segunda-feira, 30 de março de 2009

... amigos imaginários cansados de ler...

















Os dias continuam de sol e calor aqui do lado de baixo do mundo. As pessoas continuam falando essa língua estranha e meus ouvidos doem um pouco mais a cada silaba que não consigo pronunciar. A cada olhar que não consigo entender. O mundo está um pouco fora de foco do lado de baixo do mundo. O café não adiantou. Nem a pequena caminhada em volta do quarteirão. Nem as folhas dos plátanos que começam a cobrir as calçadas. Hoje é uma segunda-feira e faz uma semana que estou aqui. Ontem meus pais foram embora e eu fiquei. Quando eles desapareceram caminhando abraçados na avenida Santa Fé o meu peito apertou. Antes de dobrar a esquina olhei para trás e eles estavam também paradas, me olhando e sorrindo. E me vendo desaparecer no meio dos argentinos loucos do fim do domingo.

Eu deveria estar no cinema, vendo algum filme independente dos tantos que estão em cartaz aqui. Eu deveria estar trabalhando em algum projeto com inicio, meio e fim. Eu devia estar feliz por não precisar fazer nada do que a maioria das pessoas precisam fazer para ficarem felizes. Talvez eu devesse ter comprado um vinho no armazém do chinês. Mas eu comprei granola, iogurte natural, bolachas de arroz e maçãs verdes. Daqui a pouco vou correr debaixo do sol. O complicado é quando a gente procura a felicidade da forma mais obvia. O problema é quando a gente procura a felicidade. Ou quando a gente acredita nela. Pelo menos toca Radiohead. Um show que estava aqui. E que eu não vi. Depois de Bob Dylan quase nada mais vale a pena.

Os cachorros aqui andam sem coleira. As pessoas olham pouco para o chão e os homens falam alto. Todos comem comidas gordurosas e eu agora como macarrão todos os dias. Todos os dias bebo uma coca-cola enquanto espero o prato chegar no buteco da esquina. Sempre sento na mesma mesa e sempre sou atendido pelo mesmo garçom. Todos os dias eu deixo dois pesos sobre a mesa e ele me agradece com mais intensidade do que o necessário. Show me the Money. Show me Love. Show me anything que eu nunca tenha visto antes. Talvez faça algum sentido ficar sentado do outro lado da vitrine olhando para as pessoas andando na calçada. Vendo as grávidas acreditando no futuro. Vendo as mães sorrindo otimismo aos recém-nascidos. Vendo os velhos aproveitando cada dia como se fosse o ultimo. As moças saindo da escola sem saber que tudo vai ficar para trás. Que os estojos serão esquecidos. As palavras escritas desaparecerão antes que  o ano termine. O menino mais bonito da sala também será o primeiro a ter um filho. Todas engordarão. E quase ninguém mais se reconhecerá do outro lado do espelho quando o colegial for apenas uma fotografia perdida em algum email há muito tempo não aberto.

Um comentário:

sara lee disse...

ai amor da minha vida
no fundo só tem o fundo
acho que tah na hora de vivermos mais juntos.

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