos primos sem saber. ela carregava nos olhos uma ancestralidade. por entender-se ancestral, nunca faria parte do bando camuflado da cidade. talvez ela estivesse morta. assim como eu.

ela disse "oi" e sentou-se em um banco. 

o garoto sentou ao lado dela. ficaram em silêncio. o garoto parecia um pouco mais jovem. talvez ela tivesse 18 e ele 17. ele enroscava os dedos e olhava para as mãos magras e brancas. talvez fossem irmãos. ele olhou para ela e sorriu. ela comprimiu os lábios, olhou para mim e depois olhou para as mãos dele e disse alguma coisa que eu não consegui escutar. ele mordeu os lábios e naquele instante um laço de sangue os transformou em irmãos.

o professor olhou para o relógio e perguntou se estávamos dispostos a começar. ela disse "sim". eu acenei a cabeça com um sorriso que já me parecia ridículo antes mesmo de começar. o garoto se pôs de pé e esticou os braços. o professor pediu que tirássemos nossos sapatos. encontrei um canto escondido antevendo o suor encharcar as minhas meias. antevendo o dedão gasto furando a malha branca e encardida. o chão parecia frio. tirei os sapatos e as meias. voltei ao centro da sala. ela ainda tirava as botas. a meia branca com flores amarelas fazia com que fosse um pouco palhaça. ele desamarrou o all-star e a meia cinza parecia tão quente. seus pés pareciam limpos e, naquela hora, eu os lamberia, se eles deixassem. eu estava descalço e o frio era só por não confiar que eu poderia ser tão limpo quanto eles e manter as meias sem pensar no cheiro úmido que viria delas. nada pode ser pior do que um cheiro úmido. eles faziam com que eu me sentisse úmido perto deles. eu não era o escritor da cidade. o professor parou de olhar para mim e se colocou entre os dois pegando na mão de cada um. eles estenderam as suas respectivas mãos até mim e eu sorri para ela quando os nossos olhos se encontraram antes de a roda se fechar. ela tinha mãos úmidas. ele tinha a mão fina e suave. olhei para o esmalte e as cutículas cresciam de um jeito um pouco relaxado. talvez ela fosse a escritora da cidade. talvez ela não fosse daqui. talvez os dois fossem, assim como eu, forasteiros interessados no estudo da hipocrisia humana que se desenvolve nas pequenas cidades de colonização alemã do interior do brasil. talvez eles fossem a prova concreta de que a vida nas pequenas cidades não seja tão pequena quanto a geografia dos seus contornos. talvez eles viessem da mesma pomerânia dos meus avós. talvez eles também tenham sido alfabetizado nesse dialeto sem regras.

ficamos um tempo em círculo sentindo o calor das nossas mãos passar de um dedo para o outro. o professor respirava com força dando a entender que deveríamos respirar todos igual a ele. ele fechou os olhos. depois abriu. e olhou para nós dando a entender que, além de termos todos que respirar profundamente, também deveríamos fechar os nossos olhos. o rapaz olhou para a menina e os dois fecharam os olhos ao mesmo tempo. tentei fechar os meus olhos junto com eles, mas as minhas pálpebras se atrasaram em uma fração de segundos, tempo o bastante para que eu fosse devorado pela fera que percebe os diferentes e mastiga os desiguais. ensaiei um sorriso tentando aplacar a fúria assassina. "eu sou um deles" - pensei baixinho sem querer admitir que os meus pensamentos pudessem formular a frase odiada.

depois de um longo tempo o professor falou baixo e pausadamente: "caguem nos seus pudores". pensei em abrir os olhos. ou falar sem abrir os olhos: "sim, eu sou o escritor da cidade". alguma coisa me dizia que eu não estava assim tão sozinho. eu queria que eles lessem os meus textos. eu queria que eles soubesse de mim. eu precisava que eu entendesse que eu era um deles. estar de mãos dadas respirando a mesma roda não era o bastante.

