quinta-feira, 28 de maio de 2009

Agora estamos, lentamente, adentrando o lado B. A agulha está gasta e pode se romper a qualquer momento. As faixas saltam. Gritam. Cortam. E eu lembro de quando eu acreditava que, se me concentrasse bastante, a agulha flutuaria sobre o vinil com a suavidade de um laser que ainda nem existia. Mais intensamente do que antes, o nosso lado A era a limpeza que não temos mais. Estamos cansados. Mordidos pelo vírus da grande cidade. Do outro lado da janela eu continuo lá. Na pequena praia esquecida.
O disco tranca beirando a paranóia e eu recebo a ligação de uma pessoa conhecida. Essa pessoa esclarece tudo. Fala que o mundo é uma bobagem e que a auto preservação é o segredo para a permanência. O mais importante é que ninguém saiba o meu nome. 

Hora de voltar para dentro da casa. De fechar as cortinas que não existem. De desmontar o cenário que não construí. Sinto coisas assim algumas vezes na minha vida. Sempre, depois de algum pequeno surto de empolgação, vem um balde de água fria. E, quando vem um balde de água fria, as pessoas se encolhem e paralisam. Eu, quando recebo um banho de água fria, abro os braços e me preparo para um vigoroso banho tonificante. E grito com força expulsando os demônios. Cada banho de água fria é um respiro. É a vida me oferecendo novas dimensões. Novas possibilidades de adaptação. Comer pelas beiradas é sempre mais interessante. Analisar o tamanho do prato antes de dar a primeira garfada. Entender as proporções de um âmbito mais geral. Eu sou a pessoa mais otimista do universo.
Ainda temos a tarde inteira. As conexões sempre se fecharão muito mais depressa do que você poderá imaginar. Os mistérios se constroem para que se rompam. Recobrar o mistério é tarefa para fenômenos. 
A agulha deve estar quebrada mesmo. O som não pára de trancar. Fones de ouvido e Nelo. Nelo foi feito para ouvir no fone de ouvido do seu computador enquanto você bebe uma cerveja, fuma um cigarro e escreve um texto para o blogue. O grau máximo da superexposição é você quem define. A chuva trouxe a promessa de pequeninos dias de conforto. Meu corpo, aos poucos, vai entendendo que os prazeres passarão a ser cada vez mais internos. Dez dias de mar trouxeram uma onda que ainda surfo. Ontem, voltando para casa, me perguntava até onde essa onda de positividade vai me levar. Aos poucos as águas vão ficando mais paradas e meus braços se sentem obrigados a fazer uma força que o meu pensamento ainda não assimilou. 
Por outro lado, é preciso maestria para controlar os vendavais de pensamentos desencontrados. Deve ser por que agora toca Beatles. E a agulha corre suave. Deve ser o lado A de Revólver. Here, there and everywhere. E a voz do Paul dá de dez na do Lennon.
Mas no fim de tudo teve o seu texto. O seu texto foi a certeza do que ontem ousei acreditar: é você quem manterá teso o arco da promessa.
Você entende o silencio de Bob Dylan, dos coiotes e de uma camisa xadrez.



















2 comentários:

sara lee disse...

se eu não te amasse tanto eu te amava mais. brinco bonito do meu karma.

leila fletcher disse...

i like talking to you through our texts because it’s more deliberate. i just wrote sth for you. go and see it.

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