quinta-feira, 1 de maio de 2008

there will be silence














A tarde está cinza e a noite ontem foi realmente muito fria.
Vi dois filmes. Conte Comigo e Feminices.
Fico me perguntando até onde Laura Linney será capaz de chegar. E se Domingos Oliveira é um cartão-postal do meu futuro. Se for assim, que a velhice chegue agora!

A peça que escrevo avança a passos lentos. Talvez o tempo me traga a urgência que sinto nos filmes do Domingos. Em tudo o que ele faz. Quando a morte arreganhar os seus dentes mais uma vez talvez eu volte a escrever com a mesma compulsão dos mestres quando se aproximam do fim. O novo romance também estagnou. Minha cabeça está devagar e eu prometi que vou fumar menos. Comprei passagens para São Paulo. Vou mudar de casa. Vou sair do porão onde morava. Vou comprar uma vitrola na feirinha do Bixiga e vou comprar todos os vinis que eu sempre quis comprar, mas que nunca tive coragem. Vou levar uma das muitas garrafas de whiskie do meu pai. Todas as garrafas de whiskie que ele tem foram dadas por mim, nos inúmeros free shops que atravessei no ano passado. Um Red Label a mais ou a menos não fará falta para ele. E terei vinhos. Muitos vinhos. E foda-se a nutricionista. Eu vou beber pensando em mim. Nos caminhos que ele me abre quando Dylan toca na vitrola e o vinho escorre pela garganta. E uma cama gigantesca vai ocupar quase todo o quarto. Extra king size eu pedi. E eu ganhei. Vamos dormir e dormir e dormir e dormir e depois trepar até que a gente se perca de nós mesmos. Depois eu ficarei sozinho pq sempre existe algum avião para te arrancar de mim. E sempre existe alguma beleza na minha solidão.

Eu vou voltar. E a janela da sala será um pequeno bosque onde folhas secas cairão perto de nós. Em São Paulo as folhas caem? Eu tento lembrar, mas não consigo. No quintal do meu porão aí nessa cidade as únicas folhas que caíam eram as da ameixeira. Aqui as árvores ficam nuas e o chão fica cor de laranja e é bonito. Gosto de tomar ácido em tardes de inverno. Gosto de deitar sobre as folhas de plátano sentindo o sol atravessar os galhos nus e esquentar o meu corpo e escutar as asas das borboletas batendo sobre a minha cabeça e correr entre os seus troncos e brincar com os meus amigos como quando éramos criança. Nós ainda somos. O tempo se confunde em nós e as idades não passam de estados de espírito que nos visitam nos momentos mais inesperados . Quando anoitece nós corremos até a ponte onde o sol sempre é bonito. Alguém toca violão e as canções sempre parecem a primeira vez. Você nunca esteve aqui para ver a fogueira quando anoitece. E depois se abrigar na cabana e ligar o som antigo e dançar no meu quartinho onde eu cresci e onde as paredes ainda estão pintadas com o símbolo gigante do AC/DC. Você sabe tão pouco sobre mim, mas me ama como se me conhecesse inteiro. Gosto de encher bexigas de ar e deixá-las vagando pelo chão da casa. Gosto de ver as cores ficando mais fortes à medida que o ar se esvai de dentro delas. Gosto de atravessar as tardes vendo os balões murchando e os discos criando sulcos e as agulhas quebrando de tanto usar. Gosto de você perto de mim me mostrando que o mundo é bonito e que a vida vai sempre ser boa comigo. A vida ficou tão boa para mim desde que te conheci. Eu sempre te digo isso, mas eu não sei se você entende. Eu não sei se você entende como a vida pode ser ruim com alguém, mas ela foi ruim comigo até eu te conhecer. Por isso eu me joguei daquela janela no meio daquela noite e por isso eu mudei para um porão. E por isso você me salvou de lá de baixo. E por sorte eu não fui embora para sempre. Você estava lá enxugando o meu sangue e levando o meu corpo morto para o hospital. Mas agora é a luz e agora você está comigo e hoje eu sou forte. E a nossa janela fica há apenas dois andares do chão. A queda, se acontecer de novo, não vai me matar. Você está perto de mim e eu prometo que não vou cair.



E eu terei um pequeno escritório. Pintarei as paredes de preto e colarei todas as estrelas que comprei nas viagens que fizemos juntos. E colocarei um retrato do meu sobrinho brincando na terra em uma tarde de verão aqui no Sul. É sempre bom ter alguma criança-índigo para cuidar de nós. Mesmo que seja somente através de uma fotografia. Uma cadeira confortável para as minhas costas que não são mais as costas de antes da queda. Eu estou um pouco torto. Ainda mais torto. Eu sempre consigo ficar ainda mais torto.

E teremos amigos para conversar. Noites para atravessar. E o mundo acontecendo lá fora será apenas um mundo acontecendo lá fora. Meus trajetos serão da cama para o escritório. Com paradas estratégicas em frente à pequena vitrola para escutar Dylan e observar as bexigas diminuindo de tamanho. Teremos finalmente a nossa pequena Berlin para habitar. Nossa pequena Buenos Aires para sonhar. Nosso Uruguai dentro de nós. Seremos todos os lugares que habitamos juntos todos juntos dentro das paredes da nossa pequena casa. Eu estarei em São Paulo outra vez, mas será como se não. 

E eu serei o seu Bob Dylan. Mesmo sem saber cantar. E eu cantarei baixinho para você se você prometer que finge não me escutar. E eu serei lindo para você. Se você fingir não me notar. E eu te amarei todos os dias se você fingir também me amar.













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6 comentários:

alberto disse...

sim, as folhas caem em são paulo. mas não formam tapetes onde você se deitar. [[]]

viralata disse...

decorei o último parágrafo!!! Continue no inverno sulista, tem te inspirado/// hehehehe
Bjo

Macabéa, Alien disse...

“Raro é segurar um olhar com as palavras. E depois manter as palavras com o olhar."
E você consegue...

Janaína. disse...

Gosto muito dos teus escritos. Me levam pra lugares de cores quentes... se misturam com o frio e fica tudo muito bonito aqui...

Quando puder, faça uma visita?

docantoquieto.blogspot.com

abraços

Janaína

Flavio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Flavio disse...

Não há o que dizer...
é estarrecedor
sempre que leio tuas coisas me sinto assim.é o sentir-se terra depois de arada.
Enfim, tuas palavras tocam nos lugares recônditos e mexem comigo.
tanti baci caro.

f.c.

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