sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O dia amanheceu nublado naquele mês de julho. Como em todas as manhãs de julho, não faria sol. Ele acordou e, sem abrir a janela, sabia que a cidade ainda era a mesma. Havia dias em que, quando acordava, imaginava estar em algum lugar que não era o seu quarto. Lembrava da casa da avó, onde cresceu, e acordava lá. Lembrava do verão na praia, e o calor voltava ao seu corpo. Depois o piso frio o traria de volta. Algum acampamento quando os seus pais ainda eram jovens e a barraca na beira do rio era a diversão dos feriados prolongados. E ele acordava sentindo o sol atravessar a lona colorida no quarto de tecido. Em certas manhãs quando, na confusão dos olhos ainda se abrindo, na penumbra da escuridão das luzes apagadas se misturando com a claridade do dia nascendo por trás das cortinas, nessas horas ele via o que não estava lá. A toalha jogada sobre a cadeira era um pequeno cavalo branco. A mochila atrás da porta talvez fosse um cachorrinho verde sonhando com ele. Ele era um garoto que imaginava. Ele era um garoto.
Abriu os olhos e ficou um tempo olhando para o teto. Calculou mentalmente o numero de manhãs em que ficou assim, deitado sob as cobertas olhando para a tinta descascando sobre o seu corpo. Respirou fundo e o ar gelado da manhã de julho ressecou ainda mais a garganta. Tentou engolir um pouco de saliva, mas a boca estava seca. Tentou mexer os pés, mas as pernas ainda dormiam. Um quero-quero gritou no campo de futebol atrás dos seminário e ele pensou nos meninos indo para escola. No avô e o seu chimarrão antes do dia começar. Lembrou de quando tinha amigos. De quando ainda era normal. De quando não via cada dia como mais um dia sempre o mesmo. O computador estava desligado. Na parede o homem com o raio no rosto observava a penumbra sem ter que abrir os olhos. Sem precisar estar lá. A fotografia do homem ainda dormia e ele pensou em coisas que não era capaz entender. Ainda. Debaixo dos cobertores, debaixo da calça de moletom, do lado de dentro da cueca, fazia sol. Faria. Enfiou a mão e se apertou com força. Depois parou. Quando o despertador no quarto dos pais tocou alto, ele retirou a mão e ficou deitado de bruços esperando que ela viesse e lhe acendesse a luz. O dia deixaria de ser penumbra para voltar a ser real. O quarto perderia as sombras e o contorno dos objetos teriam a dimensão exata do que eles eram. A toalha sobre a cadeira nunca mais seria o pequeno cavalo branco. A mochila atrás da porta voltaria a ser a mochila atrás da porta. A escola. Os colegas. O caminhos. Fechou os olhos e sentiu sono. Um sono profundo. E dormiu. Dormiu profundamente quando, atrás dos olhos fechados, a escuridão ficou vermelha e ela sentou-se na sua cama e enfiou os dedos entre os seus cabelos. Ela estava lá. Ele não.
Depois ela saiu do quarto e os seus passos foram ficando cada vez mais distantes. Quando terminaram de atravessar o corredor ela já estava longe, e ele ficou sozinho outra vez. Devagarzinho os seus olhos foram se abrindo e aquela claridade da manhã era a claridade mais forte do dia. Ele sabia disso. Ele sabia que, em nenhuma outra hora do dia, a lâmpada do seu quarto iluminava tanto como na primeira hora da manhã. Coçou os olhos. Engoliu a saliva seca mais uma vez e, mais uma vez, a garganta ardeu e ele sentiu-se arranhado por dentro. Como se engolisse espinhos. O quero-quero gritou mais uma vez e o mundo parecia acordar. Ele não.
Do outro lado da parede o pai mijava. O barulho do mijo pesado sacudindo a água da privada lhe dava nojo e ele sentiu raiva. A primeira raiva do dia. Assim como a primeira claridade do dia era a mais forte das claridades, aquele primeiro mijo do pai era o mijo que mais lhe trazia raiva. Ou nojo. Ou vontade de estar em algum outro lugar do mundo. De viver alguma outra vida. Colou o travesseiro sobre a cabeça e o barulho abafado das penas sufocou qualquer possibilidade de que os ruídos da casa chegassem até seus ouvidos. Engoliu mais uma vez. Agora um pequeno fio de saliva lubrificou-lhe a garganta e os espinhos começavam a se dissolver. Tirou o travesseiro da cabeça para respirar um ar que não fosse tão quente. A luz do quarto havia se tornado um pouco menos agressiva. Sentou-se na cama e ficou olhando para o retrato do homem com um raio desenhado no rosto. Ele estava de olhos fechados, mas enxergava tudo. Tudo o que acontecia dentro dele. Fechou os olhos. Mas não era mais escuridão. Não era a fotografia. Ele não.

