sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

O rio descia na nossa frente e ele estava pesado. Corria na direção da cidade e, antes da curva, ele não brilhava. As nuvens estavam baixas e, muito antes do que pudéssemos prever, os dois, água e céu, viravam uma coisa só. Os pinheiros não balançavam pois não havia vento. O meu pé empurrava o seu para cima e o meu seu pé empurrava o meu para baixo. Nossos tênis esfregavam um no outro o barro da estrada de terra. De vez em quando você parava. E era sempre eu quem tinha que recomeçar. Pensava em muitas coisas para te dizer, ensaiava respostas para perguntas que você não fazia e, quando voltava para casa, a certeza que eu levava para o quarto era que cada dia era um dia a menos. Olhava para as paredes pensando no dia em que eu não estaria mais lá. ouvia o barulho da televisão e sabia do tempo em que eu sentiria saudade daquele instante. Era um pouco estranha a sensação de estar auto-exilado dentro da própria casa. o cheiro do cigarro dos meus pais avançava pela pequena janela que dividia o meu quarto da cozinha, onde eles passavam a noite vendo televisão deitados no sofá de veludo marrom. Fumando debaixo de algum cobertor ao lado do fogão à lenha. Entre julho e setembro eles comiam pinhão. A pia da cozinha afogada em cinzas de cigarro e casca de pinhão no outro dia de manhã, quando eu acordava sozinho para ir à escola. Enquanto calçava o tênis para sair, o radio-relogio ao lado da cama deles despertando no ultimo volume não era o bastante para tirá-los da cama. Quando abria a porta o ar gelado era limpo. Não tinha cheiro de cigarro. As ruas não tinham cascas de pinhão entupindo os bueiros e o mundo fora de casa era um lugar melhor para se estar. Do outro lado do jardim de ervas daninhas, a calçada quebrada por raízes de arvores antigas estragava a paisagem perfeita e cimétrica todas as calçadas que não eram a nossa. Os jardins com pequenos arbustos e grama curta eram acessos para mundos que eu não conhecia. Que talvez fossem melhores do que o meu, mas que eu não queria experimentar. A solidão da calçada desenhava meus passos o caminho mais distante entre as duas portas: a da escola e a da minha casa. Atalhava procurando uma distancia cada vez maior entre as duas portas. Respirando sempre por mais tempo o ar não contaminado dos espaços fechados. Como um mergulhador medindo o tempo eu retinha nos pulmões fechados um ar limpo pelo maior tempo suportável. Antevendo o que viria, fazia da rua a minha casa. fazia do não pertencer o meu bem-estar. e preparava minha família para a despedida que, muito antes do que eles podiam imaginar, viria a acontecer. Entre ser o filho perfeito e ser o filho da vergonha, o melhor era causar vergonha. A despedida seria menos dolorosa. A falta seria menos sentida. Tentava controlar o que despertava nos outros para não ter deles amor demais. Amor demais significava sofrer na hora de ir embora. O amor demais que eu não queria sentir não me deixaria partir. Era um canto da sereia me levando para baixo. Para a morte. Para o não mais eu. E eu não amei o quanto eu deveria, eu não podia. E eu não deixei que eles amassem o quanto eu precisava, eles não podiam. Quando chovia era ruim não poder sair. Nos dias frios era ruim não poder sair. E quando eu passava tempo demais dentro de casa o medo de morrer crescia. E a morte nascia de dentro dos instantes mais imprecisos. Minha mãe servindo um prato de arroz sobre a toalha xadrez. O prato marrom transparente cheio de riscos opacos. Minha irmã conversando com meu pai. Ele prestando atenção nas noticias da televisão. O volume cada dia mais alto. Eu não estava lá. E, antes de sentir raiva eu sempre sentia saudade. E observava o curso da minha casa como um viajante que sabe que não está mais lá. mesmo dentro dela, eu observava a minha casa de fora. Sentindo uma ponta de nostalgia em cada gesto que deixava de ser. Capturava o ultimo instante antes do sorriso da minha mãe deixar de ser real. Gravava na retina os dedos da minha irmã arrumando os cabelos e dedos do meu pai acendendo mais um cigarro. E existir era uma sucessão de retratos que eu sabia que nunca mais iria esquecer. Você empurrando o meu pé para baixo. Eu empurrando o seu pé para cima. O barro da estrada de terra. Os passarinhos silenciosos no meio da tarde de inverno. Os pinheiros pingando neblina. E nós. E nossos pés.
sábado, 24 de janeiro de 2009
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Gosto de exercitar a escrita sem edição. A escrita como uma palavra falada. A frase dentro da frase. Gosto da escrita como uma sucessão de idéias que partem de algum lugar de onde não lembramos e seguem por um rumo cujo final sempre desconheceremos. Aqui é noite agora e agora eu escuto rádio. Uma rádio daqui dessa cidade. uma rádio que toca musicas que gosto. Acabou de tocar “why Don;t you come over here? We have a city to Love” e eu lembrei de um domingos alguns anos antes de agora. De todas as bocas que passaram por mim naquela noite. De todos os olhos que paravam em mim naquela época. Não faz tanto tempo assim. Mas não sei lembrar quanto. Às me deixo pensar no que eu fui antes de agora. isso não é sempre. Só acontece sempre um pouco antes de você partir. Às vezes preciso lembrar para mim mesmo como eu era feliz sozinho. Serve para que eu não sofra demais caso você não volte.