ficamos um tempo assim. senti que o professor já havia saído da roda quando a sua voz surgiu de um ponto distante da sala pedindo que nos aproximassemos lentamente ao som da música. esperei o som se estabelecer. era uma espécie de um mantra indiano com toques eletrônicos. uma world music que empurrava os meus pés para o chão e me fazia querer dançar por dentro. senti o garoto dar um passo na direção do centro da roda. antes de ser o último, dei um passo também e ficamos mais perto um do outro. a garota demorava a dar o seu passo e talvez ela fosse devorada pela fera. pensei em puxar o seu braço e obrigá-la a dar o seu passo para protegê-la dos perigos de não ser igual. o garoto deu mais um passo tímido, mas o bastante para os nossos braços se encontrarem. apesar das camadas de mangas sobre nossos braços eu sabia que ele era quente. dei um pequeno passo tímido e pude sentir um cheiro de xampú. o cheiro do xampú da minha avó. ficamos assim. eu e o garoto nos espremendo em um lado da roda, e ela com os dois braços estendidos mantendo-se longe de nós. indiferente à fera. despreocupada com ser igual.

a música terminou e ficamos sentindo as nossas respirações todas ao mesmo tempo. o ar parecia um pouco sujo. ela deu dois passos de uma só vez até e que os nossos braços ficassem bastante pertos. seguindo as ordens do professor, continuamos "cagando para os nossos pudores" avançando à frente até que as pontas dos nossos narizes se encontrassem. senti um cheiro ruim. um hálito de gente normal e algum de nós estava se entregando à fera. algum de nós era diferente dos três. meu pau ficou duro e eu afastei a bacia do centro da roda. meus pés se desiquilibraram e as pernas tremeram um pouco antes de recobrar o equilíbrio. eles continuavam respirando no mesmo ritmo. 

ficamos assim por duas horas.  de vez em quando nossas mãos suavam. de vez em quando alguém ensaiava um sorriso. de vez em quando o professor falava mais uma vez para que cagássemos nos nossos princípios. 

um pouco antes de o exercício chegar ao fim, os meus olhos começaram a chorar e o meu corpo começou a tremer e uma onda de tristeza bastante profunda se abateu sobre mim. misturado com a tristeza eu sentia uma estranha alegria. algo próximo de um estranho alívio. algo que fazia de mim um escritor. algo que fazia de mim estar perto deles. quase um igual. senti os dedos da garota me apertarem com força em volta dos meus e aquele era o sinal de que eu precisava. ela havia sentido o meu estado e ela se preocupava comigo. naquele momento eu não era mais o escritor. naquele momento eu era sim uma espécie de ator ou de qualquer artista que faz uma obra coletiva e, por isso, sente menos a dor da solidão da falta de inspiração e a frustrante falta de vontade. eu era alguém em um grupo e alguém me dava a mão e alguém me apertava com força se eu chorásse ou se o meu corpo fizesse coisas que nunca fez. eu transcenderia junto deles. 

a música terminou mais uma vez e eu prestei atenção no volume das respirações tentando entender se eles também estavam alterados, assim como eu estava. eles respiravam profunda e suavemente e talvez a fera tenha me devorado. 

pouco a pouco, seguindo as ordens do professor, abrimos os nossos olhos e ficamos nos olhando profundamente por um longo tempo. eles sorriam quando se olhavam e voltavam a ficar sérios quando olhavam para mim. talvez eu fosse o escritor da cidade e talvez por isso eu nunca seria um deles.

a aula terminou. ela calçou as botas e ele amarrou os cadarços do all star. e foram embora antes que eu terminasse de colocar minhas meias úmidas. o professor sorriu e perguntou se eu estava bem. respondi que sim. que era sempre bom fazer uma arte coletiva.

no caminho de volta para casa eu tentava engolir a pedra da terça-feira. e eu tentava voltar a ser um escritor. a fazer uma arte solitária sem estar só. e me perguntava, sem eu mesmo escutar, por que eu não era um deles. por que as pessoas iguais a mim, assim como eu, aqui nessa pequena cidade, também se escondem umas das outras?

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