
terça-feira, 31 de março de 2009

segunda-feira, 30 de março de 2009
... amigos imaginários cansados de ler...

Os dias continuam de sol e calor aqui do lado de baixo do mundo. As pessoas continuam falando essa língua estranha e meus ouvidos doem um pouco mais a cada silaba que não consigo pronunciar. A cada olhar que não consigo entender. O mundo está um pouco fora de foco do lado de baixo do mundo. O café não adiantou. Nem a pequena caminhada em volta do quarteirão. Nem as folhas dos plátanos que começam a cobrir as calçadas. Hoje é uma segunda-feira e faz uma semana que estou aqui. Ontem meus pais foram embora e eu fiquei. Quando eles desapareceram caminhando abraçados na avenida Santa Fé o meu peito apertou. Antes de dobrar a esquina olhei para trás e eles estavam também paradas, me olhando e sorrindo. E me vendo desaparecer no meio dos argentinos loucos do fim do domingo.
Eu deveria estar no cinema, vendo algum filme independente dos tantos que estão em cartaz aqui. Eu deveria estar trabalhando em algum projeto com inicio, meio e fim. Eu devia estar feliz por não precisar fazer nada do que a maioria das pessoas precisam fazer para ficarem felizes. Talvez eu devesse ter comprado um vinho no armazém do chinês. Mas eu comprei granola, iogurte natural, bolachas de arroz e maçãs verdes. Daqui a pouco vou correr debaixo do sol. O complicado é quando a gente procura a felicidade da forma mais obvia. O problema é quando a gente procura a felicidade. Ou quando a gente acredita nela. Pelo menos toca Radiohead. Um show que estava aqui. E que eu não vi. Depois de Bob Dylan quase nada mais vale a pena.
Os cachorros aqui andam sem coleira. As pessoas olham pouco para o chão e os homens falam alto. Todos comem comidas gordurosas e eu agora como macarrão todos os dias. Todos os dias bebo uma coca-cola enquanto espero o prato chegar no buteco da esquina. Sempre sento na mesma mesa e sempre sou atendido pelo mesmo garçom. Todos os dias eu deixo dois pesos sobre a mesa e ele me agradece com mais intensidade do que o necessário. Show me the Money. Show me Love. Show me anything que eu nunca tenha visto antes. Talvez faça algum sentido ficar sentado do outro lado da vitrine olhando para as pessoas andando na calçada. Vendo as grávidas acreditando no futuro. Vendo as mães sorrindo otimismo aos recém-nascidos. Vendo os velhos aproveitando cada dia como se fosse o ultimo. As moças saindo da escola sem saber que tudo vai ficar para trás. Que os estojos serão esquecidos. As palavras escritas desaparecerão antes que o ano termine. O menino mais bonito da sala também será o primeiro a ter um filho. Todas engordarão. E quase ninguém mais se reconhecerá do outro lado do espelho quando o colegial for apenas uma fotografia perdida em algum email há muito tempo não aberto.
sexta-feira, 27 de março de 2009
Anoitece. Os plátanos da cidade perdem as primeiras folhas do ano. Existem muitos plátanos na rua onde estou. É tão bonito. Tão mais bonito do que onde você está agora. No rádio toca alto uma canção antiga e a brisa que vem do rio da prata não tem nenhum cheiro de mar. O sol cai atrás do edifícios da cidade mais bonita de todas as Américas. E eu poderia pensar que valeria a pena chegar aqui. Nem que fosse apenas para escutar uma língua que não é a minha. Abri uma garrafa de vinho. Os momentos sempre podem ser um pouco melhor aproveitados. As musicas, quando não dançadas, adquirem uma aura de mistério quase igual as bocas quando nunca beijadas. Gosto de não ir nunca até o fim. Gosto de não conhecer onde termina o limite e começa o conhecido. Eu deveria estar correndo agora. Mas entre vestir o calção e sacar a rolha, preferi ficar um pouco bêbado. Eu quase sempre prefiro a felicidade a curto prazo.
