terça-feira, 31 de março de 2009


















coloquei a camiseta e saí por aí com uma musiquinha no ouvido e sentindo o vento frio que chegou na cidade. sentei na butique do livro e pedi um vinho e escrevi. escrevi. escrevi sem parar. pedi a conta e descobri um autor boliviano que se matou ao vinte e cinco no ano de mil novecentos e setenta e cinco. dez anos antes de eu nascer. comprei o livro e saí pela cidade mais uma vez. sentei no clube eros para ver os portenhos jogar futebol de salão. comi a melhor massa da cidade. paguei o preço mais barato do bairro. li o prefácio do fabian casas para a obra do autor que morreu antes de eu nascer. me encontrei no que ele dizia sobre o outro. e ousei sorrir pensando no dia que ficou bonito depois de ontem. caminhei quase rebolando a música que tocava. e eu, eu não era eu. eu estava feliz.

segunda-feira, 30 de março de 2009

... amigos imaginários cansados de ler...

















Os dias continuam de sol e calor aqui do lado de baixo do mundo. As pessoas continuam falando essa língua estranha e meus ouvidos doem um pouco mais a cada silaba que não consigo pronunciar. A cada olhar que não consigo entender. O mundo está um pouco fora de foco do lado de baixo do mundo. O café não adiantou. Nem a pequena caminhada em volta do quarteirão. Nem as folhas dos plátanos que começam a cobrir as calçadas. Hoje é uma segunda-feira e faz uma semana que estou aqui. Ontem meus pais foram embora e eu fiquei. Quando eles desapareceram caminhando abraçados na avenida Santa Fé o meu peito apertou. Antes de dobrar a esquina olhei para trás e eles estavam também paradas, me olhando e sorrindo. E me vendo desaparecer no meio dos argentinos loucos do fim do domingo.

Eu deveria estar no cinema, vendo algum filme independente dos tantos que estão em cartaz aqui. Eu deveria estar trabalhando em algum projeto com inicio, meio e fim. Eu devia estar feliz por não precisar fazer nada do que a maioria das pessoas precisam fazer para ficarem felizes. Talvez eu devesse ter comprado um vinho no armazém do chinês. Mas eu comprei granola, iogurte natural, bolachas de arroz e maçãs verdes. Daqui a pouco vou correr debaixo do sol. O complicado é quando a gente procura a felicidade da forma mais obvia. O problema é quando a gente procura a felicidade. Ou quando a gente acredita nela. Pelo menos toca Radiohead. Um show que estava aqui. E que eu não vi. Depois de Bob Dylan quase nada mais vale a pena.

Os cachorros aqui andam sem coleira. As pessoas olham pouco para o chão e os homens falam alto. Todos comem comidas gordurosas e eu agora como macarrão todos os dias. Todos os dias bebo uma coca-cola enquanto espero o prato chegar no buteco da esquina. Sempre sento na mesma mesa e sempre sou atendido pelo mesmo garçom. Todos os dias eu deixo dois pesos sobre a mesa e ele me agradece com mais intensidade do que o necessário. Show me the Money. Show me Love. Show me anything que eu nunca tenha visto antes. Talvez faça algum sentido ficar sentado do outro lado da vitrine olhando para as pessoas andando na calçada. Vendo as grávidas acreditando no futuro. Vendo as mães sorrindo otimismo aos recém-nascidos. Vendo os velhos aproveitando cada dia como se fosse o ultimo. As moças saindo da escola sem saber que tudo vai ficar para trás. Que os estojos serão esquecidos. As palavras escritas desaparecerão antes que  o ano termine. O menino mais bonito da sala também será o primeiro a ter um filho. Todas engordarão. E quase ninguém mais se reconhecerá do outro lado do espelho quando o colegial for apenas uma fotografia perdida em algum email há muito tempo não aberto.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Anoitece. Os plátanos da cidade perdem as primeiras folhas do ano. Existem muitos plátanos na rua onde estou. É tão bonito. Tão mais bonito do que onde você está agora. No rádio toca alto uma canção antiga e a brisa que vem do rio da prata não tem nenhum cheiro de mar. O sol cai atrás do edifícios da cidade mais bonita de todas as Américas. E eu poderia pensar que valeria a pena chegar aqui. Nem que fosse apenas para escutar uma língua que não é a minha. Abri uma garrafa de vinho. Os momentos sempre podem ser um pouco melhor aproveitados. As musicas, quando não dançadas, adquirem uma aura de mistério quase igual as bocas quando nunca beijadas. Gosto de não ir nunca até o fim. Gosto de não conhecer onde termina o limite e começa o conhecido. Eu deveria estar correndo agora. Mas entre vestir o calção e sacar a rolha, preferi ficar um pouco bêbado. Eu quase sempre prefiro a felicidade a curto prazo.

A vida tem menos poesia perto dos próprios pais. Eles estão aqui. Vieram passar alguns dias comigo. Vieram querer entender o que me faz amar qualquer lugar longe deles. Não sei se eles entenderam. O que fizemos até agora foi caminhar pelas ruas comprando roupas baratas e depois sentar em algum bar e beber toda a Quilmes possível. Acabei de deixá-los em um cassino. Mais tarde vamos sair para dançar tango. Quando minha mãe saiu do taxi ela tropeçou e depois pediu que eu levasse as suas sacolas para o meu apartamento. Comprei um vestido bonito para quando você aprender a caminhar. Um daqueles vestidos que se parecem tanto com os vestidos que as crianças das fotografias antigas usavam. Um vestido preto com flores brancas pequeninas e uma fita de veludo negro. Acho que os seus olhos, em contraste com o vestido, ficarão ainda mais azuis. E a sua pele ficará ainda mais branca. Você é a menina mais bonita que eu conheço e o seu nome é Sara sem “H” no final e a sua mãe é a garota que mais se parece comigo. Mas vamos parando por aqui, antes que eu comece a fazer declarações de amor se vergonha de mim mesmo. Dá sempre um pouco de vergonha essas coisas. Principalmente depois que os efeitos passam e a realidade volta. A realidade sempre volta. Só depois de morto que não mais. Deve ser bom nunca mais precisar ser real. Deve ser bonito ir embora para nunca mais voltar. Para quem nunca quis estar aqui, a ausência é a forma mais profunda de sempre estar.

