sábado, 4 de outubro de 2008

um pequeno suspiro sobre a nostalgia

(para M.)



 

Se há uma pergunta que gosto de fazer às pessoas com quem converso é: “Qual a paisagem que você vê quando tomado de nostalgia?” Assim como para mim, muitas pessoas, quase todas, possui uma pequena e íntima sequencia de  imagens que partiram de um terreno externo para se fixar do lado de dentro, na gaveta dos afetos. Talvez essa pequena sequencia de imagens eternas sejam as fotografias que compõem o álbum da nostalgia. Ou as ilustrações do livro íntimo de um destino.

A nostalgia difere da saudade por ser superior à ela. A nostalgia pode ser a saudade quando adulta. A saudade quando madura. As feridas quando cobertas de uma bonita cicatriz. A nostalgia é a saudade sem dor. Não inflama o peito o fogo da urgência. É mais um “nada a fazer” sobre o que está feito. Como uma paisagem que nunca será tocada. Uma beleza que se desfaz na própria beleza. A nostalgia é liquida. Feita de uma água que não mata a sede. É preciso nunca esperar da nostalgia que ela sacie. É preciso não ir com sede à ela. Não cabe à nostalgia encerrar-se.

Cabe ao nostálgico atenção e equilíbrio. Como estar no centro de uma gangorra que não pode nunca tocar o solo. Como caminhar sobre o fino fio da razão. Ao nostálgico é cobrado não se deixar cair no passado, nos afetos antigos. No lado sombrio das sensações do não agora. Ser preso de um tempo anterior implica não seguir. Atrofiar raízes. Embaçar qualquer possibilidade de visão.  Submergir-se em si. Ser passadista não diz respeito ao artista.

Cabe ao nostálgico atenção e equilíbrio. Como estar no centro de uma gangorra que não pode nunca tocar o solo. Como caminhar sobre o fino fio da emoção. Ao nostálgico é cobrado não se deixar cair no esquecimento, na higiene da alma. No lado iluminado das emoções quando feitas de um presente sem sombras. Ser preso de nada que não a matéria atual implica seguir sem saber de onde se vem. Enraizar-se no vento. Embaçar qualquer possibilidade de visão. Submergir-se na matéria. Não olhar para trás diz respeito ao não artista.

O pequeno álbum da nostalgia mostra suas páginas no ínfimo instante em que flano sobre o vazio íntimo de mim mesmo. O álbum da nostalgia não possui trancas. Nem senhas. Nem turnos. Abre-se quando esquecido. Flutua se respirado.

Quando lembro sem querer lembrar, eu sou o tempo.

 

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

os meses últimos foram de um profundo medo de ir me embora de vez e para sempre. cada olhar para alguém que eu amava era, de uma forma muito íntima, um pequeno adeus. quando eu desligava o telefone eu pensava que talvez nunca mais fosse escutar a sua voz. talvez por isso eu nunca tenha dito tanto que te amava.é fácil mentir na iminência da partida. talvez por isso eu evitei levar discussões para terrenos mais profundos. se habitamos o futuro o tempo de agora é um sorriso de hironia. quando estamos lá, o aqui é apenas o espaço vazio entre dois pontos. o meu corpo tremia e eu sofria pequenos espasmos no decorrer de um dia. após uma xícara de café era certo sentir o chão chegando cada vez mais perto de mim. dos meus olhos assustados. no dia da estréia da peça eu fui levado para o hospital horas antes da cortina se abrir. e eu fiquei lá. no hospital. pedindo todos os exames possíveis para estar certo de que o meu coração não estava cansado de bater. era somente eu. um pouco menos do que já fui. sem saber do quê. sem saber até quando.


aqui na cidade grande estou equalizado. os olhares vazios me ecoam e eu não sou a excessão. a vida no interior é dura para os que trazem um coração no peito. a vida no interior é triste para os que não tem fome. aqui eu me perco na massa humana e eu sou um deles. como as pessoas dessa grande cidade eu me permito esconder-me em mim. e passo a ser assim, um pouco mais eu. 