Quando eu comecei a escrever eu escrevia para testemunhar os meus dias. Se escrever é antes por alguém, não para, eu escrevia por mim. rascunhava os meus dias e os meus dias eram do interesse de ninguém mais que não eu. Por isso as mortes. O medo de ser descoberto. A vontade e o não querer ter um dias as palavras roubadas. A vontade e o não querer ser alguma coisa maior do que eu era. A vontade e o não querer sobre tudo o que era incerto.
Numa noite de inverno eu estava sentado em uma festa. A festa estava cheia, mas eu estava sozinho. Eu estava sozinho sentado em um banco encostado contra a parede. A parede era suja, mas talvez eu fosse novo demais para perceber. As coisas feias da vida vão ficando mais feias conforme envelhecemos. Talvez envelhecer seja ver o lado feio de tudo. Quase sempre acredito que eu nasci velho. E rejuvenesço quando, antes de dormir, constato que o saldo do meu olhar foi menos belezas do que feiúras. E a sua beleza cresce debaixo dos lençóis do outro lado da cama. Tão longe de mim.
Quando nos conhecemos falamos horas a fio sobre os mesmos filmes. alguns olhos certamente passearam por nós, mas não notamos. Perdidos nos olhos um do outro, talvez fôssemos novos demais para entender que nada dura para sempre. E que as verdades sobre a vida nunca eram menos óbvias do que aparentavam. Você me queria e eu também. Mas não. Na primeira noite nunca.
Agora você foi dormir. Antes de deitar passou no meu escritório e perguntou se eu tinha sono. respondi que não. Você perguntou o que eu estava escrevendo a essa hora da noite. Respondi que era uma nova idéia. Que estava sem sono. você pediu que eu baixasse o som ou que fechasse a porta. Baixei o som, pedi que me beijasse, você me beijou, depois eu fechei a porta enquanto as suas costas desapareciam no escuro da nossa cozinha.
Hoje temos nossa cozinha. Nossas louças sujas. Nos queremos. Nos desejamos. Mas às vezes fingimos que não. Hoje eu te amo. Segunda você vai embora. E é sempre preciso lembrar da vida antes de você. Antes de você partir e nunca mais voltar.
Você ainda não sabe, mas um dia vai saber. Sempre haverá um cara melhor do que eu. Talvez você já saiba, mas não quer admitir. As separações são longas e dolorosas. Você também. Cicatrizávamos quando nos encontramos. Talvez agora você durma. Talvez pense em um outro melhor do que eu. Todos os outros são melhores do que eu. O radio toca um r’n’b. Um negro grita baixinho no fundo da noite. E sempre, antes de dormir, eu me pergunto como foi que eu vim parar aqui. E sempre durmo sem saber.
quinta-feira, 15 de janeiro de 2009
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Today I was reading the news. It’s a little bit strange when I recognize myself in the pages of the local newspaper. Today I was reading about Barbara Ganley and, somehow, we are some kind of partners in life and the visions that makes it real. Somehow I found a group. The Slow Blogger’s group. And I’ve got less alone without having to be with someone. It’s always good to feel not so alone and, at the same time, not to need to get phisically near to anyone.
Even if feeling alone is a state of mind. Even if loneliness is my mood. My constant mood. I am a man of constant solitude. And I always feel good when I’m alone.
But today it was different. Barbara Ganley was with me. By my side. In the other side of the sea. In the top of the earth. Near to the ice. Near, so far away, like a silent neighboor of my private storms.
I’m so thankfull to all those who can give his own words to my own feelings. That’s the beauty of the non-solitude. That’s when I make sense. When I’m understood through the other’s eyes. And that’s when it’s not just for me. Serendipity. Or. Find your own way to describe the place that you inhabit now. Find your own way to describe no-leaving. No-living. Or heimweg.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
terça-feira, 18 de novembro de 2008
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
marry christmas if you dare

São Paulo. Algumas pessoas vão embora. Outras ficam. E é para sempre, embora a gente pense que não. Chove na rua e aqui dentro faz um calor. Os amigos quando dançam na sala e os planos que nunca seremos. O mundo não existe amanhã. Chove do outro lado da janela. O mundo dorme quando nós não.