Eu tenho um monte de emails para responder, mas diante da ausência de tempo, tento resolver tudo aqui. Essa resposta é para você, que não me manda poesia e me cobra realidade. Olha garota. Quando você pensa em vir eu não vou mais estar aqui. Mas também ainda não estarei aí. Acho que não vai valer a pena você vir para cá sem mim. sinto tanto a sua falta, mas é melhor não pensar nela agora. quando vamos viajar só nós dois? Sem ninguém que nos segure? Sem ninguém que nos acorde antes mesmo de termos ido dormir? Eu não entendo como você agüenta a vida, e por isso eu tento agüentar a minha também. Por que, se você agüenta, eu também preciso agüentar. Comprei uma camiseta com listras vermelhas para usarmos na nossa viagem pela Califórnia. Talvez o ano que vem não chegue nunca, mas a roupa já foi comprada. Não venha sem mim. Faça uma loucura. Pegue um avião sozinha e me encontre no rio grande do sul e vamos passar a páscoa sem ninguém??? Sem ninguém mais??? Eu acho que se você ler esse texto aqui, você vai entender. Não vou responder seu email. Se você ler isso aqui você promete comprar na hora uma passagem para o sul do Brasil??? Promete??? Promete??? Promete??? Escreva cem vezes “vai ser verdade” que depois ninguém poderá tirar da sua cabeça aquilo que você mesma inventou.

 

Minha mãe ligou do cassino dizendo que não tem dinheiro nem para o taxi. É assim que as coisas são. Sempre vai haver uma hora em que nada mais poderá ser dito. As fichas sempre podem cair nos números errados. Mas ela gargalhou do outro lado da linha, e por mais que as fichas caiam nas casas erradas, basta sorrir e encontrar alegria e entender que nada vale mais do que ter para quem ligar quando a grana chegar ao fim.

 

Combinamos de beber uma Quilmes gelada na esquina para comemorar a falta de sorte do mundo.

Eu jamais colocaria um bebedouro para beija-flores. Nem uma casinha para alimentar passarinhos. Nem jogo pão seco no laguinho do parque. Não dou comida aos pombos. Nem dinheiro para os mendigos. Quero passar pelo mundo sendo minimamente responsável por nada do que acontece dentro dele. Me deixe quietinho que eu prometo fazer de conta que eu não existo.

 

E por hoje já chega de exposição. Take advantage of the season.

terça-feira, 24 de março de 2009

Não. Eu não me sinto bem. Estou nessa cidade onde não posso andar de chinelos nas ruas pq meus pés ficam sujos demais. Estou nessa cidade onde me olham um pouco torto pq está tão na cara que eu não sou um deles. Toca Radiohead bem alto na sala desse apartamento bonito que eu não sei de quem é. A pessoa que mora aqui deve gostar de cores e tem bom gosto para móveis e decoração. Nunca aluguei um apartamento por temporada tão bonito quanto esse. Nem tão silencioso. Nem tão limpo, nesse país onde os pés ficam sujos se usar chinelos nas ruas. Mas aqui tem muitas arvores. E aqui tem prédios antigos e tem pessoas que criam vira-latas como se eles fossem cães de raça. E hoje aqui vai ter show do Radiohead e eu não comprei ingresso e os ingressos estão todos esgotados. E eu queria ver, mas talvez não tanto assim. Descobrimos que nada é imperdível, que tudo tem a hora certa para acontecer e que o que vale a pena flui naturalmente. Como a diarréia que me pegou aqui. Sinto na privada o real significado da palavra fluir.

Quando a barriga dá uma trégua, saio para caminhar pelas ruas. Procuro qualquer coisa que me faça sentir um pouco útil nessa terra um pouco longe de onde você está agora. Leio um livro em francês e almoço em restaurante orgânico. Faço posturas de yoga a cada meia-hora e meus braços estão fortes. Ouço musicas bonitas. Como essas, do Radiohead. Se você voltar a tempo, talvez devêssemos pegar um ônibus. Não estamos assim tão perto do local do show, mas locais de show nunca são perto de ninguém que a gente conheça. Podemos pegar um ônibus e sentir a vibração de todas as pessoas que acreditam que uma banda ainda pode mudar o significado de uma existência. Se alguém nos oferecer ingressos e se tivermos dinheiro para pagar, podemos comprar. Podemos também comprar uma quilmes e ficar no fundo da platéia vendo trinta mil pessoas encontrando um significado para a própria existência. Todas ao mesmo tempo. Dizem que as luzes desse show são muito bonitas. Eu gosto de luzes e você também. É provável que eu chore no meio de alguma canção e pensei em te dar um abraço, mas eu acho que isso eu não vou fazer. Talvez você também chore quando cantarem uma musica mais simples. Você gosta das coisas simples. Deve ser por isso que você não gosta de mim.

Passo a tarde nesse apartamento. Já dormi. No meu estomago não tem mais nada. Se você não chegar em meia hora vou colocar um par de tênis e ir correr nos bosques de Palermo ouvindo Radiohead no headphone.

I’m not a looser babe. I’m not a looser. Mas nem tudo vale a pena qualquer sacrifício.

Desenterrei um texto antigo arquivado em um email. Um texto de 2007. A idéia para um livro. Foi assim que passei também uma parte da tarde. Brincando nesse arquivo e imaginando alguém que gostaria de escutar aquela história. Troquei frases. Cortei frases. Depois fiquei com sono e deitei na cama. E fiquei pensando se avançar tres paginas por dia em uma história não é pouco demais.

No meio do sono eu sonhei e eu acordei e pela janela de vidro bem grande vi que o céu está bonito aqui. E tive uma boa idéia para a história. Depois dormi de novo e agora eu não lembro mais. Talvez ir ao show seja um bom motivo para penetrar de novo na atmosfera do sonho. É isso o que falam sobre as performances do Radiohead. Talvez lá eu encontre qualquer coisa que eu possa materializar e encontrar alguma utilidade pratica para o que não devia ter sentido algum. Pode ser que isso seja envelhecer. Perder as expectativas junto com os cabelos. E tentar encontrar uma explicação para tudo o que não devia querer se explicar. Ultimamente tenho acreditado que as rugas trazem justificativas. Estou cheio delas.

sexta-feira, 13 de março de 2009














Termina uma sexta-feira de chuva aqui em São Paulo. Na vitrola toca daydream nation, do sonic youth. Fico olhando para a agulha arrancando poeira das faixas. Um pequeno travesseiro que conforta o peso das guitarras. Existem bandas que precisam soar anacrônicas. Não importa quando elas tenham nascido.

A janela está fechada para não molhar o tapete. O tapete é de pele branco que eu gosto muito pois ele era da minha mãe. O sonho da minha mãe sempre foi ter um tapete de pele branco, dos bem peludos. Desde que eu era criança ela falava em comprar um desses.

Um dia, quando eu já não morava mais lá, ela me ligou para dizer que tinha conseguido o tapete. Ela estava feliz. Naquela época ela ainda tinha tendência à felicidade.