Na cozinha os dois fumavam tomando o primeiro chimarrão da manhã. Ela dizia que o primeiro chimarrão era o mais amargo do dia. Ele fumava o cigarro e os dois riam e cada um lia uma parte do jornal. Na mesa estava o leite gelado e o saco de pão. Se havia queijo, era na geladeira. Ele olhou para o pai e ele sabia que a primeira fumaça era a que tinha o cheiro mais forte. O cachorro pulou nas suas pernas e ele o empurrou para chão. Ficaram um tempo se olhando. Ele sentiu pena do cachorro e se perguntou há quanto tempo não fazia um carinho no bichinho. Depois ele atravessou a cozinha correndo e pulou no colo da mãe. Ela enfiou os dedos entre os pelos brancos sem desviar os olhos do jornal. O cachorro olhava para ele e ele olhava para o cachorro e ele sabia que a vida daqueles três era mais fácil do que a dele. A mochila pesava nas costas. O gosto da manhã continuava em sua boca e a saliva espessa da noite nos dentes azedava o dia começando. O pai soltou mais uma nuvem de fumaça e riu olhando para o jornal. Ele foi até a pia e encheu um copo d’água. A mãe murmurou algumas palavras e elas significavam uma espécie de conselho que ele deveria comer alguma coisa antes de sair e, antes que ele dissesse que não tinha fome, o pai respondeu que não queria nada e continuou lendo o jornal. Ele engoliu a água e o gosto azedo ficou menos forte, mas ainda estava lá. Ele levou a mão até a frente da boca e expeliu o ar tentando entender o cheiro do próprio hálito. Depois saiu de casa. Eles não.
No caminho para a escola as ruas estavam cobertas de névoa como em todas as manhãs de julho. O mercado estava aberto e dois homens descarregavam sacos de cimento para a reforma do telhado. Os homens respiravam e, a cada respiração, uma nuvem de fumaça saía de dentro deles sem que precisassem fumar. As crianças passavam por ele na direção da creche e as mulheres pareciam cansadas. As mães mais jovens traziam os seus pequenos embrulhados no colo como oferendas. Nenhuma sorria. Nenhum daqueles bebês choravam. Eles passariam o dia com mães que não eram para eles. Eles atravessariam o dia longe de quem lhes fez o mundo e eles sabiam que não adiantaria nada chorar. Por mais que gritassem, a creche era dos males o pior. Por mais que gritassem, as mães tinham uma vida para tocar. Por mais que fingissem, todos sabiam que o pior estava feito. Que o pior era feito. Que o pior sempre seria feito. Melhor aprender cedo. Antes que a vida os pegasse de calças curtas. Todos sabiam disso, mesmo sem entender. Menos eles. Eles não. Os pequeninos.
Atrás dos muros do seminário o terreno baldio eram quero-queros gritando. Gritando Gritando. As mães carregando os pequenos pacotes embrulhados em tecidos macios e de cores claras. Os quero-queros gritando e os pequeninos dormindo. Os quero-queros gritando e elas não precisavam chorar tão alto assim para que fossem possíveis de pena, não de culpa. Ninguém precisava chorar alto para ser ouvido. Os quero-queros gritavam por todas as dores. Ele caminhava e, antes de dobrar a esquina, observou, no terreno baldio, um homem vestindo preto caminhando em círculos que espantava os quero-queros. Os quero-queros gritavam como nunca haviam gritado até então. Ele parou e ficou observando o homem caminhar os círculos sob quero-queros enlouquecidos. Lembrou dos ferrões escondidos sob as asas daquelas aves. Seria verdade? Seria verdadeira a história contada sobre o ferrão que machucava quem incomodava aquele tipo estranho de pássaro? Se fosse, aquele homem desenhando círculos sobre a grama, aquele homem alheio o frio, quebrando a geada com os pés, aquele homem parecia não saber dos perigos escondidos sob as asas cinzas das aves que nunca dormem. O sino da igreja tocou mais uma meia hora e os ponteiros eram a hora exata que a aula devia começar. Ele correu duas quadras e, quase sem fôlego, sentou-se na cadeira no instante em que o professor de matemática soltava a pasta sobre a mesa. Os colegas conversavam entre si. Ele estava sozinho. Seu pensamento andava em círculos e os seus olhos, mesmo sem enxergar, ainda miravam aquele estranho homem vestido de preto, espantando os bichos no terreno baldio. Aquele homem não tinha medo. Ou não conhecia os perigos escondidos onde não se pode imaginar.