Tentamos o contato com qualquer coisa que não nós.
Na pista eu arranquei a camiseta. E só você não estava lá. E eu queria viver em tempo não esse. Qualquer duas décadas antes de agora me faria feliz. O mundo ainda é uma criança e vivemos todos uma pré-adolescencia coletiva. Nos agarramos ao que não existe. Nos exilamos no que não foi proibido. E sofremos tão mais do que precisamos.
Vivemos o momento final antes da primeira morte, e não sabemos que há tanto a fazer depois. Quando você me ensinou a psicografia há tanto tempo atrás, eu não pude entender. Você foi ele através dela e eu não pude entender.
Agora é o ultimo verão antes do fim. Feliz Natal IF you dare.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
La Boca
quinta-feira, 30 de outubro de 2008
it's all about us

É um pouco complicado escrever durante as temporadas longe de mim. Existem fases em que não me encontro. Por mais que me procure, não sei onde estou. Quando acordo ainda sinto a mesma fome, mas, aos poucos, vou entendo que, hoje, ela não será saciada.
Às vezes basta uma palavra dita da forma certa, mas na hora errada, para o mundo perder a graça. As palavras são fortes demais para mim e eu me sinto mais verdadeiro quando escrevo. Quando falo quase sempre saem mentiras de dentro de mim e eu não me reconheço nos diálogos que tento reconstruir quando a solidão volta. É sempre mais fácil quando sozinho. Sempre foi assim.
Hoje encontrei um texto que traduzi em 2006. Li as primeiras páginas e tudo continuava lá. As palavras ainda fortes. As intenções ainda verdadeiras. E, à medida que lia as falas daqueles personagens, uma vontade de voltar ao teatro foi tomando conta de mim. Antes que a vontade ficasse forte demais, fechei o documento e deitei no chão da sala. Enquanto o vinil do Led arranhava as paredes da casa e o sol atravessava os galhos do abacateiro até mim, eu criei um elenco dos sonhos. E eu escalei um time que faria a peça mais linda do mundo. Quando a música terminou eu tentei saber o nome daqueles atores, mas eles não existem.
Depois mijei. E depois de mijar fiquei olhando no espelho e pensando nos artistas que hoje me tocam. Pensei na Tuane e nas suas fotografias e no seu sorriso carregado de lágrimas que o seu olhar crava quando olha dentro do meu. Pensei nas músicas do senhor Johann. Pensei nas frases interminadas da Francieli. E fiquei feliz. Quando penso que os meus companheiros lá de Lajeado são os artistas mais interessantes que eu conheço hoje, nada fica complicado. Quando sei que, mesmo longe, na época das festas estaremos todos juntos, mesmo sem nunca estar, o dia encontra algum sentido. E eu sei que, se algum dia nos encontrarmos todos juntos, o mundo deixará de ser. Porque nós só conseguimos habitar plenamente os territórios imaginados. Porque nós somos feitos de uma matéria que não existe. Ou que ainda não existiu até aqui. Nossa arte é feita de vento e de tudo o que ele esconde. De tudo o que ele faz sentir quando varre nossos cabelos e arranca lágrimas dos nossos olhos. Nossas frases são imperfeitas, e nem por isso estamos tristes. Nossos raciocínios são complicados demais para os que não encontraram a simplicidade cortante de uma tarde inteira a suportar.
Os que sabem a dor do antes dormir. Do quase não dormir. Do nunca mais descansar.
Mr Johann toca agora "there's so much life besides". Ele está certo. Ele sabe que ela ficará lá, para sempre. Ele sabe que ela nunca será tocada por nenhum de nós. Somos feitos da vida antes que ela aconteça. Francieli atualiza seu blogue com fúria. Tuane despeja as fotografias mais belas do mundo de agora em seu flickr de ontem. E tudo está bem assim. Somos quatro dimensões de um mesmo segredo. E somos um só corpo condenado a nunca se encontrar.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
Parfoir j’ai envie d’aller à la plage. Mais après je me dissoudres. Et la mer recule jusque une terre distante. Si distante de moi même que, peut-être, il n’existe pas. Plus on distant d’ici, plus on près de mes souvenirs. Ma vie est comme si de rien n’était. Comme s'était morte aprés du réveiller. Ma voiture est la vitesse. Mes yeux sont la plenitude du virage aprés le bout. Ou debutance. Comme commencer. L’avalanche. La chute. Mon parachute. Ton parachutiste. Quelque chose impossible d’écrire. Quelque corps impossible de sécher. Un scanner sour mes rêves. Un scanner sour tes parachutes.