Fui visitar minha mãe nos primeiros meses do tapete. O quadrado na sala passou a ser uma espécie de tableau sagrado. ninguém podia pisar sobre ele sem os olhares ressabiados de minha mãe. O tapete permaneceu sagrado por poucos meses, por quê na visita seguinte, notei que o tapete era diariamente cagado pela Brenda, a poodle preta. No inicio ela deve ter apanhado, mas depois parou de apanhar, mas não parou de sujar o tapete. Com o aval da Brenda, o quadrado sagrado se profanou e toda a família pode habitar a casa sem restrição de espaço.

Um tempo depois minha mãe cansou de ter que limpar o tapete todas as manhãs e o guardou no porão. Bem protegido. Todo ensacado para não pegar poeira.

Quando a filha da minha mãe casou, ela foi morar em um apartamento com piso frio. E a filha da minha mãe gosta de tocar guitarra e jogar vídeo-game então ela pediu o tapete emprestado. Minha mãe emprestou o tapete passou a ser bastante usado.  Ficávamos até de madrugada jogando vídeo-game, nós dois, enquanto o marido dela dormia. Ou tocando violão e cantando músicas da Hole. Minha irmã gostava de Hole naquela época. E eu sempre dormia lá. Teve um fim de tarde de verão que eu até transei no tapete de pele. Eu lembro que no meio da trepada me veio a imagem dos cocozinhos da Brenda ali do meu lado e eu tive que me reconcentrar no que estava fazendo. a pele suada encostando nos pelos brancos que minha mãe adorava dava uma sensação de desconforto.

 

Depois a filha da minha mãe cansou do tapete pq ela mudou para uma casa onde tinha muito pó. Como a casa era pequena, ela o levou de volta para o porão da minha mãe.

 

Um dia eu estava indo acampar. Fui procurar a churrasqueira portátil no porão e reencontrei o tapete. Sem ninguém ver, coloquei-o no porta malas e o levei ao acampamento. 

Era inverno, uma das noites mais frios do ano, e acampar consistia em invadir um camping privado e passar a noite em alguma cabana arrombada. Mas naquela noite havia um casal em uma das cabanas e achamos melhor não arrombar nenhuma. Ficamos embaixo dos plátanos dentro do carro conversando e ouvindo música. Quando lembrei que tinha o tapete, improvisamos uma fogueira com as folhas secas das árvores e ficamos os tres sentados em cima das peles quentes sentido o calor do fogo. O Adair até tocou violão. As minhas mãos congelavam, mas como ele era colono, aqueles dedos grossos não sentiam nenhum frio e ele arranhava as cordas sem rachar a ponta dos dedos. e ele cantava com bastante ar gelado e não tinha vontade de tossir e nem ficaria doente no outro dia. 

Depois daquela noite eu nunca mais tirei o tapete do porta-malas do carro do meu pai. Na primeira vez que minha mãe foi no mercado e viu o tapete lá dentro na hora de guardar as compras, ela estranhou. Depois foi se acostumando.

Eu, em todas as noites que saía sozinho para olhar para as estrelas no meio da estrada do ceva 20 ou quando passeava perto da cascalheira do passo do corvo, sempre tirava o tapete e ficava deitado em cima dele no meio da estrada de terra. Uma noite eu dormi. Só acordei no outro dia com um quero-quero bicando o meu rosto. Nenhum carro havia passado. 

Foi a primeira vez que tive certeza de estar morto. 

terça-feira, 10 de março de 2009

A maioria dos meus CDs eu só guardo o encarte. Não guardo a caixa. Eu parei de guardar a caixa por falta de espaço. Bem simples e bem pratico. Na falta de espaço, quebre caixas de CDs e jogue as fora. guarde o encarte como envelope e coloque tudo dentro de uma caixa de sapatos. Mas caixas de sapatos são objetos antigos e quão longe você pode ir sempre que pensa em uma caixa de sapatos. Você consegue lembrar de todas as utilidades que já deu para uma caixa de sapatos? Se as caixas de sapatos fossem verdade, viveríamos descalços. Às vezes eu me lembro de você quando escrevo simplesmente para dar alguma utilidade aos meus dedos. Tenho tiques. Se não estou teclando eu enlouqueço. E é sempre um pouco perigoso.

As vezes eu penso que se eu tiver alguma literatura para me definir, ela terá se diluído na caixa postal dos meus inimigos. Como rechear de palavras doces um email de adeus. Como enfeitar de exclamações uma mensagem de amor. Dotar de letras minúsculas uma intimidade que é nossa.

 

segunda-feira, 2 de março de 2009
















Quando você me viu dançando daquele jeito eu penso que foi só você que viu. E às vezes eu tenho certeza de que as coisas que você vê não são reais. Mas eu fiquei feliz por você ter me visto de um jeito muito mais bonito do que eu sou. Agora anoitece e é uma segunda-feira e segundas-feiras não deveriam acontecer. então eu olho para fora da janela e fumo um cigarro observando os vizinhos. As suas reuniões sem fim. E observo um pouco para dentro de mim mesmo. Para o mundo das pessoas que me vêem. Você pensa na forma como te enxergam quantas vezes por dia? É normal pensar tanto assim? Talvez seja uma segunda-feira e os cigarros tenham todos perdido o efeito.

Agora começa a tocar uma canção do The Mamas and the papas e eu sempre gostei tanto deles. Minha tia me deu um cd deles e aquele foi o meu primeiro cd.  Eu tinha cd antes de ter o tocador de cd. Eu tinha DVD antes de ter o tocador de DVD. E eu comecei  a colecionar vinis muito antes de encontrar a vitrola perfeita. Temos muito mais em comum do que os outros podem imaginar. Ou. Temos coisas em comum que ninguém jamais terá. CDs sem onde tocar. DVDs sem onde assistir. Algumas pessoas possuem os pré-requisitos básicos para um interesse existir. Nascemos no mesmo ano e somos testemunhas de um tempo comum que ninguém jamais terá. Todo o ano que faço aniversario eu penso há quantos anos eu te conheço. E sempre parece um pouco mais do que é de verdade. O mundo de fora olha para dentro de mim. mas eu não gosto de olhar dentro dele.

Dizem que os nossos maiores medos nunca vão chegar. Talvez seja por isso que eu guarde-os tão bem e mantenha o hábito diário de cultivá-los. Ele disse que eu nunca vou morrer do coração. Se esse é o meu maior medo, ele nunca acontecerá. Pensei se o mesmo vale para os nossos sonhos, mas achei melhor não perguntar. Você assistiu Pul Fiction? Eu assisti em lajeado no cinema do unishopping. Faz trezes anos eu acho. Talvez Pulp Fiction hoje seja um clássico para os mais novos do que nós. É estranho ver o que nasceu com a gente ir virando um clássico. Parece que não temos mais nada há fazer. Ficamos para trás. As novidades sempre serão menos interessantes para os que viram tudo.