A vida tem menos poesia perto dos próprios pais. Eles estão aqui. Vieram passar alguns dias comigo. Vieram querer entender o que me faz amar qualquer lugar longe deles. Não sei se eles entenderam. O que fizemos até agora foi caminhar pelas ruas comprando roupas baratas e depois sentar em algum bar e beber toda a Quilmes possível. Acabei de deixá-los em um cassino. Mais tarde vamos sair para dançar tango. Quando minha mãe saiu do taxi ela tropeçou e depois pediu que eu levasse as suas sacolas para o meu apartamento. Comprei um vestido bonito para quando você aprender a caminhar. Um daqueles vestidos que se parecem tanto com os vestidos que as crianças das fotografias antigas usavam. Um vestido preto com flores brancas pequeninas e uma fita de veludo negro. Acho que os seus olhos, em contraste com o vestido, ficarão ainda mais azuis. E a sua pele ficará ainda mais branca. Você é a menina mais bonita que eu conheço e o seu nome é Sara sem “H” no final e a sua mãe é a garota que mais se parece comigo. Mas vamos parando por aqui, antes que eu comece a fazer declarações de amor se vergonha de mim mesmo. Dá sempre um pouco de vergonha essas coisas. Principalmente depois que os efeitos passam e a realidade volta. A realidade sempre volta. Só depois de morto que não mais. Deve ser bom nunca mais precisar ser real. Deve ser bonito ir embora para nunca mais voltar. Para quem nunca quis estar aqui, a ausência é a forma mais profunda de sempre estar.
Eu tenho um monte de emails para responder, mas diante da ausência de tempo, tento resolver tudo aqui. Essa resposta é para você, que não me manda poesia e me cobra realidade. Olha garota. Quando você pensa em vir eu não vou mais estar aqui. Mas também ainda não estarei aí. Acho que não vai valer a pena você vir para cá sem mim. sinto tanto a sua falta, mas é melhor não pensar nela agora. quando vamos viajar só nós dois? Sem ninguém que nos segure? Sem ninguém que nos acorde antes mesmo de termos ido dormir? Eu não entendo como você agüenta a vida, e por isso eu tento agüentar a minha também. Por que, se você agüenta, eu também preciso agüentar. Comprei uma camiseta com listras vermelhas para usarmos na nossa viagem pela Califórnia. Talvez o ano que vem não chegue nunca, mas a roupa já foi comprada. Não venha sem mim. Faça uma loucura. Pegue um avião sozinha e me encontre no rio grande do sul e vamos passar a páscoa sem ninguém??? Sem ninguém mais??? Eu acho que se você ler esse texto aqui, você vai entender. Não vou responder seu email. Se você ler isso aqui você promete comprar na hora uma passagem para o sul do Brasil??? Promete??? Promete??? Promete??? Escreva cem vezes “vai ser verdade” que depois ninguém poderá tirar da sua cabeça aquilo que você mesma inventou.
Minha mãe ligou do cassino dizendo que não tem dinheiro nem para o taxi. É assim que as coisas são. Sempre vai haver uma hora em que nada mais poderá ser dito. As fichas sempre podem cair nos números errados. Mas ela gargalhou do outro lado da linha, e por mais que as fichas caiam nas casas erradas, basta sorrir e encontrar alegria e entender que nada vale mais do que ter para quem ligar quando a grana chegar ao fim.
Combinamos de beber uma Quilmes gelada na esquina para comemorar a falta de sorte do mundo.
Eu jamais colocaria um bebedouro para beija-flores. Nem uma casinha para alimentar passarinhos. Nem jogo pão seco no laguinho do parque. Não dou comida aos pombos. Nem dinheiro para os mendigos. Quero passar pelo mundo sendo minimamente responsável por nada do que acontece dentro dele. Me deixe quietinho que eu prometo fazer de conta que eu não existo.