é bom não ser ninguém para todos os que estão à nossa volta.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

carta aberta para F


acabei os estudos diários e agora escrevo para você. quanto tempo deve durar a nossa conversa? quanto tempo do meu dia eu tenho para escrever linhas às pessoas que amo? quantas pessoas eu amo no decorrer de um dia? 


tenho me puxado no alemão e no francês. tenho pensado muito sobre os sonhos não realizados e como esses projetos em constante espera são carmas negativos. segundo o lair ribeiro, que escreveu o texto que li e me fez pensar, morra de rir eu te conheço, ele dizia que projetos não realizados acumulam energias negativas. a saída então seria viabilizar o projeto ou desencanar dele. eu sempre quis estudar francês e alemão. então eu estudo uma hora por dia de alemão e uma hora por dia de francês. sim, cansa bastante e é bem puxado. mas as idéias precisam deixar de ser idéia para virar ação. 


eu entendo o q vc fala sobre nosso amigo que faz músicas. ele está prestes a dar uma guinada na vida dele. está vindo para sp. a música que ele faz será respeitada por pessoas que ele não conhece. ele virá de avião, ficará em hotel, comerá bem e de graça e ainda ser pago e aplaudido no final da viagem. imagina cabeça desse guri agora. ele me perguntou se precisava tirar passaporte para vir de avião do sul para sp. normal ele falar tanto de morte agora. foi o que rolou comigo. o que ainda rola quando penso nas voltas que a vida deu em mim nos últimos meses. é como se ver morrendo. ver uma parte sua indo embora para sempre. um eu que vc foi vai ficando para trás. você também se viu morrendo quando sua filha nasceu. eu sei q vc é aquariana e mãe e, portanto, a sua vida tende a ser mais prática do que a nossa. mas nós, piscianos e sem filhos, vemos o mundo pelo seu lado mais difícil e triste e lindo e intenso. não preciso te explicar o q vc já nasceu sabendo.


a vida aqui vai bem. de vez em quando eu sou a pessoa mais chata do mundo para se conviver e como é foda saber disso. hoje tudo está bem. mas tive uns dias complicados. tentando entender a dinâmica da minha casa. tentando enfrentar as burocracias do dia após o dia. tentando não deixar o amor que a gente sente virar cansaço. não deixando me secar e não deixar de ser eu. amor. conviver é um troço tão complicado para quem tem uma vida interior tão intensa. e nunca, nunca vai ser forever. se hoje o dia está bom é preciso comemorar. é sempre possível que no segundo seguinte tudo caia. e eu fico tão feliz quando o dia termina bem. quando passam as nóias por mim e quando as nóias vão embora daqui. quando eu penso que o mundo está bom e as coisas estão no lugar em que elas deveriam estar. quando o dia termina sem eu ter tido medo de não conseguir chegar ao fim dele. quando eu chego no fim de mim mesmo e consigo voltar ao começo uma outra vez.


a saudade que eu tenho de você é constante sem doer porque nos temos tão por perto. eu sou tão mais distante das pessoas daqui do que de você. ando meio sem saco para o mundo. para conversas. 


ontem fui ver um pianista eslavo. uma das peças q ele tocou tinha como inspiração os campos calmos da escandinavia e a segunda parte remetia a uma invasão de gnomos nesse campo tranquilo. foi lindo lindo lindo e eu chorei. e eu queria estar perto de ti nessas horas. pq sempre quando alguma coisa me emociona eu sou nós dois no tempo em que a gente era adolescente e sentia o mundo ser tão mais lindo do que ele era de verdade.

 

a saudade que eu tenho de ti está em um tempo que não consigo pegar. nem quero. mas para sempre, no sempre em que a saudade existir, eu estarei perto de você. e você saberá.


se sua filha começou no mundo das palavras te dizendo "pé", prepare o seu coração de mãe. prepare o seu mundo para suportar as distâncias que a sua pequena vai criar dentro dela mesma. eu quero ver grande. ela. eu. você. eu quero te ver comendo bergamotas e ela, entre uma viagem e outra, contando para nós sobre o mundo que não vivemos. e nós dois orgulhosos de tudo o que não fizemos.


aqui deve começar a chover. e eu vou para a aula de francês caminhando a pé esperando o mundo cair sobre mim e lavar os meus cabelos. 

terça-feira, 30 de setembro de 2008

os dias parecem sustos. 

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

os dias parecem mergulhados em sutis doses de pânico. na sala toca um vinil do pink floyd. ao lado o chá de rosas talvez seja a combustão para uma tarde inteira. ontem fomos menos um. o domingo terminou menos nós. 
hoje festejamos o ano-novo, mas estou longe da minha mãe. hoje ela não me acordou com um pequeno segredo. hoje não fomos nós dois a nossa festa íntima. pequenos segredos em campos vazios.

um cão late. será o vinil ou vem da rua?
um coração arde. será o meu ou será o fim do mundo?