terça-feira, 28 de outubro de 2008
As pessoas dançam. Sorriem nas filas. Trocam frases de amor. Discutem amenidades. Depois choram sobre as linhas de um blogue. Eles comem em restaurantes caros. Dormem em camas confortáveis. Falam no celular sem pensar nos minutos. Depois despejam no blogue o pavor sobre planos de governo. Eles tratam mal os seus funcionários. Eles são arrogantes com o mundo. Depois debatem a depressão em blogues que nunca terão acessos suficientes. Nenhum contador jamais aplacará a sede dos seus egos. Antes de dormir eles sempre pedirão um pouco mais do que nunca lhes foi dado. No meio de um sonho eles saberão que não cabe a si o que não faz parte de. Mas de manhã eles acordarão. E continuarão acreditando em tudo o que nunca criaram. É assim que se vive. É assim que se leva. É assim que se segue. Sempre um pouco mais para longe de si mesmo. Quando o mundo te chamar de artista é quando você terá deixado de ser. Quando você deixar de acreditar em si mesmo será quando as verdades surgirão em ti. Duvide. Depois acredite. Para duvidar com mais certeza. E siga um ritmo constante e eterno. Como a respiração. Até que não restem dúvidas. Até que não restem respirações. Então você morrerá. E o estrago terá sido feito enfim.
As pessoas fazem tantas coisas que não deveriam fazer. Mas elas fazem mesmo assim. O mundo é simples se você olhar do jeito certo. Talvez o jeito certo seja olhar um pouco menos pelo buraco da fechadura. O buraco da fechadura sempre mostra o quarto dos outros. As paisagens podem ser escolhidas. Cada escolha interfere uma invenção e a maldade sempre está nos olhos de quem lê.
Talvez seja apenas mais uma sexta-feira e as sexta-feiras são centopéias de cinco patas ainda sem cabeça. A cabeça é o fim de semana. Os dois lados da cabeça. Sábado é o lado esquerdo. Quando só existe alegria de viver porque não existe amanhã. Domingo é o lado direito. Quando há o entendimento do dia para si e do dia para outro. A segunda-feira é o dia de ninguém. Do não. Do nada. Sexta-feira, por pior que eu possa estar, por mais velho que eu possa ser, sempre carregará nas suas horas a promessa do vir a ser. Sexta-feira pode ser o pior dia do mundo se você for dezesseis. Sexta-feira pode ser o melhor dia do mundo se você for dezesseis. Olhe dentro do seu coração e me diga o que existe lá dentro. Se você conseguir, escreva cem vezes dentro dele até deixar de ser verdade. Escreva cem vezes a mesma verdade para que ela possa ser mentira. Liberte o mundo de ser o que é condicionando à repetição o que nunca deveria ser igual. Alimente pequenos fantasmas. Desfrute de pequenos segredos. Esconda as suas maiores virtudes. Dela depende apenas que sejam suas.
No meio da noite bebês despencavam da janela do meu quarto, mas tudo estava bem. Eu estava lá para velar a queda. Você caiu da janela do meu prédio no meio da noite. Mas você não morreu. Ficou deitado no telhado da igreja que tem aqui ao lado. A vida pode ser bonita se você não acredita no perigo. Ou se você dá ao perigo a dimensão exata que ele precisa ter.
Quanto maior a alegria de viver, maior o medo da morte.
sexta-feira, 24 de outubro de 2008
no mind que seja eu.
O ano avança sobre os seus finalmentes e eu quero saber se hoje eu sou mais eu do que fui no final do ano que passou. No ano que passou eu voltei de uma terra prestes a congelar para dançar na beira de um mar bonito e azul com um céu cheio de estrelas e baleias e pingüins e paisagens antes de gelo. Você me abraçou e tomamos banho de mar, de bebida e de música. E congelamos nossos pés dentro das ondas. Depois o sol nasceu sozinho dentro de mim no primeiro dia desse ano que prometia ser tudo. Você dormia. Eu vomitava todos os banheiros do mundo. Estrangeiros dançavam e eu era mais um francês entre todos os pretos daquela cidade. E foi assim que começamos mais um ano. O ultimo ano do começo do fim das nossas vidas. Não há motivos para temer.
As chuvas do verão começaram a cair ontem, mas eu ainda sinto o frio dentro de mim. Longe, onde você mora, você me disse que chovia. Que estava cinza. E que os pássaros cantavam mais do que sempre cantam. Aqui, onde estou sem habitar, faz sol. Há um sabiá no imenso abacateiro que entra pela janela da sala. Aqui os pássaros cantam histéricos. Como se atrasados. Como se não devessem ser. Aqui, longe de você, Nina Simone canta baixinho Mr Bojangles. Alguém dorme na minha cama, mas eu não sei quem é. Talvez seja você num futuro que nunca tivemos. O mapa do mundo pregado na parede é só mais um pais para cada dia que passa. Pesquiso distancias que posso percorrer. Traços roteiros imaginários tentando encontrar um ponto no mundo para ver 2008 se transformar 2009 e tudo continuar como era antes. Quando foi que eu parei de acreditar que as coisas mudam, mas que nada é impossível de suportar? Nada vai mudar se os dias seguirem no mind. As datas não se correspondem mais e o tempo de cada dia hoje não é mais o tempo de cada dia que foi ontem. As velocidades aumentam todas, mas o meu corpo sempre demora um pouco mais para sentir o que todos já sabem.