E por hoje já chega de exposição. Take advantage of the season.
terça-feira, 24 de março de 2009
Não. Eu não me sinto bem. Estou nessa cidade onde não posso andar de chinelos nas ruas pq meus pés ficam sujos demais. Estou nessa cidade onde me olham um pouco torto pq está tão na cara que eu não sou um deles. Toca Radiohead bem alto na sala desse apartamento bonito que eu não sei de quem é. A pessoa que mora aqui deve gostar de cores e tem bom gosto para móveis e decoração. Nunca aluguei um apartamento por temporada tão bonito quanto esse. Nem tão silencioso. Nem tão limpo, nesse país onde os pés ficam sujos se usar chinelos nas ruas. Mas aqui tem muitas arvores. E aqui tem prédios antigos e tem pessoas que criam vira-latas como se eles fossem cães de raça. E hoje aqui vai ter show do Radiohead e eu não comprei ingresso e os ingressos estão todos esgotados. E eu queria ver, mas talvez não tanto assim. Descobrimos que nada é imperdível, que tudo tem a hora certa para acontecer e que o que vale a pena flui naturalmente. Como a diarréia que me pegou aqui. Sinto na privada o real significado da palavra fluir.
Quando a barriga dá uma trégua, saio para caminhar pelas ruas. Procuro qualquer coisa que me faça sentir um pouco útil nessa terra um pouco longe de onde você está agora. Leio um livro em francês e almoço em restaurante orgânico. Faço posturas de yoga a cada meia-hora e meus braços estão fortes. Ouço musicas bonitas. Como essas, do Radiohead. Se você voltar a tempo, talvez devêssemos pegar um ônibus. Não estamos assim tão perto do local do show, mas locais de show nunca são perto de ninguém que a gente conheça. Podemos pegar um ônibus e sentir a vibração de todas as pessoas que acreditam que uma banda ainda pode mudar o significado de uma existência. Se alguém nos oferecer ingressos e se tivermos dinheiro para pagar, podemos comprar. Podemos também comprar uma quilmes e ficar no fundo da platéia vendo trinta mil pessoas encontrando um significado para a própria existência. Todas ao mesmo tempo. Dizem que as luzes desse show são muito bonitas. Eu gosto de luzes e você também. É provável que eu chore no meio de alguma canção e pensei em te dar um abraço, mas eu acho que isso eu não vou fazer. Talvez você também chore quando cantarem uma musica mais simples. Você gosta das coisas simples. Deve ser por isso que você não gosta de mim.
Passo a tarde nesse apartamento. Já dormi. No meu estomago não tem mais nada. Se você não chegar em meia hora vou colocar um par de tênis e ir correr nos bosques de Palermo ouvindo Radiohead no headphone.
I’m not a looser babe. I’m not a looser. Mas nem tudo vale a pena qualquer sacrifício.
Desenterrei um texto antigo arquivado em um email. Um texto de 2007. A idéia para um livro. Foi assim que passei também uma parte da tarde. Brincando nesse arquivo e imaginando alguém que gostaria de escutar aquela história. Troquei frases. Cortei frases. Depois fiquei com sono e deitei na cama. E fiquei pensando se avançar tres paginas por dia em uma história não é pouco demais.
No meio do sono eu sonhei e eu acordei e pela janela de vidro bem grande vi que o céu está bonito aqui. E tive uma boa idéia para a história. Depois dormi de novo e agora eu não lembro mais. Talvez ir ao show seja um bom motivo para penetrar de novo na atmosfera do sonho. É isso o que falam sobre as performances do Radiohead. Talvez lá eu encontre qualquer coisa que eu possa materializar e encontrar alguma utilidade pratica para o que não devia ter sentido algum. Pode ser que isso seja envelhecer. Perder as expectativas junto com os cabelos. E tentar encontrar uma explicação para tudo o que não devia querer se explicar. Ultimamente tenho acreditado que as rugas trazem justificativas. Estou cheio delas.
sexta-feira, 13 de março de 2009

Termina uma sexta-feira de chuva aqui em São Paulo. Na vitrola toca daydream nation, do sonic youth. Fico olhando para a agulha arrancando poeira das faixas. Um pequeno travesseiro que conforta o peso das guitarras. Existem bandas que precisam soar anacrônicas. Não importa quando elas tenham nascido.
A janela está fechada para não molhar o tapete. O tapete é de pele branco que eu gosto muito pois ele era da minha mãe. O sonho da minha mãe sempre foi ter um tapete de pele branco, dos bem peludos. Desde que eu era criança ela falava em comprar um desses.
