sábado, 31 de maio de 2008

frio. muito frio no sul do brasil.









neva aqui. meu coração está cansado de sempre esperar. meu coração está cansado de sempre ter aquilo que espera e depois ficar sem saber o que fazer com o presente nas mãos. o que fazer com o seu corpo na cama. tudo o que eu peço e por tudo o que eu choro e por tudo o que eu espero. quando tenho não sei o que fazer.


estou em um café. a neve se dissipa do outro lado da janela. o acesso a internet quase não há. as noites fico sozinho esperando alguma coisa acontecer. alguma vontade brotar. qualquer vontade que resista à neve caindo lá fora.

ontem ficamos conversando em volta da lareira. o fogo nos aquecia. eu. meu pai. minha irmã. avançamos a madrugada discorrendo sobre nossos sonhos. lembramos tão pouco do nosso passado. quando estamos juntos os nossos olhos miram um futuro belo. de sonhos que se realizam e eu posso ser feliz. e eu posso não olhar para trás. 

depois eles foram dormir. e eu assisti mais uma vez ao "inferno". quando o filme terminou era madrugada e fazia muito mais frio dentro de mim do que do outro lado da janela. ele sempre me leva para longe. e mesmo que nenhuma gota escorra dos meus olhos, eles me desencadeia um pranto sem fim e eu choro sem saber por onde. e eu grito no silêncio que não se rompe. e eu deito na cama tentando entender a genialidade de kieslowsky. 

a neve se dissipa e tudo indica que a tarde desse sábado nos dará algum resto de sol. eu espero por ele. uma festa está marcada para as quatro horas da tarde. rock das quatro às seis da manhã. coisas que só acontecem aqui. na cidade ao lado uma gincana mobiliza os garotos. eu verei os seus rostos sorrindo e os seus braços comemorando cada tarefa concluída. à noite sentirei vontade de morrer. e algum filme me tirará o sono na madrugada fria. e se eu quiser. se eu puder. pegarei o carro e beberei em algum balcão de um lugar mal iluminado. algum amigo de infância sentará ao meu lado para que eu volte ao que nunca fui. para que eu seja o que nunca mais serei. até voltar para casa. e dormir. uma noite a menos para a eternidade dos dias. seguiremos. sem saber que o frio vai aumentar. sem saber o que verão nunca mais irá voltar.

terça-feira, 27 de maio de 2008

é claro que você sabe do que estou falando

























não sei direito quanto tempo faz que estou dormindo, mas começou assim:

observava os detalhes da maçaneta da porta do seu apartamento. sim, eu sou um pequeno homem. por um tempo os meus pés pararam sobre o pequeno tapete em frente à sua porta. na porta atrás de mim ela batia pratos. elas sempre batem pratos depois do almoço. e foi assim que começou. eu, estático entre duas baterias. às minhas costas minha mãe. à minha frente a sua. sob os pés eu seria bem-vindo. pelo menos era o que estava escrito. não sei você sabe, mas eu sempre pensei nas visitas quando lia aquelas letras azuis. bem-vindos. eu pensava nas visitas que você recebia quando eu não estava lá. eu queria estar todas as tardes do outro lado da sua porta. ou do lado de dentro do seu coração. dois namorados quando se tornam antigos. eu queria ter o tempo inteiro com você. nós tínhamos a nossa música, mas você não sabia lembrar de mim quando ela tocava. assim como eu lembrava de você. mesmo quando não era ela. mesmo quando uma música qualquer era bonita demais para ser somente minha eu tomava emprestados os seus ouvidos imaginários para escutar como se fosse você.