A aula transcorreu sem problemas para ele. Fazia tempo que havia desistido de ser aceito como um dos meninos do colégio. Não fazia parte das rodas. Nos trabalhos em grupo usava da simpatia das meninas para não ficar sozinho. As meninas eram mais receptivas. Entendiam as suas fraquezas. Ou talvez enxergassem as suas fraquezas como um tipo de força. As meninas eram mais inteligentes, ele sabia disso. Elas enxergavam o que os meninos não podiam perceber. Ele enxergava o mundo como elas viam. Ele também sabia desenhar. Ele também tinha a letra bonita e ele também gostava dos livros. Como elas, ele também se perdia na paisagem e na neblina e no bosque escondendo árvores do outro lado do vidro. Os professores falavam e ele se perdia na paisagem cor de nuvem. Nos morros. Nos gritos dos quero-queros. Nos desenhos que tomavam conta de seus cadernos. Nas vontades proibidas. De vez em quando se pegava olhando para os tênis de Eduardo. Os pés grandes do garoto. O couro branco. O cadarço gasto. As meias azuis. Quase o céu. Depois arrumava o cabelo e o professor escrevia fórmulas que ele nunca entenderia. A aula inteira era o medo constante de sobrar. A manhã inteira era a vontade de não estar lá. Todos estavam onde ele jamais poderia chegar.
Como tudo o que parece não ter fim, as aulas foram passando. As trocas de professores. A prova depois do recreio. O recreio e a coca-cola. O banheiro vazio. Esperava os meninos voltarem para a sala de aula para ficar sozinho lá dentro. Enquanto mijava pensava nas horas que ainda faltariam para ele estar livre. Não calculava somente as horas daquela manhã. Sabia que não adiantaria terminar aquela manhã. Muitas outras ainda viriam e ele sabia que a metade do colegial era aquele instante. Julho. Logo as férias de inverno chegariam e ele teria completado a metade de um círculo maldito. Ele estaria no segundo semestre do segundo ano do segundo grau. Ele sabia que aquela era a pior época da sua vida, mas pelo menos passada a metade tudo já seria o começo do fim. Seria difícil, mas ele suportaria um pouco mais.
Não. Ele não faria nenhum tipo de concessão para ser aceito. A cidade era pequena. Quanto menor a cidade, menores as pessoas. Quanto menores as cabeças maior a ignorância. E a ignorância sempre foi vizinha da maldade. Ele sabia disso. Era a frase que ele tinha escrito em todas as capas de todos os cadernos. Não havia compaixão. Jamais haveria. Seus olhos estavam fechados para a cidade. Sobre a pele branca do rosto ele tinha um raio desenhado. Todos podiam ver. Todos sabiam que ele não era um deles. Que, cedo ou tarde, ele estaria longe.
Olhou-se no espelho do banheiro da escola. Do outro lado da parede os passos corriam o final do recreio. Ninguém chegaria atrasado. Ninguém, menos ele. O raio cortava o seu rosto ao meio e a fotografia colada na parede do quarto era ele. O homem de rosto magro, olhos fechados e cabelos de boneca, era ele. O homem sorrindo sem mexer os lábios com um raio dividindo-lhe a face, era ele. Ele era tudo o que ninguém jamais seria naquela escola. Naquela cidade. Naquela família. Ele havia nascido com algum tipo de dom, alguma iluminação, algum olho de cada cor. E, com toda a dor do mundo, atravessava os piores dias da sua vida. O colegial antes do fim.
