segunda-feira, 7 de julho de 2008


acordei. era meio da noite quando acordei. não fazia tanto frio. não o frio de uma noite de julho. não o frio que faria se fosse essa mesma noite só que há dez anos atrás. não o frio que faria se eu ainda precisasse ir para a escola logo assim que amanhecesse. para escutar professores. para copiar matérias. para decorar números e para conviver com a pior espécie de ser humano com a qual eu já convivi: os meus colegas de segundo grau. filhos da burguesia. filhos da cidade. bem-nascidos. bem-alimentados. tão maldosos e tão fracos nas suas intenções. tenho medo deles até hoje. tenho medo do que eles fizeram de mim. um homem cheio de escudos e uma armadura de ferro que nenhum tiro pode sangrar. eles me ensinaram a sangrar por dentro. escondido de mim mesmo. eles me fizeram tão forte que até eu acredito nessa força inventada para sobreviver a eles. como diz a minha avó: quanto mais merda na terra, mais força no tronco. então foi assim. dezesseis anos de merda para hoje eu estar forte. e frio. e longe. eles me empurraram para o alto. mas o alto talvez seja alto demais do chão. e talvez a queda venha e, se ela vier, vai ser bem foda encontrar alguém disposto a empurrar a minha cadeira de rodas.


mas o domingo foi perfeito. e é dele que eu vou me lembrar.


quando acordei era madrugada e não fazia frio. sentei na cama e eu estava sozinho no quarto onde cresci, na casa da minha mãe, nessa pequena cidade perdida ao sul do sul do sul do brasil. ontem era uma noite de julho e teria sido fria se o planeta ainda ventilasse. fiquei um tempo sentado no escuro sem saber o que fazer. era madrugada. a janela estava fechada e nenhuma claridade atravessava as cortinas fechadas. deveria ser madrugada. levantei da cama e fui até o banheiro. fiquei um tempo sentado no vaso esperando que as minhas cochas aquecessem o plástico da privada. mijei e o jato era forte. ainda era forte. os azulejos eram o passado antes de ontem. meus olhos se acostumavam, lentamente, à claridade da madrugada e eu pensei que talvez tenha ido dormir cedo demais na noite anterior. eu pensei que estava ficando velho. eu pensei que tudo era rápido demais. pensei em fazer cocô. contraí os músculos da barriga, mas meu intestino parecia tão limpo. minha mãe perdia o brilho dentro do quarto. meu pai roncava e a cidade que eles habitavam nunca mais seria a minha. a casa onde eles me fizeram nascer nunca mais seria eu. as fotografias sobre a mesa de jantar eram páginas de um livro que eu não lembrava de um dia ter escrito.


voltei para a cama. a escuridão voltou a tomar conta dos meus olhos e um galo cantou em algum lugar do bairro. as ruas estavam silenciosas. os carros dormiam nas garagens. a noite era alta demais para uma madrugada de domingo. lembrei de são paulo. das suas ruas que nunca descansam. lembrei das histórias de assombração dentro do meu quarto há tanto tempo atrás. se eu abrisse os olhos eu veria minha irmã e eu sentados no chão invocando espíritos de luz em um jogo do copo em alguma noite de julho. muito mais fria. muito mais longe. muito mais bela. para os dias ficarem bonitos basta que estejam no passado. lembrei dos espíritos nos comunicando mensagens cifradas. o autor do incêndio na igreja era revelado para nós. o dia da nossa morte era segredo entre os da luz. o espírito das trevas nos insultava e era joão satanás o homem que tirava o nosso sono quando o copo girava rápido demais e nossos dedos tão pequenos eram toda a força para que ele não virasse.


mas preciso te contar sobre um domingo perfeito. é ele que importa agora.


