domingo, 26 de abril de 2009






























Todos os domingos em que amanheço nessa cidade é impossível não ter a sensação de perda de tempo. Da janela da área de serviço tem uma vista bonita. Quando olho para fora sempre me pergunto o que estou fazendo aqui.
Cheguei em São Paulo em um Sábado de manhã. Vim de ônibus. Com muito pouco dinheiro e uma certeza que se diluía a cada quilometro avançado na direção desse lugar. Por sorte todas as prerrogativas se confirmaram e o impossível aconteceu. É isso o que me faz ainda gostar daqui. Aqui é onde o impossível deixa de ser.
Caminhar pelos Jardins no fim da tarde de um sábado e descobrir cafés pequenos e interessantes e surpreendentemente vazios. A voz de todos os amigos que reclamam da falta de opção grita nos meus ouvidos, mas eu não entro em um lugar para ser só eu. Isso não. Ainda. Aqui.
Alguém te telefona e esse alguém está saindo de um grupo de filosofia e você comenta que pensa em ver “a questão humana” no cinesesc e esse alguém também quer ver e então vocês decidem um café no Suplicy antes de tudo. O Suplicy sempre está cheio, o atendimento é péssimo, a freqüência é cafona mas o café é sensacional. Então você está acomodado em poltronas de couro conversando sobre apartamentos para alugar e aconselhando amigos que hoje não ousam acreditar no amor.
Depois um carro. Uma rádio tocando uma música ruim que fala sobre o Rio. E o cinema. E fila. E pessoas. E amigos antigos. Ela está grávida e o marido sorri ao seu lado. Os cabelos grisalhos. As máscaras caindo. A alegria das mães. A ingenuidade das mães. A maldade das mães. O mundo não será melhor, mas elas precisam acreditar. O mundo não será mais justo com o seu filho do que ele foi com você. Melhor não pensar nessas coisas. O mundo não. Só hoje o mundo não. Encosto as duas mãos na barriga da mãe e olho para ela e não reconheço mais naqueles olhos a garota que um dia eu amei. Seu marido aperta o quadril e beija-lhe o rosto. Depois os dois sorriem para mim e pedem que eu conte alguma novidade. Revelo o medo do futuro. E eles riem, desdenham o que penso e sugerem um café. A sessão já vai começar e eu me despeço. Entro no banheiro e me acho muito mais bonito do que eles um dia foram. 
O filme me faz dormir. Depois me faz pensar em tudo, menos nele mesmo. De vez em quando acariciávamos nossas mãos. Depois esquecíamos de ser um para cair novamente no abismo interior de sensações incontroláveis. Um filme que não nos interessa é porta escancarada para visitas intimas para dentro de si. 
Terminar o filme e a fila atravessando a rua esperando a próxima sessão. O mundo vive em salas de cinema nessa cidade onde o acaso quase não acontece. Aqui não existem estradas de terra para se esconder quando a noite ameaça perder o controle. Aqui não existem sóis que caem tão lindos no final de todas as tardes. Aqui não existem pássaros cruzando o céu na volta para a casa. Aqui são os homens o fenômeno mais natural. Aqui são os assuntos o que nos faz perder o fôlego nos momentos mais inesperados. Aqui o mundo é dos racionais. E a Terra é apenas um planeta distante de onde, de tempos em tempos, chega alguma noticia sem muita importância. Uma fotografia. Ou o triste relato de uma viagem que não deveria ter acontecido.












3 comentários:

Paula Manzo disse...

mas essa cidade sempre me surpreende nos acasos.

Paulo F. Perizzolo disse...

Para pra escutar as sirenes...

sara lee disse...

a maior violencia do mundo
de tão insuportável
só resta suportá-la:
o mundo não será melhor para os nossos filhos.

ser mãe e manter os olhos abertos é atestado de masoquismo. o que de pior eu poderia fazer por mim mesma hein?
e se divertir nos intervalos.

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