Um dia, quando eu já não morava mais lá, ela me ligou para dizer que tinha conseguido o tapete. Ela estava feliz. Naquela época ela ainda tinha tendência à felicidade.
Fui visitar minha mãe nos primeiros meses do tapete. O quadrado na sala passou a ser uma espécie de tableau sagrado. ninguém podia pisar sobre ele sem os olhares ressabiados de minha mãe. O tapete permaneceu sagrado por poucos meses, por quê na visita seguinte, notei que o tapete era diariamente cagado pela Brenda, a poodle preta. No inicio ela deve ter apanhado, mas depois parou de apanhar, mas não parou de sujar o tapete. Com o aval da Brenda, o quadrado sagrado se profanou e toda a família pode habitar a casa sem restrição de espaço.
Um tempo depois minha mãe cansou de ter que limpar o tapete todas as manhãs e o guardou no porão. Bem protegido. Todo ensacado para não pegar poeira.
Quando a filha da minha mãe casou, ela foi morar em um apartamento com piso frio. E a filha da minha mãe gosta de tocar guitarra e jogar vídeo-game então ela pediu o tapete emprestado. Minha mãe emprestou o tapete passou a ser bastante usado. Ficávamos até de madrugada jogando vídeo-game, nós dois, enquanto o marido dela dormia. Ou tocando violão e cantando músicas da Hole. Minha irmã gostava de Hole naquela época. E eu sempre dormia lá. Teve um fim de tarde de verão que eu até transei no tapete de pele. Eu lembro que no meio da trepada me veio a imagem dos cocozinhos da Brenda ali do meu lado e eu tive que me reconcentrar no que estava fazendo. a pele suada encostando nos pelos brancos que minha mãe adorava dava uma sensação de desconforto.
Depois a filha da minha mãe cansou do tapete pq ela mudou para uma casa onde tinha muito pó. Como a casa era pequena, ela o levou de volta para o porão da minha mãe.
Um dia eu estava indo acampar. Fui procurar a churrasqueira portátil no porão e reencontrei o tapete. Sem ninguém ver, coloquei-o no porta malas e o levei ao acampamento.
Era inverno, uma das noites mais frios do ano, e acampar consistia em invadir um camping privado e passar a noite em alguma cabana arrombada. Mas naquela noite havia um casal em uma das cabanas e achamos melhor não arrombar nenhuma. Ficamos embaixo dos plátanos dentro do carro conversando e ouvindo música. Quando lembrei que tinha o tapete, improvisamos uma fogueira com as folhas secas das árvores e ficamos os tres sentados em cima das peles quentes sentido o calor do fogo. O Adair até tocou violão. As minhas mãos congelavam, mas como ele era colono, aqueles dedos grossos não sentiam nenhum frio e ele arranhava as cordas sem rachar a ponta dos dedos. e ele cantava com bastante ar gelado e não tinha vontade de tossir e nem ficaria doente no outro dia.
Depois daquela noite eu nunca mais tirei o tapete do porta-malas do carro do meu pai. Na primeira vez que minha mãe foi no mercado e viu o tapete lá dentro na hora de guardar as compras, ela estranhou. Depois foi se acostumando.
Eu, em todas as noites que saía sozinho para olhar para as estrelas no meio da estrada do ceva 20 ou quando passeava perto da cascalheira do passo do corvo, sempre tirava o tapete e ficava deitado em cima dele no meio da estrada de terra. Uma noite eu dormi. Só acordei no outro dia com um quero-quero bicando o meu rosto. Nenhum carro havia passado.
Foi a primeira vez que tive certeza de estar morto.
terça-feira, 10 de março de 2009
A maioria dos meus CDs eu só guardo o encarte. Não guardo a caixa. Eu parei de guardar a caixa por falta de espaço. Bem simples e bem pratico. Na falta de espaço, quebre caixas de CDs e jogue as fora. guarde o encarte como envelope e coloque tudo dentro de uma caixa de sapatos. Mas caixas de sapatos são objetos antigos e quão longe você pode ir sempre que pensa em uma caixa de sapatos. Você consegue lembrar de todas as utilidades que já deu para uma caixa de sapatos? Se as caixas de sapatos fossem verdade, viveríamos descalços. Às vezes eu me lembro de você quando escrevo simplesmente para dar alguma utilidade aos meus dedos. Tenho tiques. Se não estou teclando eu enlouqueço. E é sempre um pouco perigoso.
