segunda-feira, 4 de maio de 2009

para uma segunda-feira sem sol











Uma carne cozinha na panela. Uma garrafa de vinho está aberta sobre a bancada da cozinha. A louça está lavada e a torneira pinga em intervalos regulares de tempo. Não sei se ficarei sozinho na casa.

Sim. Eu ficarei sozinho. Comerei sozinho. Dançarei sozinho e fumarei sozinho olhando para a cidade do outro lado da janela. Agora eu ligo para você.

É que basta simplesmente se acabar num sábado à noite para que a semana inteira encontre algum sentido para continuar existindo. Hoje fui dormir às sete da manhã. O nariz intacto e o estômago livre de destilados. O vinho veio da serra onde fomos felizes. O vinho da menina da boca bonita e todas as meninas aqui descritas são exatamente o oposto daquilo que elas representam.

Estava tenso, agora não estou mais. Despejei verdades sobre meu MSN. Lide com elas agora que estamos longe. Agora que não existem estradas que liguem nossas portas. Estamos separados por fusos horários. Nada pode ser mais cruel.

Penso nos lugares com os quais não posso me comunicar agora. Na esquina da agencia do Banco do Brasil de Arroio do Meio. Quem estará lá? Nosso tempo estará para sempre aprisionado em calçadas limpas. Ou em ervas daninhas que crescem entre os paralelepípedos da rua onde ousamos crescer. (acordo e encontro o arquivo aberto) Penso nos adolescentes das cidades paulistanas onde agora existe toque de recolher. O juiz de trinta anos usando a bíblia para justificar proibições. O livro das castrações. Proibições. O livro do não fazer. Penso em Lajeado. Nos envolvidos em crimes neo-nazistas. Nas escolas que derrubam arvores centenárias. Nos adolescentes fumando craque no parque dos Dick. Às vezes é só segunda-feira e talvez eu deveria ter ficado mais tempo na cama.

Os vizinhos falam alto e, para eles, o mundo ainda tem alguma importância. Ligo o som para ouvir cantoras de voz suave (Anya Marina, Carla Bruni, Au Revoir Simone). Cat Power não. Apesar de suave, sua voz escorre sangue de pulsos prestes a serem cortados. Agora é Gal. Sempre repetindo “Dê Um Rolê”. E é assim que vai ser. Daqui a pouco vou pegar a rua com o computador pendurado nas costas e com a cabeça vazia para a correção das primeiras trinta paginas do novo livro. Todas as correções aumentam os significados e um gesto descrito quase sem por quê pode assumir importâncias surpreendentes. Como tudo em nosso próprio cotidiano. Se isolado. Se analisada a sua função para que a história avance, cada gesto do nosso próprio cotidiano contem dentro dele uma infinidade de significados. Há todo um código genético escondido em tudo o que nos contem. Perigo é agir por inércia. O resto a gente agüenta.

 

Começou “The Kinks”. Sunny Afternoon. Do outro lado da janela ele brilha e mais um texto chega ao fim com uma bonita trilha sonora.

Um comentário:

sara lee disse...

pensem nas criancinhas
que engolimos pra crescer

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