Quando deixarmos de ser 2008 eu quero te abraçar na beira de uma praia de água doce. Seremos estrangeiros em um pais vizinho. Seremos ricos onde nossa economia desperta alguma inveja. E eu colocarei alguma canção nos seus ouvidos para tocar enquanto você me olha dançar salgado entre as ondas doces de um mar de uma cidade dividida ao meio. De uma cidade que nunca pertenceu a lado algum. De uma cidade que um dia se cobriu de sangue e que agora, amanhã, 01 de janeiro, será meu sangue todo dançando para você. Do outro lado dele alguma cidade grande esperará por nós, mas saberemos o tempo exato de habitá-la.
As suas sujeiras. As suas tristezas. Os seus excessos.
Agora estou dentro dela. Chorando cada dia um pouco mais. A cada dia um pouco mais complicado de se esconder de mim mesmo. Caminhar sem esperar o sol se pôr. Sem saber como ele vai embora. Observar as pequenas mudanças de cor refletidas nas vitrines. Nos vidros dos carros. Saber o tamanho da lua pelo calendário, não pela paisagem noturna. Tem dias em que me sinto sozinho demais e nem você, nem seus olhos, nem saber que você está aí pode mudar qualquer coisa. Tem dias que falta saber do mundo pelos olhos dele mesmo. Tem dias que falta saber de mim pelos olhos da terra. Tem dias que falta me o eu. Mas eu espero. Eu sempre espero por mim quando tudo parece estar perdido.
Ontem baixei todas as versões que Nina Simone fez para canções de Bob Dylan. Agora ela canta Just Like a Woman e é tão bonito. Mas eu não estou aqui para escutar.
segunda-feira, 20 de outubro de 2008
another gay sunshine day
Diga uma verdade antes de dormir e você saberá quem eu sou.
Ontem a noite foi de festa. Os amigos quando se encontram. As línguas antes de terem sido cortadas. Os corações antes do fim. Os sonhos antes do não. A morte antes do se.
Ontem a noite foi de risadas em roda. De goteiras quando não chuva. Ontem a noite foi de nós. Voltei para casa e é sempre estranho voltar para casa sendo dois. Até quando vai ser assim? Ontem eu dormi e a cama não sou somente eu. Até quando vai ser assim? Até quando você vai me suportar? Até quando eu vou me suportar sendo tudo o que não sou ao lado seu? Casamentos são sonos profundos. São respiros antes do salto. São descansos entre duas vidas.
Queria escrever cem vezes a mesma mentira até que ela fosse verdade. Eu escreveria cem vezes. Ou milhão delas. Passo o dia fugindo de mim mesmo em salas de cinema. Passo os dias tentando me encontrar em cenas que eu não seria. Passo os dias à procura de mim mesmo em filmes que não eu. Que nunca serão. Mas se de noite eu sempre volto para casa sozinho. Sempre um pouco mais sozinho de mim mesmo. E se dentro dela eu me encontrar, todos os filmes terão valido à pena. É que hoje. Só hoje. Eu não estou muito feliz.
Como as noite sem amigos. Como os amigos antes do não mais ser.
Os amigos, como a vida, são opcionais. A vida, como os amigos, vale a pena ser cultivada. Eu tento. Mas depois de cada gole de café fica sempre um pouco mais complicado não pensar que talvez não. Que talvez ele arrebente. O coração. Hoje não. Só hoje que não. Dorme. E eu queria deitar. Noite. E eu queria ser.
Quando você disse que me amava eu sabia que era mentira. Aos dezessete ninguém nunca me disse que me amava e eu nunca amei ninguém mas a idéia de amar era o amor no seu estado mais puro. Como amar fantasmas de mim mesmo. Aos dezessete eu caminhava por cemitérios e, pobre de mim, não sabia que toda a vida do mundo estava ali. Depois eu cresci. Todos crescemos. E os amores se tornaram reais e, nem por isso, vivos. Os amores dos dezessete são os únicos de verdade. Hoje tentamos acreditar nessa vida que não é nossa. Onde estão as nossas camisetas das bandas que nos eram cantando até o fim? As agendas com pedaços de nós mesmos? Os cadernos de perguntas que nunca seriam respondidas?
Você é virgem?
Você é feliz?
Você acredita em você mesmo?