As vezes eu penso que se eu tiver alguma literatura para me definir, ela terá se diluído na caixa postal dos meus inimigos. Como rechear de palavras doces um email de adeus. Como enfeitar de exclamações uma mensagem de amor. Dotar de letras minúsculas uma intimidade que é nossa.
segunda-feira, 2 de março de 2009

Quando você me viu dançando daquele jeito eu penso que foi só você que viu. E às vezes eu tenho certeza de que as coisas que você vê não são reais. Mas eu fiquei feliz por você ter me visto de um jeito muito mais bonito do que eu sou. Agora anoitece e é uma segunda-feira e segundas-feiras não deveriam acontecer. então eu olho para fora da janela e fumo um cigarro observando os vizinhos. As suas reuniões sem fim. E observo um pouco para dentro de mim mesmo. Para o mundo das pessoas que me vêem. Você pensa na forma como te enxergam quantas vezes por dia? É normal pensar tanto assim? Talvez seja uma segunda-feira e os cigarros tenham todos perdido o efeito.
Agora começa a tocar uma canção do The Mamas and the papas e eu sempre gostei tanto deles. Minha tia me deu um cd deles e aquele foi o meu primeiro cd. Eu tinha cd antes de ter o tocador de cd. Eu tinha DVD antes de ter o tocador de DVD. E eu comecei a colecionar vinis muito antes de encontrar a vitrola perfeita. Temos muito mais em comum do que os outros podem imaginar. Ou. Temos coisas em comum que ninguém jamais terá. CDs sem onde tocar. DVDs sem onde assistir. Algumas pessoas possuem os pré-requisitos básicos para um interesse existir. Nascemos no mesmo ano e somos testemunhas de um tempo comum que ninguém jamais terá. Todo o ano que faço aniversario eu penso há quantos anos eu te conheço. E sempre parece um pouco mais do que é de verdade. O mundo de fora olha para dentro de mim. mas eu não gosto de olhar dentro dele.
Dizem que os nossos maiores medos nunca vão chegar. Talvez seja por isso que eu guarde-os tão bem e mantenha o hábito diário de cultivá-los. Ele disse que eu nunca vou morrer do coração. Se esse é o meu maior medo, ele nunca acontecerá. Pensei se o mesmo vale para os nossos sonhos, mas achei melhor não perguntar. Você assistiu Pul Fiction? Eu assisti em lajeado no cinema do unishopping. Faz trezes anos eu acho. Talvez Pulp Fiction hoje seja um clássico para os mais novos do que nós. É estranho ver o que nasceu com a gente ir virando um clássico. Parece que não temos mais nada há fazer. Ficamos para trás. As novidades sempre serão menos interessantes para os que viram tudo.
Tem dias em que eu queria ser virgem dos olhos. E dos ouvidos. Talvez o mundo chegasse com mais vontade dentro de mim.