Quando a escola finalmente silenciou ele saiu do banheiro. Entrou na sala de aula antes de as provas serem entregues. Sentou-se. Olhou para a folha e perguntou-se a si mesmo se valeria a pena tentar se enganar. Fechou os olhos. Olhou para os pés de Eduardo batendo contra a cadeira da garota sentada à sua frente. Eduardo olhou para ele e ele olhou para a paisagem branca do outro lado da janela. E, mais uma vez pensou em tudo o que faria quando finalmente estivesse longe dali. Ele seria alguém. E o seu nome seria conhecido. E todos saberiam quem ele foi. Resignou-se e voltou à prova. Escreveu algumas linhas. Escreveu. Escreveu. Escreveu. Era somente isso o que ele sabia fazer.
Do outro lado do vidro da janela o homem fechava os círculos e os quero-queros finalmente se acalmavam. Entregou a prova e guardou os cadernos na mochila verde. A escola ficou para trás. Um dia a menos. O tempo passava devagar. Demais.
O dia avançava perto da sua metade. O sol devia brilhar do lado de cima da espessa camada de nuvens, mas ele não estava lá. Ainda. O céu pesava e parecia mais baixo, ainda mais perto da sua cabeça. Olhou para o alto tentando encontrar alguma diferença entre as nuvens do alto e as nuvens à sua frente. O nevoeiro ganhava vento e ele levantou os ombros. Pensou na sua casa. Nos seus pais. Nos dias que ainda faltavam antes de a escola terminar. Em tudo o que ainda o distanciava do que ele viria a ser. Avançou o primeiro passo para a escola ir ficando, pouco a pouco, cada vez mais distante.
As fachadas das casas pareciam lavadas. A neblina escondia quase todas as imperfeições da paisagem. Rachaduras. Jardins queimados pelo inverno. Janelas quebradas. A neblina deixava o dia mais parecido com ele. Diluído. Avançava lento, como se fosse a última pessoa a habitar aquele espaço. Ou o primeiro homem a visitar o local da tragédia. As casas todas fechadas poderiam ser as pessoas todas mortas. A névoa assassina. Teve mais uma idéia para um filme que nunca faria. Em dias frios e cinzas as idéias vinham numa velocidade impressionante.
Um pouco antes do terreno baldio, nos fundos do seminário, notou estranhos ruídos abafados atravessando a cerração. Os pássaros estavam quietos. Ou não estavam mais lá. Seus passos pararam e ele olhava para o branco vazio tentando entender a senhora mais velha caminhando em círculos no exato local onde antes, quando o dia nascia, o homem espantava as aves. Ela caminhava um pouco mais devagar e mexia os braços como se falando sozinha. Ele avançou alguns passos. A cidade parecia não existir. E se todos estivessem mortos? E se todos aqueles círculos fossem alguma espécie de alucinação? Ultimamente vinha sentindo os dias como se fossem sonhos. A anciã desenhava círculos no que poderia ser o centro de uma comunidade. Ou de uma ilusão.