Tem dias em que eu queria ser virgem dos olhos. E dos ouvidos. Talvez o mundo chegasse com mais vontade dentro de mim.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

às vezes parece que nada faz sentido. parece que somos agressivos demais. que gritamos com quem não deveria. estou triste comigo e não há motivos para sair de dentro.
e eu pensei que esse ano não haveria inferno astral.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009








eu e o nelo johann em arroio augusta/roca sales. terra do meu pai. e terra onde eu cresci.





















Escrevo do meio de uma tarde de verão. Se a sua pergunta foi: você tem escrito ultimamente? A minha resposta sempre será a mesma: como sempre, tenho escrito. 
Talvez você não me conheça tão bem. É verão e faz uma tarde de sol recortada por pequeninos temporais. Eu deveria estar trabalhando. Mas eu não estou. Passo a vida buscando motivos que me joguem contra eles. Marco compromissos para ter o que desmarcar. Construo amizades para ter o que destruir. Cultivo rostos para ter o que evitar. E danço em cima do nosso amor que se acabou escondendo as lágrimas de mim mesmo de um jeito tão verdadeiro que eu mesmo acredito nas coisas que invento. Os perigos são maiores quando brincamos sozinhos. É sempre mais fácil perder a dimensão quando, do outro lado do abismo, não há ninguém para indicar o caminho. São nas noites escuras que os barcos perdem o rumo e batem contra os rochedos.
O nosso amor talvez se acabe um pouco mais a cada noite. Estranho. Mas, mesmo se assim for, eu te quero sempre um pouco mais. Sempre que as luzes se apagam e esquecemos de nos fazer as perguntas mais bonitas olhando no fundo dos nossos olhos. No meio da noite você acorda. O seu peito aperta e você procura o meu braço. E eu te abraço entre dois sonhos. Pequenas tempestades enfeitando a noite de verão.
Do outro lado do mundo um sol nasce de dentro de algum mar e alguma pessoa olha os primeiros raios do dia pensando nas coisas boas que nunca irão lhe acontecer. Nem sempre é o bem que está no nosso caminho. Mas com você do meu lado nos protegemos de tudo o que não pode ser belo. Esgrimamos guarda-chuvas fechados prestes a explodir temporais sobre os pequeninos.
Do outro lado da cidade uma pista de dança ferve. E alguém dança sozinho esperando alguém chegar. E alguém dança sozinho olhando para o chão sem saber como chegou até aquele instante. E alguém toca musicas para destruir o coração de quem escuta. E o meu sempre foi o primeiro a explodir.
Agora toca uma musica bonita. As folhas das arvores pingam do outro lado do vidro molhado. Os vizinhos me observam. E eu não estou em lajeado. Estou na minha casa aqui em São Paulo. Na Vila Madalena. Em 2009. No inferno astral mais bonito desde quando eu não sabia o que era “inferno astral”. Quando olho para trás é sempre impossível não me perguntar: caralho, mas alguém pode me explicar como foi que eu cheguei até aqui?

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no ultimo inferno astral eu morri. Mas agora passou.


Tudo tudo vai passar. Todas as coisas ruins. E todas as coisas boas.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

 Tuane.
hoje eu li na internet que fizeram um labirinto de balões coloridos na suíça. vamos?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009













O rio descia na nossa frente e ele estava pesado. Corria na direção da cidade e, antes da curva, ele não brilhava. As nuvens estavam baixas e, muito antes do que pudéssemos prever, os dois, água e céu, viravam uma coisa só. Os pinheiros não balançavam pois não havia vento. O meu pé empurrava o seu para cima e o meu seu pé empurrava o meu para baixo. Nossos tênis esfregavam um no outro o barro da estrada de terra. De vez em quando você parava. E era sempre eu quem tinha que recomeçar. Pensava em muitas coisas para te dizer, ensaiava respostas para perguntas que você não fazia e, quando voltava para casa, a certeza que eu levava para o quarto era que cada dia era um dia a menos. Olhava para as paredes pensando no dia em que eu não estaria mais lá. ouvia o barulho da televisão e sabia do tempo em que eu sentiria saudade daquele instante. Era um pouco estranha a sensação de estar auto-exilado dentro da própria casa. o cheiro do cigarro dos meus pais avançava pela pequena janela que dividia o meu quarto da cozinha, onde eles passavam a noite vendo televisão deitados no sofá de veludo marrom. Fumando debaixo de algum cobertor ao lado do fogão à lenha. Entre julho e setembro eles comiam pinhão. A pia da cozinha afogada em cinzas de cigarro e casca de pinhão no outro dia de manhã, quando eu acordava sozinho para ir à escola. Enquanto calçava o tênis para sair, o radio-relogio ao lado da cama deles despertando no ultimo volume não era o bastante para tirá-los da cama. Quando abria a porta o ar gelado era limpo. Não tinha cheiro de cigarro. As ruas não tinham cascas de pinhão entupindo os bueiros e o mundo fora de casa era um lugar melhor para se estar. Do outro lado do jardim de ervas daninhas, a calçada quebrada por raízes de arvores antigas estragava a paisagem perfeita e cimétrica todas as calçadas que não eram a nossa. Os jardins com pequenos arbustos e grama curta eram acessos para mundos que eu não conhecia. Que talvez fossem melhores do que o meu, mas que eu não queria experimentar. A solidão da calçada desenhava meus passos o caminho mais distante entre as duas portas: a da escola e a da minha casa. Atalhava procurando uma distancia cada vez maior entre as duas portas. Respirando sempre por mais tempo o ar não contaminado dos espaços fechados. Como um mergulhador medindo o tempo eu retinha nos pulmões fechados um ar limpo pelo maior tempo suportável. Antevendo o que viria, fazia da rua a minha casa. fazia do não pertencer o meu bem-estar. e preparava minha família para a despedida que, muito antes do que eles podiam imaginar, viria a acontecer. Entre ser o filho perfeito e ser o filho da vergonha, o melhor era causar vergonha. A despedida seria menos dolorosa. A falta seria menos sentida. Tentava controlar o que despertava nos outros para não ter deles amor demais. Amor demais significava sofrer na hora de ir embora. O amor demais que eu não queria sentir não me deixaria partir. Era um canto da sereia me levando para baixo. Para a morte. Para o não mais eu. E eu não amei o quanto eu deveria, eu não podia. E eu não deixei que eles amassem o quanto eu precisava, eles não podiam. Quando chovia era ruim não poder sair. Nos dias frios era ruim não poder sair. E quando eu passava tempo demais dentro de casa o medo de morrer crescia. E a morte nascia de dentro dos instantes mais imprecisos. Minha mãe servindo um prato de arroz sobre a toalha xadrez. O prato marrom transparente cheio de riscos opacos. Minha irmã conversando com meu pai. Ele prestando atenção nas noticias da televisão. O volume cada dia mais alto. Eu não estava lá. E, antes de sentir raiva eu sempre sentia saudade. E observava o curso da minha casa como um viajante que sabe que não está mais lá. mesmo dentro dela, eu observava a minha  casa de fora. Sentindo uma ponta de nostalgia em cada gesto que deixava de ser. Capturava o ultimo instante antes do sorriso da minha mãe deixar de ser real. Gravava na retina os dedos da minha irmã arrumando os cabelos e dedos do meu pai acendendo mais um cigarro. E existir era uma sucessão de retratos que eu sabia que nunca mais iria esquecer. Você empurrando o meu pé para baixo. Eu empurrando o seu pé para cima. O barro da estrada de terra. Os passarinhos silenciosos no meio da tarde de inverno. Os pinheiros pingando neblina. E nós. E nossos pés.  