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O rio descia na nossa frente e ele estava pesado. Corria na direção da cidade e, antes da curva, ele não brilhava. As nuvens estavam baixas e, muito antes do que pudéssemos prever, os dois, água e céu, viravam uma coisa só. Os pinheiros não balançavam pois não havia vento. O meu pé empurrava o seu para cima e o meu seu pé empurrava o meu para baixo. Nossos tênis esfregavam um no outro o barro da estrada de terra. De vez em quando você parava. E era sempre eu quem tinha que recomeçar. Pensava em muitas coisas para te dizer, ensaiava respostas para perguntas que você não fazia e, quando voltava para casa, a certeza que eu levava para o quarto era que cada dia era um dia a menos. Olhava para as paredes pensando no dia em que eu não estaria mais lá. ouvia o barulho da televisão e sabia do tempo em que eu sentiria saudade daquele instante. Era um pouco estranha a sensação de estar auto-exilado dentro da própria casa. o cheiro do cigarro dos meus pais avançava pela pequena janela que dividia o meu quarto da cozinha, onde eles passavam a noite vendo televisão deitados no sofá de veludo marrom. Fumando debaixo de algum cobertor ao lado do fogão à lenha. Entre julho e setembro eles comiam pinhão. A pia da cozinha afogada em cinzas de cigarro e casca de pinhão no outro dia de manhã, quando eu acordava sozinho para ir à escola. Enquanto calçava o tênis para sair, o radio-relogio ao lado da cama deles despertando no ultimo volume não era o bastante para tirá-los da cama. Quando abria a porta o ar gelado era limpo. Não tinha cheiro de cigarro. As ruas não tinham cascas de pinhão entupindo os bueiros e o mundo fora de casa era um lugar melhor para se estar. Do outro lado do jardim de ervas daninhas, a calçada quebrada por raízes de arvores antigas estragava a paisagem perfeita e cimétrica todas as calçadas que não eram a nossa. Os jardins com pequenos arbustos e grama curta eram acessos para mundos que eu não conhecia. Que talvez fossem melhores do que o meu, mas que eu não queria experimentar. A solidão da calçada desenhava meus passos o caminho mais distante entre as duas portas: a da escola e a da minha casa. Atalhava procurando uma distancia cada vez maior entre as duas portas. Respirando sempre por mais tempo o ar não contaminado dos espaços fechados. Como um mergulhador medindo o tempo eu retinha nos pulmões fechados um ar limpo pelo maior tempo suportável. Antevendo o que viria, fazia da rua a minha casa. fazia do não pertencer o meu bem-estar. e preparava minha família para a despedida que, muito antes do que eles podiam imaginar, viria a acontecer. Entre ser o filho perfeito e ser o filho da vergonha, o melhor era causar vergonha. A despedida seria menos dolorosa. A falta seria menos sentida. Tentava controlar o que despertava nos outros para não ter deles amor demais. Amor demais significava sofrer na hora de ir embora. O amor demais que eu não queria sentir não me deixaria partir. Era um canto da sereia me levando para baixo. Para a morte. Para o não mais eu. E eu não amei o quanto eu deveria, eu não podia. E eu não deixei que eles amassem o quanto eu precisava, eles não podiam. Quando chovia era ruim não poder sair. Nos dias frios era ruim não poder sair. E quando eu passava tempo demais dentro de casa o medo de morrer crescia. E a morte nascia de dentro dos instantes mais imprecisos. Minha mãe servindo um prato de arroz sobre a toalha xadrez. O prato marrom transparente cheio de riscos opacos. Minha irmã conversando com meu pai. Ele prestando atenção nas noticias da televisão. O volume cada dia mais alto. Eu não estava lá. E, antes de sentir raiva eu sempre sentia saudade. E observava o curso da minha casa como um viajante que sabe que não está mais lá. mesmo dentro dela, eu observava a minha casa de fora. Sentindo uma ponta de nostalgia em cada gesto que deixava de ser. Capturava o ultimo instante antes do sorriso da minha mãe deixar de ser real. Gravava na retina os dedos da minha irmã arrumando os cabelos e dedos do meu pai acendendo mais um cigarro. E existir era uma sucessão de retratos que eu sabia que nunca mais iria esquecer. Você empurrando o meu pé para baixo. Eu empurrando o seu pé para cima. O barro da estrada de terra. Os passarinhos silenciosos no meio da tarde de inverno. Os pinheiros pingando neblina. E nós. E nossos pés.
sábado, 24 de janeiro de 2009
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Gosto de exercitar a escrita sem edição. A escrita como uma palavra falada. A frase dentro da frase. Gosto da escrita como uma sucessão de idéias que partem de algum lugar de onde não lembramos e seguem por um rumo cujo final sempre desconheceremos. Aqui é noite agora e agora eu escuto rádio. Uma rádio daqui dessa cidade. uma rádio que toca musicas que gosto. Acabou de tocar “why Don;t you come over here? We have a city to Love” e eu lembrei de um domingos alguns anos antes de agora. De todas as bocas que passaram por mim naquela noite. De todos os olhos que paravam em mim naquela época. Não faz tanto tempo assim. Mas não sei lembrar quanto. Às me deixo pensar no que eu fui antes de agora. isso não é sempre. Só acontece sempre um pouco antes de você partir. Às vezes preciso lembrar para mim mesmo como eu era feliz sozinho. Serve para que eu não sofra demais caso você não volte.