De dentro do seu quarto o cheiro da fritura vinha acompanhado da fumaça do cigarro dos dois. De vez em quando ela ria e ele tossia. Ele devia estar gripado, pensou. Depois os passos da mãe vieram pelo corredor e ele sabia o que aconteceria. Ela abriu a porta sem bater e não foi preciso que falassem nada para ele saber que o almoço estava na mesa. Fechou a janela do computador, arrumou o pênis dentro da calça e atravessou o corredor escuro. Nas paredes ele sorria. Até uma certa idade. Até a idade em que merecia figurar em fotografias expostas nas paredes da casa.
Ele continuava com o jornal. Ela deu mais um gole no copo de uísque e o pai leu em voz alta o trecho de uma reportagem que fez os dois rirem com um pouco de vontade. Encheu um prato de comida enquanto ela acendia um cigarro. O pai fechou o caderno de esportes e sentou-se à sua frente. Os dois comiam enquanto a mãe fumava brincando com os gelos dentro do copo. Da janela da cozinha ele observava a névoa um pouco menos espessa. O sol não estava lá. Nem estaria. Pensou nos círculos e teve vontade de perguntar aos pais se eles haviam visto o mesmo que ele. Fazia alguns dias que pensava estar vivendo um sonho sem fim. Não que a sua vida parecesse um sonho. Nem que fosse um pesadelo. A realidade parecia um pouco disforme e difícil de ser entendida. Se os círculos não estivessem lá, melhor não atrapalhar o almoço. Como uma doença que ele conhecia, tentava disfarçar para si mesmo uma saúde que não existia nele. O homem e a anciã andando em círculos. Talvez fosse um sonho. Ou talvez a realidade estivesse se tornando, pouco a pouco, um pouco mais interessante.
A mãe apagou o cigarro na água suja entre as louças da pia e sentou-se na mesa com os dois. Os três comeram em silencio e o barulho das mastigações misturado com a tosse do pai e o silêncio dos quero-queros tornava o dia o primeiro de um novo tempo. Ele sabia, mesmo sem querer, que um novo tempo começava. Ele esperava sem saber o quê. Alguma coisa não estava mais igual. Nunca mais estaria. Fechou os olhos e sentiu na sua face o raio azul se desenhar igual ao rosto colado na parede do seu quarto. Ele sentia como se cada momento daquele dia fosse para nunca mais ser esquecido. E observava com mais atenção as unhas mal-cuidadas da mãe. Os pelos saindo pelo nariz do pai. A rachadura atravessando a porcelana branca do prato. As bolinhas de gás dentro do guaraná. De onde elas vinham? Para onde elas iriam? E sentiu saudades de um tempo que era vivido naquele instante. E, pela primeira vez, observou atentamente o passado cobrir o presente e transformar o silêncio em saudade.