um galo cantou na rua de baixo e depois outro galo respondeu no quintal do vizinho e talvez já fosse quase dia. abri os olhos e o quarto continuava imerso naquela mesma escuridão. era madrugada de domingo e eu pensei em tudo o que estaria fazendo se o meu corpo não estivesse dormindo na mesma cama onde cresci. lembrei das punhetas antigas. da espessura do meu pau quando o seu tamanho ainda era um mistério. a textura da minha pele antes que eu crescesse. se eu estivesse em são paulo a noite de sábado seria tudo para fugir de mim mesmo. seria a festa e a bebida e a putaria e tudo o que pensam ser a vida. longe daqui a vida é uma sucessão incessante de posts frenéticos sobre tudo o que se faz. sobre o tanto que se bebe. sobre as drogas que nos distanciam e sobre o sexo que não nos contém. e eu fiquei feliz por estar longe de lá. longe das livrarias, dos cinemas, dos cafés... e eu adiei em meus pensamentos a volta para aquela cidade que não era mais eu. são paulo é um passado distante. lembrei dos meus livros esperando por mim na casa onde não cheguei a habitar. lembrei dos meus vinis me esperando na grande metrópole. a vitrola sozinha na sala esperando que eu voltasse para cantar as noites de vinho e amigos. a janela onde o abacateiro perde as folhas. o sabiá nos seus galhos espiando a tarde passando tão devagar. são paulo. lajeado. dois pontos distantes onde tento me equilibrar. onde preciso me equilibrar. onde sempre terei que habitar.


mas preciso te contar sobre o domingo perfeito.


ainda no escuro tirei o braço debaixo dos cobertores tateando a caixa de som ao lado da cama sobre a qual estão os livros. o celular estaria lá, ao lado da luminária de borboletas. o celular estava lá e ele veio até mim e a luz azul clara eram três e quarenta da manhã e talvez eu tenha ido dormir realmente cedo demais. acendi a luminária e fiquei deitado na cama sentindo muita fome. muita fome. muita fome. pensei em tudo o que havia comido antes de deitar. pensei nos quilos que perdi. acariciei minha barriga e ela estava magra. mas nunca magra o bastante para que eu pare de sentir fome e vontade de ser magro um pouco mais a cada dia. enfiei a mão dentro da calça e eu estava mole e triste. saí dos cobertores e, na cozinha da minha mãe, comi um iogurte desnatado encostado na pia da cozinha. as louças da noite passada estavam todas lá. os três cálices de vinho foram nós quando rimos depois da novela. os pratos foram ela quando eu recusei o excesso de gordura no assado. o cinzeiro eram os nossos baseados e minha mãe rindo antes de ir dormir e meu pai se queimando antes que a lareira nos aquecesse sem precisar. 


mas preciso te contar sobre o domingo perfeito. só ele pode esperar.










ps - aqui nesse café toca a rádio da universidade de lajeado. não preciso mais comentar sobre isso. sobre o quanto a rádio da univates é exatamente a rádio que essa cidade precisa. sobre o quanto a univates é a universidade que essa cidade reflete. sobre o quanto esse café semi-frequentado são os homens da manhã devorando sanduíches apressados antes de começar a semana. hoje esqueci de trazer os fones de ouvido. nenhuma canção me levará para longe. mas tem a rádio da univates. é sempre possível emporcalhar um pouco mais essa cidade. quanto mais merda, mais forte a planta. era assim que ela me ensinava a enfiar sementes na terra. quanto mais podre, mais colorida a folhagem. não tenho os meus fones. e um domingo perfeito jamais será escrito ao som dessa rádio. à tarde, com cat power em meus ouvidos, voltarei aqui para te contar o nosso domingo como teria sido se perfeição. com a rádio da univates tocando ao fundo fica impossível escrever. mas eu tentei. eu sempre tento. sempre tentarei.

3 comentários:

sara lee disse...

vc podia ser prefa de lajeado e fazer tudo ser mais diferente e perfeito
hehe
eu levo tua cadeira
reclamo, mas levo

casada da silva disse...

ai merda...
ai merda.
Ai q merda!
Hj tá batendo um ventinho estranho.
Dia de esconder a corda, né?
Q coisa isso q tu escreveu...
q coisa.
q merda de cidade.
q triste essa merda.

rodrigobolzan disse...

wisma, li este post seu

meu domingo foi de sol com forró eletrônico alto saindo duma caixa de som na praia do futuro em fortaleza

depois encontrei um amigo que me levou pro quiosque moderno, 50 metros depois.jovens vestidos de preto e marina rolando;

o que toca na radio daí?

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