Quando eu comecei a escrever eu escrevia para testemunhar os meus dias. Se escrever é antes por alguém, não para, eu escrevia por mim. rascunhava os meus dias e os meus dias eram do interesse de ninguém mais que não eu. Por isso as mortes. O medo de ser descoberto. A vontade e o não querer ter um dias as palavras roubadas. A vontade e o não querer ser alguma coisa maior do que eu era. A vontade e o não querer sobre tudo o que era incerto.
Numa noite de inverno eu estava sentado em uma festa. A festa estava cheia, mas eu estava sozinho. Eu estava sozinho sentado em um banco encostado contra a parede. A parede era suja, mas talvez eu fosse novo demais para perceber. As coisas feias da vida vão ficando mais feias conforme envelhecemos. Talvez envelhecer seja ver o lado feio de tudo. Quase sempre acredito que eu nasci velho. E rejuvenesço quando, antes de dormir, constato que o saldo do meu olhar foi menos belezas do que feiúras. E a sua beleza cresce debaixo dos lençóis do outro lado da cama. Tão longe de mim.
Quando nos conhecemos falamos horas a fio sobre os mesmos filmes. alguns olhos certamente passearam por nós, mas não notamos. Perdidos nos olhos um do outro, talvez fôssemos novos demais para entender que nada dura para sempre. E que as verdades sobre a vida nunca eram menos óbvias do que aparentavam. Você me queria e eu também. Mas não. Na primeira noite nunca.
Agora você foi dormir. Antes de deitar passou no meu escritório e perguntou se eu tinha sono. respondi que não. Você perguntou o que eu estava escrevendo a essa hora da noite. Respondi que era uma nova idéia. Que estava sem sono. você pediu que eu baixasse o som ou que fechasse a porta. Baixei o som, pedi que me beijasse, você me beijou, depois eu fechei a porta enquanto as suas costas desapareciam no escuro da nossa cozinha.
Hoje temos nossa cozinha. Nossas louças sujas. Nos queremos. Nos desejamos. Mas às vezes fingimos que não. Hoje eu te amo. Segunda você vai embora. E é sempre preciso lembrar da vida antes de você. Antes de você partir e nunca mais voltar.
Você ainda não sabe, mas um dia vai saber. Sempre haverá um cara melhor do que eu. Talvez você já saiba, mas não quer admitir. As separações são longas e dolorosas. Você também. Cicatrizávamos quando nos encontramos. Talvez agora você durma. Talvez pense em um outro melhor do que eu. Todos os outros são melhores do que eu. O radio toca um r’n’b. Um negro grita baixinho no fundo da noite. E sempre, antes de dormir, eu me pergunto como foi que eu vim parar aqui. E sempre durmo sem saber.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Today I was reading the news. It’s a little bit strange when I recognize myself in the pages of the local newspaper. Today I was reading about Barbara Ganley and, somehow, we are some kind of partners in life and the visions that makes it real. Somehow I found a group. The Slow Blogger’s group. And I’ve got less alone without having to be with someone. It’s always good to feel not so alone and, at the same time, not to need to get phisically near to anyone.
Even if feeling alone is a state of mind. Even if loneliness is my mood. My constant mood. I am a man of constant solitude. And I always feel good when I’m alone.
But today it was different. Barbara Ganley was with me. By my side. In the other side of the sea. In the top of the earth. Near to the ice. Near, so far away, like a silent neighboor of my private storms.
I’m so thankfull to all those who can give his own words to my own feelings. That’s the beauty of the non-solitude. That’s when I make sense. When I’m understood through the other’s eyes. And that’s when it’s not just for me. Serendipity. Or. Find your own way to describe the place that you inhabit now. Find your own way to describe no-leaving. No-living. Or heimweg.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
terça-feira, 18 de novembro de 2008
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
marry christmas if you dare

São Paulo. Algumas pessoas vão embora. Outras ficam. E é para sempre, embora a gente pense que não. Chove na rua e aqui dentro faz um calor. Os amigos quando dançam na sala e os planos que nunca seremos. O mundo não existe amanhã. Chove do outro lado da janela. O mundo dorme quando nós não.