Responda não. Cem vezes. À todas as perguntas acima, e considere-se vivo. Encontre-se dentro da canção mais triste do mundo e pense nunca mais poder sair de dentro dela e seja dezessete tatuado em seu coração. Quando você me olhava no recreio eu tentava te amar. Mas entre um gole de Coca-Cola e uma mordida no paste do Folhinha, a vida poderia ter sido tão mais triste do que foi de verdade. Eu chafurdo na tristeza para encontrar quem eu sou. Eu me afundo na lama na expectativa mais sincera de saber quem sou eu. Eu procuro. Mas a vida, às vezes parece fazer nenhum sentido. É quando ela vale a pena. Quando é madrugada e o teu corpo não quer dormir. Quando você é a noite de sábado sem ninguém para sair. Quando você é bonito sem ninguém para saber. Quando você acredita sem ninguém para te mentir.
A vida foi bonita. Mas você não estava lá para entender o quanto.
sábado, 18 de outubro de 2008
sobre o tamanho da vergonha
O sábado começa e a vida hoje é só mais um cansaço. Comprar orgânicos na feira. Ouvir Cat Power tocando na vitrola da sala sem parar. Pensar no mundo e nos lugares onde não estou. É só mais um sábado que começa e talvez esse seja apenas o últimos sábado antes do fim do mundo.
Antes de dormir eu penso nos problemas do mundo para ter sono. Penso na crise. Penso nas tragédias. Nas misérias. Nos governos totalitaristas. E o sonho vem chegando devagarzinho. Para dormir penso em coisas inúteis. Só assim sinto sono. Penso nas dimensões, no tamanho delas, no quanto eu sou pequeno e no quanto as políticas internas me interessam muito mais do que tudo o que vem de fora. Não me interessa o que não diz respeito a mim. Mas nas políticas internas, nessas não se deve pensar antes de dormir. Essas tiram o sono e fazem não querer dormir nunca mais. Ou poluem os sonhos com chaves para portas que abrem para lugares que talvez sejam perigosos demais.
Então eu penso em Bush, Obama, Lula, e em tanto nomes que são apenas nomes e que são apenas sucessões de sucessões e de sucessões. E eu sinto uma ponta de ironia quando leio opiniões tão certas sobre tudo o que não diz respeito a mim. Eu sinto uma ponta de orgulho por não comparecer. Por não participar. Por tentar fazer do meu mundo um lugar bom para mim. O câncer mais assustador é aquele que talvez esteja crescendo entre as minhas carnes. As feridas que mais doem são as que acometem o céu da minha boca. A miséria mais dolorida sou eu querendo comprar sempre o que não deveria ter. A ditadura mais sofrida é ter que esconder dos outros a minha alegria por estar vivo no tempo de agora. Eu não me envergonho. Eu não me envergonho. Eu não me envergonho. Escreva cem vezes e ainda assim não entenderá.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
um trecho
Sempre que uma nova rotina se estabelece em minha vida eu começo a me ver de longe. À medida que começo a me repetir todos os dias, vejo os dias de repetição fora do tempo presente.
Depois de tempos, consegui estabelecer um tipo de rotina nessa semana. Meia semana de rotina no meu tempo é maior do que no seu. Há três dias que sento na mesma mesa, do mesmo café, abro o meu lap top e escrevo há três dias seguidos a continuação de uma mesma história. Quando o dia termina caminho pela Paulista escutando canções que conheço tão bem há tanto tempo. A tríade Nancy Sinatra, Marianne Faithfull e Bob Dylan sempre me acompanha. E é bonito assim. Sendo o mesmo mais um pouco. Um pouco a mais a cada dia.
Há um tipo de beleza que só existe nos escritores em início de carreira. De um jeito que sempre fui e que só deixei de ser quando me fizeram saber. Os mistérios deixam de ser quando ditos.
Quando chego perto de casa atravesso uma pracinha e sempre vejo um grupo de garotos fumando os seus baseados. Eu olho para eles e me vejo ali. O guardinha me cumprimenta, mas eu nunca respondo. Eu sempre penso que deveria responder e ser amigo do guardinha. Mas aí eu lembro da moça que trabalha aqui em casa. Então eu sinto que a minha cota de ser legal com pessoas que não gosto mas que é preciso ser amigo ainda está ativa. Eu sempre achei que eu devia ser amigo de pessoas que não me interessavam. Eu sempre me senti meio que auto-obrigado a gostar de quem ninguém gostava. E assim foi indo. Era uma espécie de dívida com o mundo. Se o mundo não gostava de mim eu devia pagar de volta o pouco amor que me foi dado. A medida do ódio por quem não me gostava era exatamente igual ao amor que eu devotava a qualquer um que sentisse um mínimo de simpatia por mim. É foda ser cachorro. Mas essa é uma forma de pensar que é só minha.
Desde que meu contador de acessos tem explodido, me vejo obrigado a controlar os meus excessos por aqui. E aqui não é minha vida. É só um pedaço grande de mim mesmo.
