sexta-feira, 24 de outubro de 2008

no mind que seja eu.

O ano avança sobre os seus finalmentes e eu quero saber se hoje eu sou mais eu do que fui no final do ano que passou. No ano que passou eu voltei de uma terra prestes a congelar para dançar na beira de um mar bonito e azul com um céu cheio de estrelas e baleias e pingüins e paisagens antes de gelo. Você me abraçou e tomamos banho de mar, de bebida e de música. E congelamos nossos pés dentro das ondas. Depois o sol nasceu sozinho dentro de mim no primeiro dia desse ano que prometia ser tudo. Você dormia. Eu vomitava todos os banheiros do mundo. Estrangeiros dançavam e eu era mais um francês entre todos os pretos daquela cidade. E foi assim que começamos mais um ano. O ultimo ano do começo do fim das nossas vidas. Não há motivos para temer.

 As chuvas do verão começaram a cair ontem, mas eu ainda sinto o frio dentro de mim. Longe, onde você mora, você me disse que chovia. Que estava cinza. E que os pássaros cantavam mais do que sempre cantam. Aqui, onde estou sem habitar, faz sol. Há um sabiá no imenso abacateiro que entra pela janela da sala. Aqui os pássaros cantam histéricos. Como se atrasados. Como se não devessem ser. Aqui, longe de você, Nina Simone canta baixinho Mr Bojangles. Alguém dorme na minha cama, mas eu não sei quem é. Talvez seja você num futuro que nunca tivemos. O mapa do mundo pregado na parede é só mais um pais  para cada dia que passa. Pesquiso distancias que posso percorrer. Traços roteiros imaginários tentando encontrar um ponto no mundo para ver 2008 se transformar 2009 e tudo continuar como era antes. Quando foi que eu parei de acreditar que as coisas mudam, mas que nada é impossível de suportar? Nada vai mudar se os dias seguirem no mind. As datas não se correspondem mais e o tempo de cada dia hoje não é mais o tempo de cada dia que foi ontem. As velocidades aumentam todas, mas o meu corpo sempre demora um pouco mais para sentir o que todos já sabem.

Quando deixarmos de ser 2008 eu quero te abraçar na beira de uma praia de água doce. Seremos estrangeiros em um pais vizinho. Seremos ricos onde nossa economia desperta alguma inveja. E eu colocarei alguma canção nos seus ouvidos para tocar enquanto você me olha dançar salgado entre as ondas doces de um mar de uma cidade dividida ao meio. De uma cidade que nunca pertenceu a lado algum. De uma cidade que um dia se cobriu de sangue e que agora, amanhã, 01 de janeiro, será meu sangue todo dançando para você. Do outro lado dele  alguma cidade grande esperará por nós, mas saberemos o tempo exato de habitá-la.

As suas sujeiras. As suas tristezas. Os seus excessos.

Agora estou dentro dela. Chorando cada dia um pouco mais. A cada dia um pouco mais complicado de se esconder de mim mesmo. Caminhar sem esperar o sol se pôr. Sem saber como ele vai embora. Observar as pequenas mudanças de cor refletidas nas vitrines. Nos vidros dos carros. Saber o tamanho da lua pelo calendário, não pela paisagem noturna. Tem dias em que me sinto sozinho demais e nem você, nem seus olhos, nem saber que você está aí pode mudar qualquer coisa. Tem dias que falta saber do mundo pelos olhos dele mesmo. Tem dias que falta saber de mim pelos olhos da terra. Tem dias que falta me o eu. Mas eu espero. Eu sempre espero por mim quando tudo parece estar perdido.

Ontem baixei todas as versões que Nina Simone fez para canções de Bob Dylan. Agora ela canta Just Like a Woman e é tão bonito. Mas eu não estou aqui para escutar.

Um comentário:

sara lee disse...

somos a propria dúvida de que existimos
somos
"duvido,
por isso isso existo
mas chegarei lá"

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