Tentamos o contato com qualquer coisa que não nós.
Na pista eu arranquei a camiseta. E só você não estava lá. E eu queria viver em tempo não esse. Qualquer duas décadas antes de agora me faria feliz. O mundo ainda é uma criança e vivemos todos uma pré-adolescencia coletiva. Nos agarramos ao que não existe. Nos exilamos no que não foi proibido. E sofremos tão mais do que precisamos.
Vivemos o momento final antes da primeira morte, e não sabemos que há tanto a fazer depois. Quando você me ensinou a psicografia há tanto tempo atrás, eu não pude entender. Você foi ele através dela e eu não pude entender.
Agora é o ultimo verão antes do fim. Feliz Natal IF you dare.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
La Boca
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
it's all about us

É um pouco complicado escrever durante as temporadas longe de mim. Existem fases em que não me encontro. Por mais que me procure, não sei onde estou. Quando acordo ainda sinto a mesma fome, mas, aos poucos, vou entendo que, hoje, ela não será saciada.
Às vezes basta uma palavra dita da forma certa, mas na hora errada, para o mundo perder a graça. As palavras são fortes demais para mim e eu me sinto mais verdadeiro quando escrevo. Quando falo quase sempre saem mentiras de dentro de mim e eu não me reconheço nos diálogos que tento reconstruir quando a solidão volta. É sempre mais fácil quando sozinho. Sempre foi assim.
Hoje encontrei um texto que traduzi em 2006. Li as primeiras páginas e tudo continuava lá. As palavras ainda fortes. As intenções ainda verdadeiras. E, à medida que lia as falas daqueles personagens, uma vontade de voltar ao teatro foi tomando conta de mim. Antes que a vontade ficasse forte demais, fechei o documento e deitei no chão da sala. Enquanto o vinil do Led arranhava as paredes da casa e o sol atravessava os galhos do abacateiro até mim, eu criei um elenco dos sonhos. E eu escalei um time que faria a peça mais linda do mundo. Quando a música terminou eu tentei saber o nome daqueles atores, mas eles não existem.
Depois mijei. E depois de mijar fiquei olhando no espelho e pensando nos artistas que hoje me tocam. Pensei na Tuane e nas suas fotografias e no seu sorriso carregado de lágrimas que o seu olhar crava quando olha dentro do meu. Pensei nas músicas do senhor Johann. Pensei nas frases interminadas da Francieli. E fiquei feliz. Quando penso que os meus companheiros lá de Lajeado são os artistas mais interessantes que eu conheço hoje, nada fica complicado. Quando sei que, mesmo longe, na época das festas estaremos todos juntos, mesmo sem nunca estar, o dia encontra algum sentido. E eu sei que, se algum dia nos encontrarmos todos juntos, o mundo deixará de ser. Porque nós só conseguimos habitar plenamente os territórios imaginados. Porque nós somos feitos de uma matéria que não existe. Ou que ainda não existiu até aqui. Nossa arte é feita de vento e de tudo o que ele esconde. De tudo o que ele faz sentir quando varre nossos cabelos e arranca lágrimas dos nossos olhos. Nossas frases são imperfeitas, e nem por isso estamos tristes. Nossos raciocínios são complicados demais para os que não encontraram a simplicidade cortante de uma tarde inteira a suportar.
Os que sabem a dor do antes dormir. Do quase não dormir. Do nunca mais descansar.
Mr Johann toca agora "there's so much life besides". Ele está certo. Ele sabe que ela ficará lá, para sempre. Ele sabe que ela nunca será tocada por nenhum de nós. Somos feitos da vida antes que ela aconteça. Francieli atualiza seu blogue com fúria. Tuane despeja as fotografias mais belas do mundo de agora em seu flickr de ontem. E tudo está bem assim. Somos quatro dimensões de um mesmo segredo. E somos um só corpo condenado a nunca se encontrar.
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