terça-feira, 24 de março de 2009

Não. Eu não me sinto bem. Estou nessa cidade onde não posso andar de chinelos nas ruas pq meus pés ficam sujos demais. Estou nessa cidade onde me olham um pouco torto pq está tão na cara que eu não sou um deles. Toca Radiohead bem alto na sala desse apartamento bonito que eu não sei de quem é. A pessoa que mora aqui deve gostar de cores e tem bom gosto para móveis e decoração. Nunca aluguei um apartamento por temporada tão bonito quanto esse. Nem tão silencioso. Nem tão limpo, nesse país onde os pés ficam sujos se usar chinelos nas ruas. Mas aqui tem muitas arvores. E aqui tem prédios antigos e tem pessoas que criam vira-latas como se eles fossem cães de raça. E hoje aqui vai ter show do Radiohead e eu não comprei ingresso e os ingressos estão todos esgotados. E eu queria ver, mas talvez não tanto assim. Descobrimos que nada é imperdível, que tudo tem a hora certa para acontecer e que o que vale a pena flui naturalmente. Como a diarréia que me pegou aqui. Sinto na privada o real significado da palavra fluir.

Quando a barriga dá uma trégua, saio para caminhar pelas ruas. Procuro qualquer coisa que me faça sentir um pouco útil nessa terra um pouco longe de onde você está agora. Leio um livro em francês e almoço em restaurante orgânico. Faço posturas de yoga a cada meia-hora e meus braços estão fortes. Ouço musicas bonitas. Como essas, do Radiohead. Se você voltar a tempo, talvez devêssemos pegar um ônibus. Não estamos assim tão perto do local do show, mas locais de show nunca são perto de ninguém que a gente conheça. Podemos pegar um ônibus e sentir a vibração de todas as pessoas que acreditam que uma banda ainda pode mudar o significado de uma existência. Se alguém nos oferecer ingressos e se tivermos dinheiro para pagar, podemos comprar. Podemos também comprar uma quilmes e ficar no fundo da platéia vendo trinta mil pessoas encontrando um significado para a própria existência. Todas ao mesmo tempo. Dizem que as luzes desse show são muito bonitas. Eu gosto de luzes e você também. É provável que eu chore no meio de alguma canção e pensei em te dar um abraço, mas eu acho que isso eu não vou fazer. Talvez você também chore quando cantarem uma musica mais simples. Você gosta das coisas simples. Deve ser por isso que você não gosta de mim.

Passo a tarde nesse apartamento. Já dormi. No meu estomago não tem mais nada. Se você não chegar em meia hora vou colocar um par de tênis e ir correr nos bosques de Palermo ouvindo Radiohead no headphone.

I’m not a looser babe. I’m not a looser. Mas nem tudo vale a pena qualquer sacrifício.

Desenterrei um texto antigo arquivado em um email. Um texto de 2007. A idéia para um livro. Foi assim que passei também uma parte da tarde. Brincando nesse arquivo e imaginando alguém que gostaria de escutar aquela história. Troquei frases. Cortei frases. Depois fiquei com sono e deitei na cama. E fiquei pensando se avançar tres paginas por dia em uma história não é pouco demais.

No meio do sono eu sonhei e eu acordei e pela janela de vidro bem grande vi que o céu está bonito aqui. E tive uma boa idéia para a história. Depois dormi de novo e agora eu não lembro mais. Talvez ir ao show seja um bom motivo para penetrar de novo na atmosfera do sonho. É isso o que falam sobre as performances do Radiohead. Talvez lá eu encontre qualquer coisa que eu possa materializar e encontrar alguma utilidade pratica para o que não devia ter sentido algum. Pode ser que isso seja envelhecer. Perder as expectativas junto com os cabelos. E tentar encontrar uma explicação para tudo o que não devia querer se explicar. Ultimamente tenho acreditado que as rugas trazem justificativas. Estou cheio delas.

2 comentários:

Sam disse...

fiquei totalmente sem palavras para o seu texto, ele é simplesmente excelente *-* me senti totalmente envolvida com todas as palavras *---* parabéns!

sara lee disse...

eu tenho justificativas
e todos os sonhos de sempre
que se desculpam por não encontrar morte que os cale.

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