e eu pensava tanto nas suas visitas. e cada esfregão dos meus pés sobre “bem-vindos“ era apenas para apagar o seu sorriso para portas onde eu não estivesse do outro lado. eu gastava com a sola dos meus tênis as letras que não eram para mim. por um tempo a sua casa era o buraco da fechadura. por um tempo as louças eram nós dois. eram as mãos das nossas mães nos lavando os cabelos. nos secando as dobras. nos aquecendo depois do banho. o esmalte desbotando um pouco a cada prato. um copo quando se quebra. e os sonhos de quando elas foram mocinhas. e o ralo acumulando sujeiras. e o encanamento que, mais cedo ou mais tarde, entupiria. não importava o quanto elas cuidassem. o encanamento, mais cedo ou mais tarde, entupiria. e as paredes teriam que ser quebradas. e os azulejos de passarinho seriam destruídos. e os azulejos de passarinho não seriam mais vendidos em loja alguma. por isso elas raspavam as unhas contra o fundo do ralo. pontinhos de arroz. sujeirinhas de carne envoltas em fios de cabelo. as pontas dos dedos trocando esmalte por farelos de sujeira. mortos de comida. solidões. do outro lado da porta éramos todos tão iguais. os azulejos de passarinho azul. os ralos limpos. os canos e os seus entupimentos eternos.

sábado, 24 de maio de 2008

olho para o meu rosto no espelho do banheiro. não há nada de belo dentro dele. é o rosto de um homem. não há nada de belo nisso. nem nas histórias que não me contém.

 do outro lado da janela o sol queima a cidade. do outro lado do mundo a minha casa está vazia. os meus pais. onde estão? em algum ponto da cidade eles esperam por mim. em algum ponto da vida eles desistiram de esperar. é sempre mais confortável mandar embora aquilo que pode nos ser estranho. aquilo que um dia possa vir a nos ameaçar. assim foi. ou assim será. estou perdido no tempo e confuso entre presentes. o limite exato. o último instante. quando o futuro passa à condição de passado. é nesse instante em que me encontro. sempre fugindo daquilo que tento encontrar. 
os meus pais olham o tempo passar por mim, mas não são capazes de observar. os sentimentos sempre confundem a visão do aflito e a realidade se distorce e se confunde em tanto e tantas mentiras adquirem o doce gosto da verdade sem que para isso tenham sofrido qualquer alteração na sua essência. bob dylan cantando hurrycane sem saber que absolvia um culpado. a segurança dos que não se levam a sério. quem nunca se levou nunca se levará.
I'm talking about you bitch.
putinha maquiada do outro lado do espelho.
I'm talking to myself bitch.
putinha maquiada do outro lado do espelho.
e eu sei que dentro do seu olhar você carrega toda a fatalidade do tempo que já começou a te consumir. a vida nunca mais será doce. você entenderá cada vez menos sobre tudo. menos sobre você mesmo. você irá chorar com muito mais frequência, mas as lágrimas serão tão poucas. cada vez menos. você falará mais e a sua voz adquirirá tantas certezas. mas o seu sono será a insônia e as dúvidas só ganharão tamanho e as doenças redesenharão a sua dimensão em todas as noites, a cada noite que o sono não vem. você alcançará todos os seus sonhos. e mesmo assim não irá sorrir. e mesmo assim não irá acreditar. a medida que os sonhos acordam as verdades adquirem o perigo de uma escada cada vez mais alta. o equilíbrio se faz mais necessário a medida que a altura aumenta. a morte é sempre mais perigo quanto mais longe estamos do chão. segure-me. só não espere de mim que eu te entregue a minha alma.