sábado, 24 de janeiro de 2009

na sala toca um disco do elton john. e eu gosto de elton john. ele me lembra de um tempo que eu não vivi. ele me faz familiar de coisas que não conheci. você também gosta de elton john. você trabalha no seu computador e eu escrevo no meu. nos encontramos nas dobras dos nossos trabalhos. dormimos sobre as dobras de um mesmo colchão. mas as nossas mãos quase não se encontram no meio da noite. eu sempre desconfio das medidas que os outros usam para o amor. 
o seu analista te explicou que eu sou sensível demais. o seu analista me explicou, sem querer, tanta coisa sobre mim. às vezes eu penso que a minha analise é feita de sobras de análises dos outros. coleciono cada frase dita pelos analistas que não me analisam. e chego a acreditar que a minha análise é feita das frases que me são dadas pelos outros. gosto de escutar conversas sobre analistas. gosto de saber de diagnósticos. de frases de impacto.

"onde você se apaixona?"

o analista de um amigo falou para ele na primeira consulta. e meu amigo nunca mais voltou alegando ser uma pergunta simples e, ao mesmo tempo, preconceituosa demais. "como assim apaixonar? Eu não preciso me apaixonar". e meu amigo continuou sem análise. eu guardei a frase. ou roubei. ou simplesmente aceitei a pergunta e joguei para dentro de mim mesmo. sem nunca achar uma resposta.

"ele é sensível demais"

foi o que o seu analista falou sobre mim. faz dois dias que você me contou isso. e eu não paro de pensar nesse triste veredicto sobre mim. faz dois dias que eu penso que talvez o melhor, para os sensíveis demais, seja ficarem para sempre sozinhos. eu sinto que é difícil demais ter pessoas perto demais de mim. sou sensível demais. e podem me machucar sem saber.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Gosto de exercitar a escrita sem edição. A escrita como uma palavra falada. A frase dentro da frase. Gosto da escrita como uma sucessão de idéias que partem de algum lugar de onde não lembramos e seguem por um rumo cujo final sempre desconheceremos.  Aqui é noite agora e agora eu escuto rádio. Uma rádio daqui dessa cidade. uma rádio que toca musicas que gosto. Acabou de tocar “why Don;t you come over here? We have a city to Love” e eu lembrei de um domingos alguns anos antes de agora. De todas as bocas que passaram por mim naquela noite. De todos os olhos que paravam em mim naquela época. Não faz tanto tempo assim.  Mas não sei lembrar quanto. Às me deixo pensar no que eu fui antes de agora. isso não é sempre. Só acontece sempre um pouco antes de você partir. Às vezes preciso lembrar para mim mesmo como eu era feliz sozinho. Serve para que eu não sofra demais caso você não volte.

Quando eu comecei a escrever eu escrevia para testemunhar os meus dias. Se escrever é antes por alguém, não para, eu escrevia por mim. rascunhava os meus dias e os meus dias eram do interesse de ninguém mais que não eu. Por isso as mortes. O medo de ser descoberto. A vontade e o não querer  ter um dias as palavras roubadas. A vontade e o não querer ser alguma coisa maior do que eu era. A vontade e o não querer sobre tudo o que era incerto.

Numa noite de inverno eu estava sentado em uma festa. A festa estava cheia, mas eu estava sozinho. Eu estava sozinho sentado em um banco encostado contra a parede. A parede era suja, mas talvez eu fosse novo demais para perceber. As coisas feias da vida vão ficando mais feias conforme envelhecemos. Talvez envelhecer seja ver o lado feio de tudo. Quase sempre acredito que eu nasci velho. E rejuvenesço quando, antes de dormir, constato que o saldo do meu olhar foi menos belezas do que feiúras. E a sua beleza cresce debaixo dos lençóis do outro lado da cama. Tão longe de mim.

Quando nos conhecemos falamos horas a fio sobre os mesmos filmes. alguns olhos certamente passearam por nós, mas não notamos. Perdidos nos olhos um do outro, talvez fôssemos novos demais para entender que nada dura para sempre. E que as verdades sobre a vida nunca eram menos óbvias do que aparentavam. Você me queria e eu também. Mas não. Na primeira noite nunca.

Agora você foi dormir. Antes de deitar passou no meu escritório e perguntou se eu tinha sono. respondi que não. Você perguntou o que eu estava escrevendo a essa hora da noite. Respondi que era uma nova idéia. Que estava sem sono. você pediu que eu baixasse o som ou que fechasse a porta. Baixei o som, pedi que me beijasse, você me beijou, depois eu fechei a porta enquanto as suas costas desapareciam no escuro da nossa cozinha.

Hoje temos nossa cozinha. Nossas louças sujas. Nos queremos. Nos desejamos. Mas às vezes fingimos que não. Hoje eu te amo. Segunda você vai embora. E é sempre preciso lembrar da vida antes de você. Antes de você partir e nunca mais voltar.

Você ainda não sabe, mas um dia vai saber. Sempre haverá um cara melhor do que eu. Talvez você já saiba, mas não quer admitir. As separações são longas e dolorosas. Você também. Cicatrizávamos quando nos encontramos. Talvez agora você durma. Talvez pense em um outro melhor do que eu. Todos os outros são melhores do que eu. O radio toca um r’n’b. Um negro grita baixinho no fundo da noite. E sempre, antes de dormir, eu me pergunto como foi que eu vim parar aqui. E sempre durmo sem saber.

