sexta-feira, 8 de maio de 2009

Na vitrola um disco toca muito mais lento do que a rotação normal. Os sons distorcidos fazem novos sentidos. O tempo anda mais devagar. A voz da cantora mais límpida dentro de cada segundo dilatado pela agulha. A agulha está longe do meu corpo. Até quando as agulhas estarão longe do meu corpo?

No teto um mosquito bate as asas tentando atravessar o concreto. A raiz dos meus cabelos coça. Eles pedem água. Meus dedos gritam por um descanso. Ou por golpes mais precisos. As articulações são mais frágeis quando pegas de surpresa. Do outro lado da janela eles olham para mim. E eu nunca saberei a força do inimigo que me espera.

Mas quando Gal roda eu sou o selvagem que levanta o braço, abre a mão e tira um caju. A Tuane entra no posto faleiro para comprar uma Coca Cola. Ainda existem momentos de grande amor.

A Tuane ainda não foi embora, não tem como saber tudo o que ela é capaz de esperar. Não tem como predizer nada sobre ninguém. Só que um dia tu ta com a cara esfolada na merda e no outro tu até consegue abrir a torneira e se olhar no fundo dos olhos. No outro você já ousa sentir as gotas fazerem cócegas em seu rosto. O mundo já nos deu trabalho demais. Podemos passar horas apenas sentindo a água escorrer e depois secar naturalmente sobre a pele. Tanto faz se foi choro ou se foi chuva.  Cicatrizamos cedo demais. Aprendemos a não esperar e, por isso, termos em nós todo o tempo do mundo. Toda a urgência e toda a calma do mundo.

Hoje é noite de lua cheia. Ela nasce atrás dos prédios e eu visito um lugar antigo pela primeira vez. Talvez pela primeira vez eu veja nitidamente o passado dentro de mim, sem ter nenhuma vontade de voltar até ele. Basta que eu fique um pouco quieto. Ou que execute repetições infinitas sobre um mesmo gesto. Quem sabe os dedos.

Baby’s on fire. Não importa o que escutamos juntos pela primeira vez. Dirija suas lentes para onde quer que seja. Mas nunca se esqueça de que o filtro ainda está em você.

4 comentários:

Alien disse...

crédo, fiquei pensando naquilo dos filhos que tá escrito ali embaixo.
todos da minha classe já têm os seus.
eu tenho um cachorro imaginário.

se der, manda teu endereço, queria te mandar um papel.

anda procurando coisas concretas nesta coleção de vazios.

alien

et - o meu teatro é uma palavra costurada para dentro, com uma agulha que fura os meus dedos e olhos, mas que corrige a minha miopia.

sara lee disse...

sabe os cachorros que latem tão longe até não existir?
continuamos ouvindo, mesmo quando estamos cansados dessa estação.
senti tua falta por volta das 4 da manhã de sabado pra domingo, enquanto eu pensava "pq estou aqui?" e "estaremos pra sempre aqui".

t. disse...

aprendi a não esperar mais, só sentir. tudo o que me rodeia. ás vezes as coisas me encantam, mas outras vezes eu choro por sentir demais. a maioria delas. é assim.
baby's on fire.
better throw her in the water.

geheimnis disse...

que bonito uma menina em três lados.

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