de frente para o espelho eu disfarço. e desenho fios amarelos em volta dos olhos. eu tento mentir sem entender que as imagens são mentiras que desenhamos para que todos acreditem, menos nós mesmos. como que faz de conta que tudo está bem. e assim o mundo melhora. a vida perde todo o seu estranho. e existir se torna simples. por um instante que seja. como dilatar o tempo quando se torna raro e pequeno os momentos mais bonitos? eu sou um garoto normal mas eu maquio o meu rosto quando a casa está vazia. eu sou um garoto normal mas eu tenho quase trinta. eu sou um garoto normal. mas eu finjo que não. tão bem que até sou. até que posso ser. 
um dia eu serei um homem. um dia eu serei tudo o que ela espera de mim. tudo o que ela pensa que eu sou quando sai de casa e eu sei que por mais que ela demore para voltar, ela sempre voltará antes do esperado. o barulho da chave penetrando a porta nunca será belo. nossos abraços nunca serão inteiros. e eu nunca conseguirei aceitar toda a beleza que os seus olhos trazem somente para mim. quando foi que começamos a nos perder? quando foi que eu deixei de te precisar. quando foi que eu te matei pela primeira vez. eu te beijei com força sem saber que a força dos meus dedos em volta do seu pescoço te machucavam com tamanha força.

o chuveiro está ligado e o vapor desfaz os contornos precisos do meu rosto de homem. do outro lado do espelho eu posso ser tudo o que não quero. talvez eu seja. talvez eu precise dele para me mostrar a verdade da qual eu preciso fugir. os vincos acumulando poeira. as extremidades da minha boca pendendo para o chão. os risos da adolescência para sempre ecoando dentro do banheiro vazio. os meus olhos. tão cinza. os meus olhos. tão fundos. os meus olhos. tão longe. no quarto toca uma gravação antiga dos carpenters. ecos de um tempo que não foi meu. ecos de uma vida que nunca seria a minha. os ossos acentuam o contorno da minha pele e a magreza me deixa mais homem do que eu gostaria de ser. por mais que eu tente ser magro. por mais que eu espere ser belo. por mais que eu deseje ser aquilo que não sou. eu nunca serei ela do outro lado do espelho. fecho os olhos para que meu rosto receba uma primeira e fina camada de pele ainda mais clara. sempre mais jovem. a falsidade sobre os poros velhos demais. a suavidade da esponja e todos os carinhos que eu nunca senti. a ponta dos seus dedos sobre mim quando eu te amei. a ponta suave dos seus dedos sobre o meu rosto. quando você me amou. a ponta suave dos nossos corpos se tocando pela primeira vez. quando um dia nos amamos.

 o sol se desfaz contra a neblina do chuveiro e os meus contornos assumem a doçura de um castiçal antigo. descrevo pequenos raios no contorno dos olhos e eu serei sua se você me quiser. abrir os olhos é sempre descobrir o real.

a casa está vazia. procuro a maquiagem perfeita. o contorno ideal. a espessura exata. a casa está vazia e eu posso ser eu. antes da queda. antes da surra. antes do banho. o chuveiro está ligado e antes que eu entre embaixo dele eu ainda posso ser eu. antes que ela escorra do meu rosto e se lave até o ralo eu ainda posso ser eu. antes que ela parta e eu me veja sozinho. antes que eu me bata. o chuveiro está ligado como quem avisa que o fim existe. os diagnósticos quando são positivos. os falsos negativos. as janelas imunológicas. as taxas quando atingem alturas inconcebíveis. as metástases. os quadros quando irrevertem.

o chuveiro está ligado dentro da casa vazia. a pintura não dura para sempre. o meu rosto sempre será o mesmo. por mais que eu tente que não. por mais que eu finja que sim. sempre haverá um homem por baixo de mim.  o limite indefinido do meu pau sempre cresce pelos motivos menos compreensíveis. pequenas cócegas contra os lábios tão finos. o batom me tinge em vermelhos e eu sangro pelo que nunca serei. pincéis de mágoa contra as pálpebras fechadas. os lilazes nunca reluzem quando enfeitando a mim. as cores nunca me furtam. os furos pequeninos fios negros que nunca abandonarão o meu rosto. pequeninos espessos fios negros arrebentando a pele para me fazer mais eu. grotecismos. grotescidades. nomes feios. palavras de som nojento. pequeninos buracos negros do que sou crescendo no meu rosto. a tristeza da mulher barbada na tarde de segunda-feira. o circo quando dobra a sua lona. a vida quando as luzes se apagam. 
eu nunca serei sua. eu nunca seria ela. eu nunca serei uma. se de algum eu sempre serei, serei minha até o fim. as punhetas quando em frente ao espelhos. os cabelos quando pingam sobre os ombros frios. o volume quando pulsa entre as pernas. a gilete quando segura na mão esquerda. o corte quando rápido. a vida quando não mais. a tarde quando a última. 