 

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

os dias estão estranhos aqui na grande cidade. os dias estão cheios desde o dia em que cheguei. mas eu não vou. e eu não quero. e eu acho que eu não sei mais querer as coisas que um dia eu quis. é como se tudo tivesse perdido um pouco a graça. pessoas morreram em 2009. pessoas morrerão. hoje eu estava em uma festa. e nessa festa uma mulher não sorriu para ninguém. duas vezes ela sorriu para mim. e eu não sorri de volta. depois da sobremesa ela foi embora sem se despedir. uma menina veio me dizer que ela iria começar a quimioterapia amanhã. ela fumou um baseado. comeu um prato de comida e no meio do prato de comida ela riu para mim pela primeira vez. depois comeu sorvete de chocolate e entre duas colheradas ela sorriu para mim mais uma vez. quando eu fiquei na janela olhando para a cidade e sentindo o vento nos meus cabelos, ela olhou para as minhas costas. e ela sorriu para mim. sorriu tão forte que eu não precisei ver para sentir. 

depois ela foi embora. saiu arrastando a saia indiana que não combinava com a decoração da casa. antigo demais para aquelas pessoas. seus cabelos tingidos de um jeito infantil. o sofá de couro. a mobília antiga. o disco novo do franz ferdinand. e os sorrisos que ela emitia sem resposta.  depois ela foi embora. desceu os cinco andares do prédio sem carregar sorrisos. 

quando fiquei sozinho na cama tentei entender o que ela havia procurado naquela noite. na última noite antes da quimioterapia. o mundo é mais difícil para os doentes. antes de deitar você reclamou de alguma coisa sem importância e eu contei sobre o câncer da mulher que saiu no meio da festa. você se sentiu mal e era isso o que eu queria. você parou de reclamar e essa que eu queria. você não dorme na nossa cama. eu estou acordado na parte mais fria da casa. não era isso o que eu queria.

eu queria que ela não morresse. 

se os sofrimentos são sem sentido a morte sempre perde o significado. mas eu ainda tento entender os por quês dos sorrisos que não retribuo. dos telefones que não atendo. das cartas que não recebo. e nunca encontro resposta para o meu próprio silêncio.
há insônia em mim. meu organismo contamina-se de insônia e meu corpo dói. trago palavras que não são minhas. às vezes me pego falando uma língua que não entendo.  penso no dia em que deixaremos de nos amar. quem de nós vai sofrer mais? penso nas pessoas que morreram. nas que morrem. nas que morrerão. todas estão vivas. 

os rios desviam do leito toneladas de lama. o mundo está em fúria. as feridas foram todas abertas. e eu queria saber dormir.

há ansiedade dentro de mim. e, estranhamente, hoje eu não sei fazer mais nada a não ser trancafiá-la ainda mais.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

converso com você no skype e toca cat power. se os nossos blogues são terapias, vamos entrar um pouco mais fundo nelas. o mapa do mundo está colado na frente da minha mesa, atrás do meu computador e ele é a coisa mais perto de mim aqui nesse quarto apertado. até quando vou escrever em quartos apertados. o quanto nós ainda precisaremos dos quartos apertados ninguém pode dizer. nem nós mesmos. o mundo que você habita agora eu não sei qual é. não sei o tamanho da floresta negra para saber se devo ou não me preocupar com você. não sei se aí existem duendes. na irlanda eu sei que existe, mas não sei se eles algum dia chegaram na alemanha. na época em que as pequenas florestas e os grandes bosques de carvalho eram todos uma coisa só. para eles as rotas eram menos complicadas naquela época. viviam mais próximos. conectados em uma rede que enviava sinais significando árvores. ventos. florações. falavam por uma rede secreta. a linguagem das plantações. você também nota que a nossa voz está mudando? pouco a pouco perco as referências da forma como você falava. às vezes fico pensando que nos conhecemos através das palavras escritas mais do que as palavras ditas. enfim. eu sempre vou para longe quando converso com você. não importa onde você esteja. e esse texto vai ao ar sem ser lido duas vezes. algumas coisas precisam de certeza para acontecer. e coragem para serem admitidas. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Today I was reading the news. It’s a little bit strange when I recognize myself in the pages of the local newspaper. Today I was reading about Barbara Ganley and, somehow, we are some kind of partners in life and the visions that makes it real. Somehow I found a group. The Slow Blogger’s group. And I’ve got less alone without having to be with someone. It’s always good to feel not so alone and, at the same time, not to need to get phisically near to anyone.

Even if feeling alone is a state of mind. Even if loneliness is my mood. My constant mood. I am a man of constant solitude. And I always feel good when I’m alone.

But today it was different. Barbara Ganley was with me. By my side. In the other side of the sea. In the top of the earth. Near to the ice. Near, so far away, like a silent neighboor of my private storms.

I’m so thankfull to all those who can give his own words to my own feelings. That’s the beauty of the non-solitude. That’s when I make sense. When I’m understood through the other’s eyes. And that’s when it’s not just for me. Serendipity. Or. Find your own way to describe the place that you inhabit now. Find your own way to describe no-leaving. No-living. Or heimweg.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Estranha essa sensação de ir, pouco a pouco, me aproximando de você de um jeito que depois vai ser mais difícil de te largar. Hoje, depois da corrida matinal dentro do bosque de eucaliptos, pensei que as drogas são para os adultos. Não sei o que isso quer dizer. Na hora em que eu pensei era apenas uma lição de moral para uma pessoa que era legal e virou careta. Tantas pessoas eram legais e viraram caretas. Provavelmente um dia você foi legal e agora tenha virado careta. Não me refiro sobre as drogas. Me refiro a você. E no seu caso é bem possível que tenha sido o contrario.
Mas essas coisas nada importam. O que importa é que agora toca uma canção linda na sala. E eu sou criança. Tenho doze anos e estou sozinho no meu quarto. Bolando planos para ir embora. Escutando os passos de alguma faxineira. Ou da minha irmã e as suas amigas mais novas do que eu. Eu queria que elas me achassem lindo quando elas passassem por mim dentro da minha casa. mas eu não era. Aquele não era eu. O garoto bonito. Aquele não era eu, o looser deprimido e feio dentro do meu quarto. Algumas garotas me acharam bonitos. E com essas eu tive paixões platônicas. Intensas e profundas. Dessas que, se até hoje ainda ecoam em mim, é provável que ecoarão para sempre. Como as canções quando nos transportam. As canções quando nos transportam é para sempre.
Mas essas coisas não importam. Estou falando merda. Tem uma coisa que eu sempre penso que preciso falar para você. Faz algum tempo que gosto de ouvir vinis. Eles tem uma sonoridade que me remetem à minha casa. À um tempo muito antes de agora. Antes mesmo de eu ter nascido. Um tempo que foi dos meus pais. E que eu só me reconheço, por nunca ter feito parte dele.
Costumo garimpar discos em lojas de usados. Compro muita coisa estranha. Coisas que ouvia quando eu era adolescente. Cantores contemporâneos de alguns ídolos de sempre. A face mais escura do que sobreviveu. Gosto preferencialmente dos lados B desses discos. Gosto de voltar a penas no lado A. Depois beber uma coca-cola ou comer um fandangos, e mergulhar, de barriga cheia e neurônios renovados na obscuridade do lado B. Mergulhar nas lembranças de quando comer não era culpa. De quando perder tempo ouvindo um disco inteiro não era perder tempo. Era mergulhar sem pensar na sonoridade que vinha de dentro das faixas escuras. A agulhava deslizava a tarde sem tocar nos ponteiros do relógio.
Voltamos devagar para lugares de onde nunca devíamos ter partido. E isso me conforta. Viva a incerteza. A ultima que restou.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008



















































