Quando o almoço terminou ele voltou para o quarto. Na passagem pelo corredor ele sabia que os seus sorrisos dentro dos retratos não eram mais ele. Sabia que um dia voltaria àquelas imagens para sentir saudade, mas hoje não. Hoje seria melhor não perder tempo com sentimentos que dificultariam ainda mais os seus dias. Bastava a solidão. Bastava a escola. Bastava os seus pais. Com a sabedoria dos que ainda são crianças, instintivamente optava por não criar mais problemas. Não que eles não existissem. Eles existiam. Eles estavam lá. Todos os sorrisos eram a prova concreta de que um dia ele acreditou em alguma coisa e teve pelo menos um momento pleno de felicidade. Ele ainda não sabia que, por mais que negasse, aquelas fotografias eram o último vestígio de um tempo vazio de dores. Ele ainda não ousava se reconhecer tão profundamente.
Entrou no quarto e bateu a porta com força. Tirou o uniforme da escola. Tirou o all-star ainda úmido. As meias estavam molhadas e os pés gelados. Ficou um tempo sentado sobre os cobertores ainda desarrumados da noite anterior. A cama tinha um cheiro azedo e o travesseiro acumulava peles mortas do seu rosto. Desligou a luz e ligou a televisão. O rosto com o raio brilhava na parede e mudava de cor conforme as cenas na televisão. Ficou olhando para os olhos fechados daquele homem magro mudando de cor e cantarolou com a boca fechada alguma canção que havia muito tempo não escutava. A guitarra encostada na parede nunca mais tocaria as canções do homem no retrato. A cama bagunçada não o cobria, sempre uma parte do seu corpo ficava exposta e o frio entrava pela janela.
O jornal da tarde começou e ele ficou olhando para o rosto dos apresentadores. Tirou o volume da televisão para ficar olhando somente para aquelas bocas se mexendo. Hora sérias, hora leves. Fechou os olhos e entrou com as mãos dentro das calças. Ele estava pronto para ser feliz. Os ruídos da casa foram ficando cada vez mais distantes e ele pensou em tudo o que sentiria vergonha depois. Dobrou os joelhos e criou uma cabaninha para que o barulho da fricção dos dedos raspando contra os cobertores não fosse tão alto. De vez em quando ele parava para prestar atenção aos ruídos da casa. O barulho das louças na cozinha indicava que ela estava longe. O pai nunca entrava em seu quarto sem antes bater. Os homens sempre se entendem um pouco melhor. Se o mundo fosse feito de homens ele talvez seria mais importante para os outros. Ele supriria carências que somente as mulheres podem suprir aos homens. A possibilidade de um mundo masculino o enchia de tesão e a sua mão trabalhava com muito mais intensidade. A casa foi ficando cada vez mais silenciosa. Os ruídos da louça na cozinha não estavam mais lá, mas ele, perdido na escuridão sob os cobertores, não atentou ao perigo.
Quando os passos da mãe rangeram as tábuas do corredor ele não sabia que é preciso o dobro da atenção nos momentos de loucura. Quando a mãe atravessou o corredor ela não podia imaginar que, do outro lado da parede onde a criança sorria para cada retrato, o seu filho crescia e os cobertores, que antes cheiravam à criança, agora absorviam secreções. Ela não conhecia a espessura dos líquidos que o filho produzia sozinho, no silêncio do seu quarto. Ela não sabia o que ele guardava por trás dos olhos quando eles se fechavam. Ela não enxergava os olhos fechados do menino. Ela não notava a falta de sorrisos no rosto do filho. Acostumada aos retratos na parede, eram aquelas as imagens que, para ela, faziam o garoto. Aprisionado em fotografias que não eram mais ele, ele não conseguia demarcar novos territórios. Ele ainda não conseguia mapear um novo terreno para um afeto que não estava mais lá. Ela fumava. Ele olhava para o chão. Ela terminava mais um copo de uísque. Ele entrava no quarto. Ela chorava vendo os retratos da família. Ele não entendia.
Um pouco antes de terminar a fricção, a porta do quarto se abriu com força e ele arrancou a mão de dentro da calça. Ela fechou a porta antes que pudesse entender o que acontecia sob os cobertores do garoto. Ele fechou os olhos para nunca mais abrir. Mais uma vez. Mais uma vez para sempre. E o que ambos pensavam sobre o outro jamais deixaria de ser apenas uma vaga suposição.
Ele fechou os olhos. O homem na fotografia abriu os seus. E o garoto entrou nos sonhos de uma imagem que não existia mais.


3 comentários:

sara lee disse...

sinal de transição....o homem desse texto, é um homem

rodrigobolzan disse...

as meninas que olhavam através das janelas e viam coisas viraram uma patricinhas burras;

os homens como nós se multiplicaram;

ter olhos de cores diferentes ficou sendo mais uma esquisitice a ser ignorada no mundo;

e como tudo isso faz sentido, é um longo post ou um primeiro capítulo de roteiro romanceado?

geheimnis disse...

é um longo suspiro...
pq vc não libera o seu blogue???

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