do outro lado do espelho eu sou uma mulher. um pouco grande demais. um pouco velha demais. quantos paus despertariam do seu sono ao me ver assim? meu pai? algum ator da televisão? o garoto que entrega jornais todas as madrugadas e passa por mim quando volto para casa sozinho em uma noite de sábado?

eu estou pronta. meu gênero se transmuta em outras e eu teria um nome se a mim fosse dada a benção de um batismo. é preciso mostrar para vir a ser. é preciso julgar para absolver.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Os dias seguem lentos aqui na grande cidade. preparo-me para partir mais uma vez. para um lugar que sempre muda todas as vezes quando volto. as plantações redefinem a paisagem longe daqui. as estradas adquirem novas texturas conforme o tom das cores que as envolvem. o sol muda lentamente de posição e as sombras escondem pontos dentro da paisagem que eu não pensava perceber assim, na escuridão.

os homens na grande cidade escondem as emoções e vamos todos levando a vida de uma forma tão blasé. como reagir intensamente a tudo o que nos cerca se tudo o que nos cerca se tudo o que nos cerca é tão intensamente possível de uma grande reação? e assim vamos, pouco a pouco, nos tornando um pouco mais frios. surpreender-se implica não ter medo. assumir o ridículo. e desgastar um tanto de energia.

na pequena cidade as surpresas são tão grandes. como se carecessem de surpresas as reações podem ser desmedidas e muito maiores do que eu, um cara acostumado com a grande cidade, poderia imaginar. os homens nas pequenas cidades sofrem mais por que pensam mais. a eles é dado o tempo para pensar. as horas para suportar. a vida vazia para viver. retirar-me é como redescobrir em mim a incerteza das reações dos poucos que ainda permito me rodear. retirar-me é sempre ser surpreendido pela inconstância dos colonos. que sempre esperam demais. que sempre cobram demais. que sempre sabem tão pouco sobre si mesmos. pq encontrar a dor e o lado negro dentro do próprio coração pode ser tão perigoso.

os colonos agarram os pés à terra. e lá seguem os dias. comendo migalhas do mundo sorrindo de longe. contentando-se com notícias de jornais que eles nunca lerão. acordando surpresas que nunca serão reais. a vida dos colonos é perigosa para quem não é um deles. para quem, há muito tempo, deixou de ser um deles.

a partida assusta os colonos. e entender que um colono deixou para trás a vida presa à vida, pode ser triste demais para continuar levando adiante. como eu disse, hoje repito: é preciso leveza no espírito, paz no coração e inteligência aguçada para não confundir o sucesso de outrem no fracasso de si próprio.

termino o chá nesse pequeno café perdido em alguma charmosa rua de são paulo. em pouco tempo embarco para o sul. conversarei com as plantas e beberei com poucos. abraçarei minha mãe e beijarei o meu filho. o mundo não será melhor e nem os dias mais bonitos. voltar à casa para ver dentro dela toda a sujeira que sempre esteve lá. que sempre estará. olhar os meus amigos e não reconhecer dentro dele o que um dia nos moveu. observar sozinho a cidade envelhecer. as risadas perderem a cor. as conversas desgastando-se em sentido. carecendo de verdade. as noites perdendo a vontade. o interior me chama sem que eu queira voltar. mas eu vou. eu preciso. mais uma vez. dessa. a última.