(todos por 25 pilas)





os vinis chiam a tarde. uma idéia brilhante nasceu. mariana, você me ajuda nessa?
chove, vou sair para comprar vinis antigos.

terça-feira, 18 de novembro de 2008


no espaço unibanco, enquanto espero no café do saguão devorando as primeiras páginas de um livro recém-lançado.

entro no livro, e ao sair pela primeira vez, noto a presença de algumas mães com os seus bebês. bonitos. limpos. um mundo inteiro pela frente. as mães, estranhamente, pouco sorriem. depois percebo, descendo as escadarias, dezenas de mães com seus bebês no colo. todas sérias. um clima de apreensão. alguns casais com filhos aproximam-se do café. as crianças estão calmas. nenhuma chora. nenhuma ri. as mães parecem afastadas do mundo. grupos não se formam. distantes todas de si mesmas. vazias. talvez pela primeira vez.

mais uma sessão materna terminava. perguntei-me qual filme elas teriam assistido. 

ao chegar no guichê leio em um pequeno cartaz que o filme da sessão materna era "Vicky Cristina Barcelona". um filme que talvez devesse ser proibido para mães recém nascidas. um filme, talvez, sério demais para quem acredita em filhos. em fraldas. para quem vive um futuro. um filme perigoso demais para os que acreditam na beleza cor-de-rosa das sessões maternas do espaço unibanco.

se, nessa noite, alguma criança chorar de fome ou dormir sem a dose exata de carinho, a culpa terá sido toda do unibanco. do woody allen. e delas mesmas. por terem nascido.





ps - e eu acho que estou gostando de uma garota. você sabe que é de você mesma que estou falando. e isso é sério. e eu teria um filho com você. mesmo depois do filme.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

marry christmas if you dare














São Paulo. Algumas pessoas vão embora. Outras ficam. E é para sempre, embora a gente pense que não. Chove na rua e aqui dentro faz um calor. Os amigos quando dançam na sala e os planos que nunca seremos. O mundo não existe amanhã. Chove do outro lado da janela. O mundo dorme quando nós não.

Tentamos o contato com qualquer coisa que não nós.

Na pista eu arranquei a camiseta. E só você não estava lá. E eu queria viver em tempo não esse.  Qualquer duas décadas antes de agora me faria feliz. O mundo ainda é uma criança e vivemos todos uma pré-adolescencia coletiva. Nos agarramos ao que não existe. Nos exilamos no que não foi proibido. E sofremos tão mais do que precisamos.

Vivemos o momento final antes da primeira morte, e não sabemos que há tanto a fazer depois. Quando você me ensinou a psicografia há tanto tempo atrás, eu não pude entender. Você foi ele através dela e eu não pude entender.

Agora é o ultimo verão antes do fim. Feliz Natal IF you dare.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

La Boca

Naquele ano estranho de 1979 ela devia ter dezoito anos. Hoje eu sei quase tudo sobre mim através das fotografias que tiramos juntos. Ou que tiraram de nós. Nossos rostos do lado de dentro da fina película plástica dos álbuns escondidos dentro do armário da sala. A sala escondendo um cheiro antigo dentro de cada gaveta. “É sempre preciso muito mais cuidado ao voltar para casa”, alguém deveria ter me dito antes de partir. É o que, agora, eu digo para você. Mesmo sabendo que agora nada ainda será entendido. Você ainda é pequenino demais para entendimentos de ordem tão simples. Será preciso que os anos acumulem sobre os seus dias. Será preciso que as estradas façam parte do repertório de imagens do seu passado. Escrevo esta carta como o desejo mais profundo de que você viaje. Que você parta sempre. Que sempre uma paisagem mas distante te chame para ir. Que você crie mistérios para depois desvendá-los. Que platonize paixões para sempre ter o que destruir. Escrevo para que você nunca fuja de si mesmo. As estradas nunca serão perigosas, se o caminho de volta continuar a menor distância entre você e quem você é. Quem você será, de quem você foi. 