O verão chega. Sempre que a estação muda uma onda de nostalgia elétrica se faz presente no ar. Os alérgicos são sensíveis ao invisível. Jamais duvide de um deles. Sempre que o dia estaciona no meio de um capricho da natureza, eu me sinto mais forte. Que faça sol até ferver. Que esfrie até congelar. Mas que congele. Ou que queime. Só não vale parar antes do fim.
As naves não vieram. Talvez devêssemos ir.
terça-feira, 14 de outubro de 2008
Hosana às Alturas!!!

Gosto de saber quando não estou sozinho no mundo. Embora encontrar antigos conhecidos seja mais doloroso do que me encontrar nas esquinas que atravesso, os diálogos internos ainda são os mais fáceis e estimulantes sempre. Agora descobri um pequeno oásis na grande cidade. um refugio onde serve-se um bom café e onde passo o dia escrevendo, escrevendo, escrevendo. Os homens são sérios e as mulheres falam baixo. Minha mesa, no canto, sob a luminária mais discreta, sempre está disponível. O café é caro, mas a discrição sempre compensa. Aqui não encontrarei conhecidos. Aqui a minha mesa não correrá o risco de ser invadida por assuntos que não me interessam. Aqui o centro dos goles gira em torno do que quero produzir. No meio das minhas palavras viajo pela internet. Como desanuviar. Como olhar um sol no meio da tempestade. O dia termina e estou menos sozinho. Descobri nas fotografias de uma garota chamada Calico Courtney que ela percebe o mundo de uma maneira muito próxima à minha. Entendo as suas cores, os seus xadrezes e a leveza das suas fotografias. Se agora eu pudesse ser alguém, eu seria um modelo da sua coleção de fotos. Se eu pudesse ter alguém para me ler agora, seria ela. Às vezes eu penso que deveria escrever em inglês para atingir pessoas que estão próximas de mim.
Ontem, saindo do café, o pôr do sol refletido nos prédios de vidro da avenida Paulista me fez chorar de um jeito que nunca foi aqui em São Paulo. Nos ouvidos Bob Dylan combinava como nunca com a grandiosidade desse lugar. E eu era feliz. Eu. Minha mochila. Meu laptop carregado de idéias e as melhores canções na melhor cidade do Brasil. Estou grande. Estou forte. Sigo em frente. Comprei um livro de Ingmar Bergman, e li para você antes de dormir. Reconheço-me no que não entendo. E é assim que sigo um pouco perto de ser feliz.
Tem semanas que começam fazendo-nos sentido. Ainda bem. Que não dure para sempre para que não deixe de ser digno de celebração.
E hoje a nave há de chegar. Olhos aos céus. Sempre atentos para o aberto.
segunda-feira, 13 de outubro de 2008
Dizem que a medida exata da paixão está no medo que ela desperta em mim. Entregar-se implica temer. Amar implica a constante possibilidade de deixar de ser amado pelo que se ama. Deixar-se amar talvez seja mais simples. Mas é quase certo que não. Tudo do que não depende apenas do eu é estranho e contém o descontrole. A terra é minada e as explosões são possíveis. Acontecer não depende de quem pisa. Explodir não diz respeito à falta de atenção. Por isso amar, quando se torna real, deixa de ser bonito. Por isso amar, quando torna-se a verdade, passa a ser a alma quando insone. Pensar no amor é deixar que ele pare de existir. Fazer cogitar o não mais se pertencer é o começo dele. Deixar-se de ser um nunca será a partida de dois.
Por isso a dor quando é de verdade. Por isso talvez quando não seja o sim. O não. Não o assim. Para que não se tenha o que falar quando o pressuposto for o nada a entender. Muito menos a fazer. Quando entregar-se é a prova final, a sua conclusão é a perda de si. Em si.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
Faz tempo que não vejo um bonito sol cair. Faz tempo que não vejo uma bonita lua cheia. Faz tempo que não vejo a chuva chegando do longe até eu. Faz tempo que não sinto no vento um cheiro estranho, que me faz ter vontade de chorar, ou de voltar atrás ou de correr contra ele sentindo os fios dos meus cabelos se desprendendo. As rugas se esticando até eu ser bebê careca. Faz tempo que não sou eu aqui nessa cidade. Mas eu tento.
A cidade pede um outro olhar. O olhar que precisa algum exercício, não o olhar do conforto. Não a vida entendida. A cidade pede a vida descoberta. A vida com verbos externos. Perco-me em necessidades do corpo e sinto minha alma pequenina. Meu corpo está vivo, mas minha alma eu não sei onde pegar.
