quarta-feira, 1 de outubro de 2008

carta aberta para F


acabei os estudos diários e agora escrevo para você. quanto tempo deve durar a nossa conversa? quanto tempo do meu dia eu tenho para escrever linhas às pessoas que amo? quantas pessoas eu amo no decorrer de um dia? 


tenho me puxado no alemão e no francês. tenho pensado muito sobre os sonhos não realizados e como esses projetos em constante espera são carmas negativos. segundo o lair ribeiro, que escreveu o texto que li e me fez pensar, morra de rir eu te conheço, ele dizia que projetos não realizados acumulam energias negativas. a saída então seria viabilizar o projeto ou desencanar dele. eu sempre quis estudar francês e alemão. então eu estudo uma hora por dia de alemão e uma hora por dia de francês. sim, cansa bastante e é bem puxado. mas as idéias precisam deixar de ser idéia para virar ação. 


eu entendo o q vc fala sobre nosso amigo que faz músicas. ele está prestes a dar uma guinada na vida dele. está vindo para sp. a música que ele faz será respeitada por pessoas que ele não conhece. ele virá de avião, ficará em hotel, comerá bem e de graça e ainda ser pago e aplaudido no final da viagem. imagina cabeça desse guri agora. ele me perguntou se precisava tirar passaporte para vir de avião do sul para sp. normal ele falar tanto de morte agora. foi o que rolou comigo. o que ainda rola quando penso nas voltas que a vida deu em mim nos últimos meses. é como se ver morrendo. ver uma parte sua indo embora para sempre. um eu que vc foi vai ficando para trás. você também se viu morrendo quando sua filha nasceu. eu sei q vc é aquariana e mãe e, portanto, a sua vida tende a ser mais prática do que a nossa. mas nós, piscianos e sem filhos, vemos o mundo pelo seu lado mais difícil e triste e lindo e intenso. não preciso te explicar o q vc já nasceu sabendo.


a vida aqui vai bem. de vez em quando eu sou a pessoa mais chata do mundo para se conviver e como é foda saber disso. hoje tudo está bem. mas tive uns dias complicados. tentando entender a dinâmica da minha casa. tentando enfrentar as burocracias do dia após o dia. tentando não deixar o amor que a gente sente virar cansaço. não deixando me secar e não deixar de ser eu. amor. conviver é um troço tão complicado para quem tem uma vida interior tão intensa. e nunca, nunca vai ser forever. se hoje o dia está bom é preciso comemorar. é sempre possível que no segundo seguinte tudo caia. e eu fico tão feliz quando o dia termina bem. quando passam as nóias por mim e quando as nóias vão embora daqui. quando eu penso que o mundo está bom e as coisas estão no lugar em que elas deveriam estar. quando o dia termina sem eu ter tido medo de não conseguir chegar ao fim dele. quando eu chego no fim de mim mesmo e consigo voltar ao começo uma outra vez.


a saudade que eu tenho de você é constante sem doer porque nos temos tão por perto. eu sou tão mais distante das pessoas daqui do que de você. ando meio sem saco para o mundo. para conversas. 


ontem fui ver um pianista eslavo. uma das peças q ele tocou tinha como inspiração os campos calmos da escandinavia e a segunda parte remetia a uma invasão de gnomos nesse campo tranquilo. foi lindo lindo lindo e eu chorei. e eu queria estar perto de ti nessas horas. pq sempre quando alguma coisa me emociona eu sou nós dois no tempo em que a gente era adolescente e sentia o mundo ser tão mais lindo do que ele era de verdade.

 

a saudade que eu tenho de ti está em um tempo que não consigo pegar. nem quero. mas para sempre, no sempre em que a saudade existir, eu estarei perto de você. e você saberá.


se sua filha começou no mundo das palavras te dizendo "pé", prepare o seu coração de mãe. prepare o seu mundo para suportar as distâncias que a sua pequena vai criar dentro dela mesma. eu quero ver grande. ela. eu. você. eu quero te ver comendo bergamotas e ela, entre uma viagem e outra, contando para nós sobre o mundo que não vivemos. e nós dois orgulhosos de tudo o que não fizemos.


aqui deve começar a chover. e eu vou para a aula de francês caminhando a pé esperando o mundo cair sobre mim e lavar os meus cabelos. 

Um comentário:

sara lee disse...

o que não fizemos nos completa.
o que não fizemos e ainda não faremos, diz tudo sobre nós.
o resto, são nossas lantejolinhas high tec com efeito de envelhecidas;)

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