sexta-feira, 6 de junho de 2008


tenho tido sonhos estranhos e gengivas que dóem e que sangram. como quando eu era criança. sonhava com artistas famosos. fazia tempo que eu não sonhava com artistas famosos.


na noite passada eu estava na frente de uma casa para onde deveria levar uma mala de dinheiro. todos estavam armados. até mesmo o pedro bial. quando os nervos começaram a esquentar eu saí da casa e, do outro lado da rua, dylan estava indo fazer um show. eu fui falar com ele e nós corremos de mãos dadas pelo meio da rua e ele perguntou se eu veria o show daquela noite. pensei que ele fosse me convidar para ir com ele, mas ele desapareceu no meio da rua da minha casa.


pequenos rios de sangue sobre os meus dentes. isso não é sonho. isso faz parte de quando eu era criança e vomitava todos os dias. ultimamente tenho vomitado todos os dias. geralmente no banho. como quando eu era criancinha.


antes do banho geralmente eu chego em casa com muita fome. é complicado passar a tarde bebendo. depois de uma tarde no bar da rodoviária, quando o sol se põe o vinho já me derrubou. por duas vezes quase bati no poste aqui da esquina de casa.


abro a geladeira e sempre tenho vontade de comer. não sei o que vem antes. se é a vontade de comer ou a geladeira que se abre. eu sei que isso só se dá pq não estou magro e nem gordo no presente momento. quando estou muito magro eu entendo que a imagem não combina com a ação e eu desisto da geladeira para ver a novela. quando estou gordo a imagem se torna ainda mais repulsiva e eu abandono a cozinha para caminhar pela cidade e passar frio. dizem que o frio emagrece. e a magreza enobrece. então o frio enobrece também. claro que o frio enobrece. aqui tem um mendigo loiro e eu me sinto em um filme francês sempre que passo por ele. ele é jovem e loiro e belo. deve ter algum dilema existencial que o levou às ruas. existe tanto charme na sua pobreza que eu chego a me perguntar se ele não é um desses artistas plásticos contemporâneos que fazem do próprio sangue a sua obra de arte. ou algum jornalista vivendo alguma reportagem de crítica social. de qualquer forma, nenhuma das alternativas me deixa à vontade para fingir ser seu amigo e convidá-lo a um copo de vinho. una copa, como dizem aqui. sim. isso também é brasil, embora muito mais perto de montevidéo do que do rio de janeiro.


fiquei parado na frente da geladeira esperando que ela parasse de girar. fiquei ajoelhado com a cadela pulando ao meu lado. peguei-a com força e a arremessei contra a pia. ela gemeu e voltou para a poltrona da minha mãe. peguei uma linguiça, bolachas de manteiga, dois activias e um pouco de tofu. o tofu e os activias eram para neutralizar os malefícios do salame e das bolachas de manteiga.


na sala a televisão passava notícias sobre celebridades e eu pensei ter escutado o nome de bob dylan na voz de um jovem ator candidato a ator sério no horário nobre. na verdade o jovem ator candidato a galã sério era um cara muito parecido comigo. senti a mesma raiva que sempre sinto em todas as vezes que alguém se antecipa a mim e ocupa um lugar que deveria ser meu. eu sou o jovem ator sério candidato a galã clone do bob dylan. só de raiva abri uma garrafa de vinho cara. e ateei fogo à lareira. eu sabia que alguma coisa estava errada comigo. nenhum candidato a jovem ator sério galã talentoso clone de um ícone pop está enfurnado em uma cidade da fronteira do brasil com uruguai, fumando, comendo e bebendo vinho.


terminei a garrafa e larguei o prato na mesa. enquanto chegava no banheiro escutei os passos tímidos da cadela pulando no chão e estacionando em frente à mesinha. que comesse tudo. todos os meus resto eram seus. e depois que vomitasse a noite inteira. igual a mim.


tirei a roupa e fiquei pelado tremendo de frio na frente do espelho. eu não estava magro, mas ainda não era propriamente gordo. apertei as gorduras do abdomem e elas enchiam as duas mãos. e eram frias. seja gordo ou seja magro. só não seja um meio-termo. nunca seja o meio-termo. como disse deus: eu vomito os mornos.


liguei o chuveiro e peguei uma escova. coloquei bastante pasta e esfreguei os dentes com força. limpei todos os cantos da minha boca até que o gosto da linguiça desaparecesse. depois virei a escova e pressionei o seu cabo contra a garganta. uma pressão subiu pelo abdomem e fez com que me curvasse. a água escorria pelo ralo e o chão estava tão perto de mim. um gosto de sangue azedo na boca e eu engoli quatro goles da água quente do chuveiro e, antes que a água chegasse ao estômago, um golpe certeiro da escova contra a garganta fez um jato de água marrom e vermelha tingir de colorido os azulejos do chão. pequenos pedaços de linguiça boiavam. alguns descansavam sobre as unhas dos meus pés. cuspi mais algumas gotas de sangue e tive vontade de chorar. eu não era mais o jovem ator galã promissor clone de um ícone pop. eu teria que vomitar muito vinho com linguiça para chegar aonde eu precisava chegar.


eu teria que saber para onde estava indo se queria chegar em algum lugar. no meio disso eu acho que desmaiei. ou só não lembro mais. ou a história perdeu a graça. tem dias em que não estamos inspirados. não adianta forçar.
ps - a foto foi a jordana fez lá na ceva 20 e ela sempre está inspirada.

Um comentário:

Macabéa, Alien disse...

além de eu ter uns pesadelos horríveis eu adoro o Bial, mas nunca sonhei com ele.

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