Ontem li o livro novo da Phrann e, oh Jesus, ela tão melhor do que eu jamais serei. Eu queria ser ela quando escrevesse. Ela não termina nenhum dos livros que começa, e nem precisa. Conheço a Phrann desde que somos crianças e ela era a menina mais estranha da escola e o nosso primeiro contato foi quando ela me pediu o “Guia das Profissões” emprestado. Ela, assim como eu, também tinha vontade de sair de Lajeado e conhecer outras pessoas. Ficávamos olhando todas as possibilidades de nós mesmos dentro da capa azul do “Guia das Profissões” e sonhando com qualquer terra que fosse longe da nossa. E saímos de lá, abandonamos nossas pequenas almas muito antes do esperado. Voltamos de vez em quando. Como olhar para as fotografias de um álbum esquecido em alguma gaveta na casa da mãe. Como encontrar, sem querer, a carta de um amor antigo dentro de um livro que esquecemos de chegar ao fim. Como se encontrar no espelho no meio da madrugada e ficar mais tempo mergulhado na penumbra dos próprios olhos no vazio do banheiro. Os carros atravessando a cidade fria. Os ruídos no apartamento de cima. Os cachorros latindo longe.
Mas nossas voltas, as minhas e as dela, nunca mais se encontraram. Quando eu estou por lá, ela está longe e quando eu estou longe, ela está por lá. Como uma coreografia, como se fosse esse o nosso combinado, talvez sejam esses os passos certos a se dançar. Talvez assim dure para sempre um amor que atravessa os anos. Nos redescobrimos nos originais que trocamos. Nos reinventamos nas músicas quando escutadas juntos mesmo que separados por milhares de quilômetros. Nos entendemos quando passamos mais tempo no MSN do que nossos patrões internos gostariam que fosse. É assim que consigo amar quem é família. Indo sempre mais para o longe. Mantendo todos eles, os amados, em lugares que não posso estar. Sentindo mais a saudade do conviver do que o cansaço de uma convivência. Fazendo a convivência um instante ínfimo, sempre perdido entre duas partidas. Mas eu sei, eles também (pois somos feitos da mesma matéria), que o amor é o tempo quando insuportável. Que a verdade é conviver, conviver, repetir, suportar o nada das histórias quando recontadas. Recontadas. Recontadas. Nós fingimos tão bem. Eles e eu.
Ontem acordei pensando na avó que me criou. Ela está cansada. Ou não. É preciso não entender mais dos outros do que eles mesmos se entendem. Quando penso nela, ela já está morta. Embora ainda habite a mesma casinha que me fez crescer. Ao lado do meu avô que ontem fiquei sabendo ter feito mais uma cirurgia nos joelhos. Ele sonha poder caminhar e ir andando até o centro de Lajeado e pegar a sua aposentadoria e depois passar na loja de discos e comprar um disco d’Os Serranos como ele fazia todos os meses desde que eu era pequenino. Mas ele não sabe que discos não existem mais. Nem as irmãos Gastão, as solteironas, afundadas em pilhas de vinis e fitas k7 pirateadas com capas brancas datilografadas. Ele sonha com o dia em que seus passos o levarão sozinho até o Banco do Brasil, sem saber que as araucárias do Alberto Torres não estão mais lá para contar para ele mesmo, os detalhes da própria história. Ele não sabe que a cidade cresceu e que é quase certo que ele será atropelado pelos carros que voam sobre o asfalto. Seus joelhos ficaram inúteis. Dessa vez para sempre. Como o asfalto quando cobre paralelepípedos, a poesia das palavras difíceis quando a prosa perde a dificuldade, a inutilidade da beleza para os caminhos retos, ele não entenderá a cidade se esvaziando de si. E ele será eu. Nós dois chorando sobre o mesmo tumulo. Nós dois órfãos de nós mesmos. Do que fomos. Do que seríamos se nunca partidos.
No meu íntimo eu desejo que ele nunca mais caminhe. Que a geografia do seu passado não se mutile em novos andares solitários. Caminhar sozinho é perigoso. É sempre possível encontrar-se consigo mesmo na próxima esquina. É certo que. É mais fácil percorrer os caminhos quando conhecidos. É sempre mais bonita a cidade que nos fez crescer. É sempre mais doce o tempo da memória. O mesmo sol caindo no mesmo horizonte alheio ao eixo do planeta que se desloca tão veloz. Os mesmos dias e as mesmas horas que encurtam como sempre mais. Todos percebem, poucos entendem. O mesmo vento trazendo um tempo que ficou para trás. Antes das tsunamis, dos furacões, do fim dos dias. Todos caem. Todos cairão. É mais belo o dia quando não hoje. Será mais linda a terra quando o não agora.
As naves vieram. As naves virão.
Enquanto o passado não volta, me cerco dos objetos antigos. Das roupas usadas por pessoas que não conheci. Dos vinis arranhados por ouvidos que foram eu antes de mim mesmo.
Para quem já nasceu triste, o mundo não deixará nunca de ser.
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