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

chove muito, muito forte sobre o estado. no meio da tarde, dirigindo pelo centro, por volta das duas e meia, as luzes dos postes se acenderam pq anoitecia. o relógio digital marcava duas e trinta e poucos minutos e eu pensei que o mundo talvez estivesse virando um grande buraco negro. a luz parecia estar sendo sugada pelo céu. todos os carros acenderam os faróis e eu não tive medo. um sorriso leve surgiu no canto da minha boca. se eu visse carros voando e pessoas sendo engolidas eu não teria medo pq não estaria morrendo sozinho. e eu seria testemunho de um tempo que termina. e eu não seria um testemunho solitário.
às vezes basta saber que não estou só para nada mais me assustar. 

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

oh happy day!

da rua volto com isso:

lou reed and velvet underground (the best of early years)
the smiths
johnny cash (american III: solitary man)
mandelsson bartholdy (a middsummer night's dream)
echo and the bunnymen (songs to learn and sing)
miles davis (miles in berlin)
dvd - beach boys - endless harmony (the beach boys story)

mittwoch! mittwoch! mittwoch!


Existem pessoas que têm uma visão epidêmica do mundo. Eu não. Na casa de cima a cabeça da vizinha estourou. A minha não vai. Tomara que não.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

hg2life




















hedonist guide to life.
www.hg2life.blogspot.com

é o endereço de um guia hedonista que estamos desenvolvendo... eu e mais alguns.

quem quiser mandar dicas hedonistas ou fazer parte do time de hedonistas blogueiros, sinta-se convidado.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

geheimnis

É sempre estranho voltar para os lugares de onde não se partiu. É sempre preciso voltar, para entender quando ainda não fomos embora. Como chuvas que molham a mesma terra, eu volto a esse espaço depois de uma morte. É importância dar-se por vencido. Fechar etapas. Concluir ciclos. Voltar de onde se pensou ter ido. Rever os mesmos versos para escutar novas melodias.

E eu penso nos lugares onde estou preso para sempre.

Algumas pessoas quando pensam na idéia de não ter como partir nunca, se apavoram e se sentem presas. Eu não. Saber que nunca partirei de onde vim me faz livre. Eu posso correr o mundo. Posso estar com todas as pessoas. Posso beber um trago com os meus traidores. Posso ouvir cantar quem não precisa ser ouvido. Mas eu sempre terei para onde voltar. Ou nunca terei partido. Se nunca tiver. Você pode me ver nos locais mais improváveis. Eu nunca estarei lá. Onde quer que eu vá eu habito um terreno intimo. Solitário. Triste e frio. Você pode me ver sorrindo na televisão. Meu rosto estará lá, mas meus olhos não molharão o seu monitor. Você pode me ver dançando no baile de sábado, mas os meus pés não serão coreografia nenhuma que não os passos sempre repetindo os mesmos trajetos. O que muda são os caminhos. Não os sentidos.

Como nós que jamais serão desfeitos. Que não devem nunca ser desfeitos, eu serei sempre a minha origem. Como cicatrizes que não precisam cicatrizar para nunca mais sumirem. Estar cicatrizado implica a ferida eterna. E eu serei servo das raízes que me prendem a ela. Pq quanto mais forte o vento, mais firme é o meu terreno.

E eu penso no amor que sinto quando me descubro. O amor que sinto quando eu sei quem sou. A certeza de que dois não são um. Nunca serão. Por mais que os nossos caminham sejam quase um só e por mais que as nossas pernas quase se misturem um pouco antes de pegar no sono, no meio da noite os nossos corpos são dois corpos vazios que não precisam estar juntos para respirarem o mesmo ar. No meio da noite não importa em qual cama você deite. Se eu estiver em você, como você está em mim, a certeza de um outro eu perdido no mundo é o descontrole que eu guardo aqui, no lugar mais sagrado do que eu penso ser existir. Se no meio de uma tarde o seu olhar se misturar em outro homem eu não serei nenhum que não você. Olhe para o que te faz beleza, e eu serei ela, a sua beleza. Eu reconheço-me em ti em tudo o que faz. Eu respiro em você o ar que, às vezes, me falta. Se habitamos dois corpos num mesmo espaço, nada do que vier de ti poderá ser mal a mim.

É tudo sobre nós. 

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

www.inabitadoforever.blogspot.com

casa nova.

O mundo parece sério demais. Hoje termino esse Manifesto Silêncio. Ontem fiz as malas e me despedi do filme, que chega ao fim por esses dias. Os textos que aqui postei são testemunhos nem sempre diretos do que foi o meu coração nesses dias de filmagens.

Vou começar a pensar em um outro blogue pois não sei viver sem um espaço virtual. Não sei mais viver sem escrever qualquer coisa que permita uma troca imediata com meus amigos.

Agora acabo de ver em um site a imagem de Madonna. É impressão minha, ou ela, assim como o mundo, também parece séria demais?