berlim. logo estarei nas suas ruas. chorando a sua falta de luz. sorrindo os seus passos lentos. tristes. e inteiros. longe é um lugar onde nunca poderei estar.

terça-feira, 20 de maio de 2008

encontrei um refúgio. um pequeno lugar onde posso guardar o pouco que sobrou da longa batalha dos últimos meses. há um refúgio nessa cidade. como nos tempos ancestrais, é preciso sempre voltar à selva. por menos bela que ela seja, é preciso sempre olhar para o que não é bonito. talvez eu tenha sorte, mas eu não posso fazer nada se é assim que as coisas são. é preciso calma para entender os movimentos do tempo. é preciso guardar as asas para nunca ter que voar.


a tarde cai tão devagar sobre essa cidade feia onde tento um refúgio. a casa está vazia. dylan continua gritando na vitrola. há vinho por toda a parte. as poltronas contém amigos que sempre podem chegar contanto que saibam a hora certa de partir. todos os meus amigos sabem a hora exata de partir. alguns partem cedo demais. outros nunca chegam. nunca chegaram. nunca chegarão. o vento dos idiotas está longe. soprando em terras distantes. o vento sopra sobre os idiotas que fingem voar sem nunca tirar os pés do chão. o vento sopra sobre os idiotas que sempre buscam aquilo que não ousam desejar. o vento sopra sobre os idiotas que me usam e pensam que eu não enxergo a miséria disfarçada de tristeza dentro dos seus corações. o interesse disfarçado de amizade. os crimes mais cruéis são sempre aqueles que cometemos contra os nossos próprios princípios. mas eu tenho um refúgio. eles não. eu parto. eles nunca. o vento sopra e os seus cabelos nunca voam para longe. para os idiotas, as terras distantes são apenas mensagens trazidas de fotografias. páginas de internet. álbuns que nunca foram seus. as tardes nos seus refúgios não escondem a solidão do cansaço. eles estão longe atormentados por pensamentos que não se concretizam. não se concretizaram. que nunca se concretizarão. até quando? se você tiver a resposta nunca encontrará a saída.


quando faz silêncio eu viro o disco. sem saber que o lado b é sempre mais perigoso. a agulha passa rente a abismos infinitos que podem cegar o coração de quem não ousa partir. abandonar tudo. esquecer todas as voltas. desentender todos os caminhos. morrer sempre para continuar vivo. a sabedoria dos que entendem que nem toda a impermanência  do mundo será o bastante e nem nunca será medida.


estou refugiado. muito mais perto do que qualquer um possa imaginar. nem eu mesmo. quando saio de casa para comprar vinho e vinis antigos esse pode ser todo o trabalho de um dia. que a noite venha. e que eu me perca de mim mesmo no imenso trajeto entre o quarto e a vitrola da sala mais uma vez. que o vinho me leve cada vez mais para longe. os trajetos de terra foram cumpridos. dylan cantou para mim e eu chorei. e uma estrela caiu para que todos pudessem ver. e o vento derrubou o seu microfone. e todo o estádio cantou junto por modern times como nunca se viu. talvez aquele tenha sido o fim. eu estive sozinho. como sempre estarei desde então.


a solidão sem desespero é o caminho para a felicidade. ninguém espera por nós. que seja belo enquanto for intenso. que o vento sopre os idiotas para longe de nós. e que a natureza seja linda. longe daqui.

