sábado, 4 de outubro de 2008

um pequeno suspiro sobre a nostalgia

(para M.)



 

Se há uma pergunta que gosto de fazer às pessoas com quem converso é: “Qual a paisagem que você vê quando tomado de nostalgia?” Assim como para mim, muitas pessoas, quase todas, possui uma pequena e íntima sequencia de  imagens que partiram de um terreno externo para se fixar do lado de dentro, na gaveta dos afetos. Talvez essa pequena sequencia de imagens eternas sejam as fotografias que compõem o álbum da nostalgia. Ou as ilustrações do livro íntimo de um destino.

A nostalgia difere da saudade por ser superior à ela. A nostalgia pode ser a saudade quando adulta. A saudade quando madura. As feridas quando cobertas de uma bonita cicatriz. A nostalgia é a saudade sem dor. Não inflama o peito o fogo da urgência. É mais um “nada a fazer” sobre o que está feito. Como uma paisagem que nunca será tocada. Uma beleza que se desfaz na própria beleza. A nostalgia é liquida. Feita de uma água que não mata a sede. É preciso nunca esperar da nostalgia que ela sacie. É preciso não ir com sede à ela. Não cabe à nostalgia encerrar-se.

Cabe ao nostálgico atenção e equilíbrio. Como estar no centro de uma gangorra que não pode nunca tocar o solo. Como caminhar sobre o fino fio da razão. Ao nostálgico é cobrado não se deixar cair no passado, nos afetos antigos. No lado sombrio das sensações do não agora. Ser preso de um tempo anterior implica não seguir. Atrofiar raízes. Embaçar qualquer possibilidade de visão.  Submergir-se em si. Ser passadista não diz respeito ao artista.

Cabe ao nostálgico atenção e equilíbrio. Como estar no centro de uma gangorra que não pode nunca tocar o solo. Como caminhar sobre o fino fio da emoção. Ao nostálgico é cobrado não se deixar cair no esquecimento, na higiene da alma. No lado iluminado das emoções quando feitas de um presente sem sombras. Ser preso de nada que não a matéria atual implica seguir sem saber de onde se vem. Enraizar-se no vento. Embaçar qualquer possibilidade de visão. Submergir-se na matéria. Não olhar para trás diz respeito ao não artista.

O pequeno álbum da nostalgia mostra suas páginas no ínfimo instante em que flano sobre o vazio íntimo de mim mesmo. O álbum da nostalgia não possui trancas. Nem senhas. Nem turnos. Abre-se quando esquecido. Flutua se respirado.

Quando lembro sem querer lembrar, eu sou o tempo.

 

4 comentários:

sara lee disse...

jesusi
mas que escritor sério e profundo vc tem me saído hein?

sara lee disse...

inveja

leila fletcher disse...

nostalgia dessa conversa...vai para o meu álbum...suspiros...

Helen Rödel disse...

Você deveria dar papel de seda e capa doirada para estes teus escritos.
Frase final que podia ser o primeiro.
A idade de ouro da humanidade está se construindo e nela os corações são cristalinos.

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