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

A noite aqui no alto da colina são os sapos. Eles falam para mim. Poucos escutam os sapos.  Mas eles falam para nós. Aqui no alto da colina nós vivemos um sonho e construímos um filme que é a nossa vida. Antes de qualquer coisa, nós filmamos a nossa vida. Nós vestimos os nossos sonhos. Nós dirigimos a arte dos nossos quartos. Os objetos são nossos desejos secretos. Fotografamos a textura exata de tudo o que nunca seremos. Ousamos ser o que sonhamos antes de sermos nós. Somos o que seríamos antes de agora.

Se as estrelas gritam os sapos brilham e apenas a troca de dois olhares é  o bastante para que a noite ganhe alguma graça e a vida encontre um certo sentido. Sonhamos antes de dormir. E dormimos pesado para o trabalho ser tudo o que for nós. É doce a vida. É belo o trabalho. São presentes os dias todos que ainda teremos aqui, no topo da colina.

Os que nos enxergam do longe nos chamam de hippies. Os nativos da cidade nos vêem como loucos. Nós sabemos da nossa dor. E choramos sobre o que foi de nós. E dançamos todas as noites. Temos um mundo para comemorar. E temos um sonho que, a cada dia, a cada objeto, a cada peça de roupa, a cada take, se torna um pouco mais real. Mas nunca o bastante. Seremos um eterno sonho. Mesmo depois do sono do trabalho terminado.

Corta. 

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

O dia amanheceu nublado naquele mês de julho. Como em todas as manhãs de julho, não faria sol. Ele acordou e, sem abrir a janela, sabia que a cidade ainda era a mesma. Havia dias em que, quando acordava, imaginava estar em algum lugar que não era o seu quarto. Lembrava da casa da avó, onde cresceu, e acordava lá. Lembrava do verão na praia, e o calor voltava ao seu corpo. Depois o piso frio o traria de volta. Algum acampamento quando os seus pais ainda eram jovens e a barraca na beira do rio era a diversão dos feriados prolongados. E ele acordava sentindo o sol atravessar a lona colorida no quarto de tecido. Em certas manhãs quando, na confusão dos olhos ainda se abrindo, na penumbra da escuridão das luzes apagadas se misturando com a claridade do dia nascendo por trás das cortinas, nessas horas ele via o que não estava lá. A toalha jogada sobre a cadeira era um pequeno cavalo branco. A mochila atrás da porta talvez fosse um cachorrinho verde sonhando com ele. Ele era um garoto que imaginava. Ele era um garoto.
Abriu os olhos e ficou um tempo olhando para o teto. Calculou mentalmente o numero de manhãs em que ficou assim, deitado sob as cobertas olhando para a tinta descascando sobre o seu corpo. Respirou fundo e o ar gelado da manhã de julho ressecou ainda mais a garganta. Tentou engolir um pouco de saliva, mas a boca estava seca. Tentou mexer os pés, mas as pernas ainda dormiam. Um quero-quero gritou no campo de futebol atrás dos seminário e ele pensou nos meninos indo para escola. No avô e o seu chimarrão antes do dia começar. Lembrou de quando tinha amigos. De quando ainda era normal. De quando não via cada dia como mais um dia sempre o mesmo. O computador estava desligado. Na parede o homem com o raio no rosto observava a penumbra sem ter que abrir os olhos. Sem precisar estar lá. A fotografia do homem ainda dormia e ele pensou em coisas que não era capaz entender. Ainda. Debaixo dos cobertores, debaixo da calça de moletom, do lado de dentro da cueca, fazia sol. Faria. Enfiou a mão e se apertou com força. Depois parou. Quando o despertador no quarto dos pais tocou alto, ele retirou a mão e ficou deitado de bruços esperando que ela viesse e lhe acendesse a luz. O dia deixaria de ser penumbra para voltar a ser real. O quarto perderia as sombras e o contorno dos objetos teriam a dimensão exata do que eles eram. A toalha sobre a cadeira nunca mais seria o pequeno cavalo branco. A mochila atrás da porta voltaria a ser a mochila atrás da porta. A escola. Os colegas. O caminhos. Fechou os olhos e sentiu sono. Um sono profundo. E dormiu. Dormiu profundamente quando, atrás dos olhos fechados, a escuridão ficou vermelha e ela sentou-se na sua cama e enfiou os dedos entre os seus cabelos. Ela estava lá. Ele não.
Depois ela saiu do quarto e os seus passos foram ficando cada vez mais distantes. Quando terminaram de atravessar o corredor ela já estava longe, e ele ficou sozinho outra vez. Devagarzinho os seus olhos foram se abrindo e aquela claridade da manhã era a claridade mais forte do dia. Ele sabia disso. Ele sabia que, em nenhuma outra hora do dia, a lâmpada do seu quarto iluminava tanto como na primeira hora da manhã. Coçou os olhos. Engoliu a saliva seca mais uma vez e, mais uma vez, a garganta ardeu e ele sentiu-se arranhado por dentro. Como se engolisse espinhos. O quero-quero gritou mais uma vez e o mundo parecia acordar. Ele não.
Do outro lado da parede o pai mijava. O barulho do mijo pesado sacudindo a água da privada lhe dava nojo e ele sentiu raiva. A primeira raiva do dia. Assim como a primeira claridade do dia era a mais forte das claridades, aquele primeiro mijo do pai era o mijo que mais lhe trazia raiva. Ou nojo. Ou vontade de estar em algum outro lugar do mundo. De viver alguma outra vida. Colou o travesseiro sobre a cabeça e o barulho abafado das penas sufocou qualquer possibilidade de que os ruídos da casa chegassem até seus ouvidos. Engoliu mais uma vez. Agora um pequeno fio de saliva lubrificou-lhe a garganta e os espinhos começavam a se dissolver. Tirou o travesseiro da cabeça para respirar um ar que não fosse tão quente. A luz do quarto havia se tornado um pouco menos agressiva. Sentou-se na cama e ficou olhando para o retrato do homem com um raio desenhado no rosto. Ele estava de olhos fechados, mas enxergava tudo. Tudo o que acontecia dentro dele. Fechou os olhos. Mas não era mais escuridão. Não era a fotografia. Ele não.