sábado, 10 de maio de 2008

letter to hermyone


Liebe,
acabei de chegar em casa. passei a semana inteira em cotiporã. um povoado no topo da montanha onde será filmado o longa. fiquei com a equipe mostrando cenários. todas aquelas pessoas ali, dispondo da sua vida para contar a minha história. foi forte. bastante forte.
agora relaxo. e curto a minha mãe como vc deve estar curtindo a sua. sempre desconfie dos diagnósticos. por mais tristes ou mais doces que eles sejam. os diagnósticos são apenas o retrato de uma realidade. e toda a realidade é temporária. os retratos não. 
joni mitchell toca na vitrola músicas lindas e ela me fez lembrar você.
um vinho e tudo o que uma noite de sábado sempre vai representar.
queria você aqui. ou queria uma daquelas noites de sábado no meu porão. nós três quando ainda ousávamos nos encontrar. vendo o mundo tão triste no conforto das nossas certezas sem saber que tudo mudaria um tanto demais para o pouco tempo que passou.
se eu tiver sido o seu passado serei eterno em um tempo sem fim.
muita saudade
de longe

carta para um leitor aflito

Querido Giulliano,
chega uma hora na vida em que as nossas decisões passam a depender apenas da nossa própria decisão. o que você é depende, em primeiro lugar, da sua própria aceitação. com o tempo a aprovação dos pais passa a ser relativa, às vezes menos importante. ou mais profunda. mais sábia. mais medida. você tem uma decisão nas mãos e já fez uma escolha. nesse momento essa é a escolha mais importante da sua vida. você deu o primeiro passo. você disse "sim". 
contar aos seus pais é o menos importante. esse momento é apenas seu. você não está fazendo nada de errado e nem nada que vá contra a sua vontade. respeite os seus segredos. e mantenha-os com você quando a sua dimensão assim pedir.

te pergunto por quê contar à sua mãe?
para que ela te ajude? para que ela te aprove? para que ela te ame?
ela SEMPRE vai te amar. sempre! e sempre vai temer e sempre vai pensar que você é um pouco mais criança do que realmente é. pense bastante antes de entregar o seu segredo. o tempo é o melhor amigo de tudo. espere. espere. espere.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

there will be silence














A tarde está cinza e a noite ontem foi realmente muito fria.
Vi dois filmes. Conte Comigo e Feminices.
Fico me perguntando até onde Laura Linney será capaz de chegar. E se Domingos Oliveira é um cartão-postal do meu futuro. Se for assim, que a velhice chegue agora!

A peça que escrevo avança a passos lentos. Talvez o tempo me traga a urgência que sinto nos filmes do Domingos. Em tudo o que ele faz. Quando a morte arreganhar os seus dentes mais uma vez talvez eu volte a escrever com a mesma compulsão dos mestres quando se aproximam do fim. O novo romance também estagnou. Minha cabeça está devagar e eu prometi que vou fumar menos. Comprei passagens para São Paulo. Vou mudar de casa. Vou sair do porão onde morava. Vou comprar uma vitrola na feirinha do Bixiga e vou comprar todos os vinis que eu sempre quis comprar, mas que nunca tive coragem. Vou levar uma das muitas garrafas de whiskie do meu pai. Todas as garrafas de whiskie que ele tem foram dadas por mim, nos inúmeros free shops que atravessei no ano passado. Um Red Label a mais ou a menos não fará falta para ele. E terei vinhos. Muitos vinhos. E foda-se a nutricionista. Eu vou beber pensando em mim. Nos caminhos que ele me abre quando Dylan toca na vitrola e o vinho escorre pela garganta. E uma cama gigantesca vai ocupar quase todo o quarto. Extra king size eu pedi. E eu ganhei. Vamos dormir e dormir e dormir e dormir e depois trepar até que a gente se perca de nós mesmos. Depois eu ficarei sozinho pq sempre existe algum avião para te arrancar de mim. E sempre existe alguma beleza na minha solidão.