Caminho pelos corredores sujos da rodoviária de Lajeado. Preciso partir. Os exames de saúde são exemplos de uma conduta correta. Caminho sozinho. Observo rostos conhecidos. Agricultores voltando para casa. Agricultores chegando na cidade. Eles carregam um cheiro estranho. Um cheiro de vaca. Um cheiro de tudo o que fui. Todos os agricultores são os meus avós. São as galinhas mortas no quintal da nossa casa no meio de uma quarta-feira qualquer. O último grito. Os últimos passos sem cabeça. A panela de água fervendo. As penas brancas submergindo. Depois os nossos dedos arrancando todas as penas. O cheiro de pena fervida. A pequena montanha branca de penas molhadas sobre nossos pés. As últimas penas queimadas sobre a fogueira e o cheiro de penas molhadas, fervidas e queimadas se misturando em pequenos redemoinhos que penetravam pelos meus ouvidos e percorriam a infinita distancia entre o que um dia eu cheirei e o que nunca mais sairia de mim. Eu ainda não havia aprendido a ter cuidado com os cheiros. A não deixar que eles entrassem sem critério. O cheiro das galinhas mortas. O galinheiro vazio. Os ovos dentro delas. Pequenos abortos de filhotes que nunca nasceram. Minha mãe gostava desses dias. Eu lembro dela. Eu lembro de mim. Os cheiros que entraram e que nunca mais sairão. É preciso cuidado. É preciso não deixar que eles entrem para nunca mais sair. É preciso critério para formar o repertório que nos fará memória. Existem partes dessa carta que você deveria compreender antes de ler. Aprenda a entender cada cheiro. Entenda o que cada cheiro desperta em você. Lição numero um para não sofrer de memórias. De nostalgias dolorosas. De galinhas mortas e de lágrimas sobre o quintal.
Escolhi a empresa de ônibus pelo atendente do outro lado do balcão. Não que ele fosse especial. Ele era apenas o único atendente atrás de um dos três balcões das três companhias que possuíam linhas para Montevidéo. Ele atendia duas garotas. Elas não tinham dinheiro para as passagens até o Uruguai e tentavam convencer o atendente a trocar uma passagem por um celular. A garota sem celular cogitava continuar na cidade e trabalhar mais um mês para comprar um celular, trocar por uma passagem e depois encontrar com a amiga no país vizinho. Talvez elas fossem personagens muito mais interessantes do que eu. Quase todos os personagens são mais interessantes do que eu mesmo, dentro das minhas histórias. Não. Isso é mentira. E eu não vou mentir para você. A garota de cabelos encaracolados e escuros olhou para mim e sorriu. Perguntou-me se eu precisava de uma companheira de viagem. Eu sempre acho estranho quando estranhos conversam comigo. A última coisa que eu preciso é de uma companheira para as minhas viagens. É sempre um pouco perturbador quando um personagem deixa de ser um figurante na minha história para tentar roubar a cena e protagonizar a minha vida. Eu não deixo. 
Sorri por educação e olhei para o balcão esperando encontrar ali algum calendário, alguma grade de horários. “Um dia estive aqui”, estava escrito sobre a madeira escura. 
A garota ainda sorria para mim e a outra, a loira, conversava com a mãe no celular da amiga. O atendente examinava o aparelho e eu observava a aliança no seu dedo do meio. A garota perguntou se ele era casado e ele perguntou se o celular tinha câmera e rádio. Eu perguntei quanto custava o trecho entre Lajeado e Montevidéo. Mas ninguém me escutou. Depois de um tempo ele olhou para mim e disse que havia um ônibus partindo ainda naquela mesma madrugada. Era um ônibus leito a preço de ônibus comum e eu sempre prefiro as decisões tomadas sem tempo para pensar. O tempo nunca age certo sobre o pensar. O tempo de pensar é o tempo da não ação. Na dúvida, vá. Na dúvida, salte. No aperto, relaxe. Perguntei o preço e ele aceitaria sim o meu cartão de crédito. Era a primeira vez que eu usava o meu cartão de crédito para pagar alguma coisa realmente importante na minha vida. Eu tinha trinta anos e aquela era a primeira viagem que eu faria sem que ninguém me desse dinheiro para isso. Eu tinha quase trinta anos e aquela era a primeira viagem que eu fazia sem ninguém para saber. Sem que ninguém pudesse agir sobre o meu percurso. Era a minha primeira viagem sozinho para fora do país. Mesmo que esse país estrangeiro estivesse a poucos quilômetros do meu. Mesmo que esse estranho país falasse uma língua tão perto da minha. Partir era mais importante do que as palavras. Do que qualquer distancia. 
“Posso ir te chupando daqui até Montevidéo se você pagar a minha passagem”, a garota loira falou olhando para mim. O atendente riu. Eu senti um calor no rosto e suei. Ordenei ao atendendente que debitasse duas passagens no meu cartão e comprei dois bilhetes de ida. Um para mim. E outro para ela. A boca.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

it's all about us
















É um pouco complicado escrever durante as temporadas longe de mim. Existem fases em que não me encontro. Por mais que me procure, não sei onde estou. Quando acordo ainda sinto a mesma fome, mas, aos poucos, vou entendo que, hoje, ela não será saciada.

Às vezes basta uma palavra dita da forma certa, mas na hora errada, para o mundo perder a graça. As palavras são fortes demais para mim e eu me sinto mais verdadeiro quando escrevo. Quando falo quase sempre saem mentiras de dentro de mim e eu não me reconheço nos diálogos que tento reconstruir quando a solidão volta. É sempre mais fácil quando sozinho. Sempre foi assim.

Hoje encontrei um texto que traduzi em 2006. Li as primeiras páginas e tudo continuava lá. As palavras ainda fortes. As intenções ainda verdadeiras. E, à medida que lia as falas daqueles personagens, uma vontade de voltar ao teatro foi tomando conta de mim. Antes que a vontade ficasse forte demais, fechei o documento e deitei no chão da sala. Enquanto o vinil do Led arranhava as paredes da casa e o sol atravessava os galhos do abacateiro até mim, eu criei um elenco dos sonhos. E eu escalei um time que faria a peça mais linda do mundo. Quando a música terminou eu tentei saber o nome daqueles atores, mas eles não existem.

Depois mijei. E depois de mijar fiquei olhando no espelho e pensando nos artistas que hoje me tocam. Pensei na Tuane e nas suas fotografias e no seu sorriso carregado de lágrimas que o seu olhar crava quando olha dentro do meu. Pensei nas músicas do senhor Johann. Pensei nas frases interminadas da Francieli. E fiquei feliz. Quando penso que os meus companheiros lá de Lajeado são os artistas mais interessantes que eu conheço hoje, nada fica complicado. Quando sei que, mesmo longe, na época das festas estaremos todos juntos, mesmo sem nunca estar, o dia encontra algum sentido. E eu sei que, se algum dia nos encontrarmos todos juntos, o mundo deixará de ser. Porque nós só conseguimos habitar plenamente os territórios imaginados. Porque nós somos feitos de uma matéria que não existe. Ou que ainda não existiu até aqui. Nossa arte é feita de vento e de tudo o que ele esconde. De tudo o que ele faz sentir quando varre nossos cabelos e arranca lágrimas dos nossos olhos. Nossas frases são imperfeitas, e nem por isso estamos tristes. Nossos raciocínios são complicados demais para os que não encontraram a simplicidade cortante de uma tarde inteira a suportar.

Os que sabem a dor do antes dormir. Do quase não dormir. Do nunca mais descansar.

Mr Johann toca agora "there's so much life besides". Ele está certo. Ele sabe que ela ficará lá, para sempre. Ele sabe que ela nunca será tocada por nenhum de nós. Somos feitos da vida antes que ela aconteça. Francieli atualiza seu blogue com fúria. Tuane despeja as fotografias mais belas do mundo de agora em seu flickr de ontem. E tudo está bem assim. Somos quatro dimensões de um mesmo segredo. E somos um só corpo condenado a nunca se encontrar.


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