Eu vou voltar. E a janela da sala será um pequeno bosque onde folhas secas cairão perto de nós. Em São Paulo as folhas caem? Eu tento lembrar, mas não consigo. No quintal do meu porão aí nessa cidade as únicas folhas que caíam eram as da ameixeira. Aqui as árvores ficam nuas e o chão fica cor de laranja e é bonito. Gosto de tomar ácido em tardes de inverno. Gosto de deitar sobre as folhas de plátano sentindo o sol atravessar os galhos nus e esquentar o meu corpo e escutar as asas das borboletas batendo sobre a minha cabeça e correr entre os seus troncos e brincar com os meus amigos como quando éramos criança. Nós ainda somos. O tempo se confunde em nós e as idades não passam de estados de espírito que nos visitam nos momentos mais inesperados . Quando anoitece nós corremos até a ponte onde o sol sempre é bonito. Alguém toca violão e as canções sempre parecem a primeira vez. Você nunca esteve aqui para ver a fogueira quando anoitece. E depois se abrigar na cabana e ligar o som antigo e dançar no meu quartinho onde eu cresci e onde as paredes ainda estão pintadas com o símbolo gigante do AC/DC. Você sabe tão pouco sobre mim, mas me ama como se me conhecesse inteiro. Gosto de encher bexigas de ar e deixá-las vagando pelo chão da casa. Gosto de ver as cores ficando mais fortes à medida que o ar se esvai de dentro delas. Gosto de atravessar as tardes vendo os balões murchando e os discos criando sulcos e as agulhas quebrando de tanto usar. Gosto de você perto de mim me mostrando que o mundo é bonito e que a vida vai sempre ser boa comigo. A vida ficou tão boa para mim desde que te conheci. Eu sempre te digo isso, mas eu não sei se você entende. Eu não sei se você entende como a vida pode ser ruim com alguém, mas ela foi ruim comigo até eu te conhecer. Por isso eu me joguei daquela janela no meio daquela noite e por isso eu mudei para um porão. E por isso você me salvou de lá de baixo. E por sorte eu não fui embora para sempre. Você estava lá enxugando o meu sangue e levando o meu corpo morto para o hospital. Mas agora é a luz e agora você está comigo e hoje eu sou forte. E a nossa janela fica há apenas dois andares do chão. A queda, se acontecer de novo, não vai me matar. Você está perto de mim e eu prometo que não vou cair.



E eu terei um pequeno escritório. Pintarei as paredes de preto e colarei todas as estrelas que comprei nas viagens que fizemos juntos. E colocarei um retrato do meu sobrinho brincando na terra em uma tarde de verão aqui no Sul. É sempre bom ter alguma criança-índigo para cuidar de nós. Mesmo que seja somente através de uma fotografia. Uma cadeira confortável para as minhas costas que não são mais as costas de antes da queda. Eu estou um pouco torto. Ainda mais torto. Eu sempre consigo ficar ainda mais torto.

E teremos amigos para conversar. Noites para atravessar. E o mundo acontecendo lá fora será apenas um mundo acontecendo lá fora. Meus trajetos serão da cama para o escritório. Com paradas estratégicas em frente à pequena vitrola para escutar Dylan e observar as bexigas diminuindo de tamanho. Teremos finalmente a nossa pequena Berlin para habitar. Nossa pequena Buenos Aires para sonhar. Nosso Uruguai dentro de nós. Seremos todos os lugares que habitamos juntos todos juntos dentro das paredes da nossa pequena casa. Eu estarei em São Paulo outra vez, mas será como se não. 

E eu serei o seu Bob Dylan. Mesmo sem saber cantar. E eu cantarei baixinho para você se você prometer que finge não me escutar. E eu serei lindo para você. Se você fingir não me notar. E eu te amarei todos os dias se você fingir também me amar.













.



pelo visto teremos o inverno mais frio em cinqüenta anos. sinto o inverno aqui. um copo de whiskie. cat power rolando na vitrola. o mundo me esperando no meio da noite fria. cat power. whiskie. o inverno. gauchismos sou eu nesse inverno que começa prometendo inesquecimentos. o mundo rola devagar.
maffesoli.
dois filmes.
o inverno sou eu me descobrindo inteiro.
o melhor. em cinqüenta anos.
traga me as cinzas. meu corpo é sem gelo. meu copo é sagrado.

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