Na cozinha os dois fumavam tomando o primeiro chimarrão da manhã. Ela dizia que o primeiro chimarrão era o mais amargo do dia. Ele fumava o cigarro e os dois riam e cada um lia uma parte do jornal. Na mesa estava o leite gelado e o saco de pão. Se havia queijo, era na geladeira. Ele olhou para o pai e ele sabia que a primeira fumaça era a que tinha o cheiro mais forte. O cachorro pulou nas suas pernas e ele o empurrou para chão. Ficaram um tempo se olhando. Ele sentiu pena do cachorro e se perguntou há quanto tempo não fazia um carinho no bichinho. Depois ele atravessou a cozinha correndo e pulou no colo da mãe. Ela enfiou os dedos entre os pelos brancos sem desviar os olhos do jornal. O cachorro olhava para ele e ele olhava para o cachorro e ele sabia que a vida daqueles três era mais fácil do que a dele. A mochila pesava nas costas. O gosto da manhã continuava em sua boca e a saliva espessa da noite nos dentes azedava o dia começando. O pai soltou mais uma nuvem de fumaça e riu olhando para o jornal. Ele foi até a pia e encheu um copo d’água. A mãe murmurou algumas palavras e elas significavam uma espécie de conselho que ele deveria comer alguma coisa antes de sair e, antes que ele dissesse que não tinha fome, o pai respondeu que não queria nada e continuou lendo o jornal. Ele engoliu a água e o gosto azedo ficou menos forte, mas ainda estava lá. Ele levou a mão até a frente da boca e expeliu o ar tentando entender o cheiro do próprio hálito. Depois saiu de casa. Eles não.
No caminho para a escola as ruas estavam cobertas de névoa como em todas as manhãs de julho. O mercado estava aberto e dois homens descarregavam sacos de cimento para a reforma do telhado. Os homens respiravam e, a cada respiração, uma nuvem de fumaça saía de dentro deles sem que precisassem fumar. As crianças passavam por ele na direção da creche e as mulheres pareciam cansadas. As mães mais jovens traziam os seus pequenos embrulhados no colo como oferendas. Nenhuma sorria. Nenhum daqueles bebês choravam. Eles passariam o dia com mães que não eram para eles. Eles atravessariam o dia longe de quem lhes fez o mundo e eles sabiam que não adiantaria nada chorar. Por mais que gritassem, a creche era dos males o pior. Por mais que gritassem, as mães tinham uma vida para tocar. Por mais que fingissem, todos sabiam que o pior estava feito. Que o pior era feito. Que o pior sempre seria feito. Melhor aprender cedo. Antes que a vida os pegasse de calças curtas. Todos sabiam disso, mesmo sem entender. Menos eles. Eles não. Os pequeninos.
Atrás dos muros do seminário o terreno baldio eram quero-queros gritando. Gritando Gritando. As mães carregando os pequenos pacotes embrulhados em tecidos macios e de cores claras. Os quero-queros gritando e os pequeninos dormindo. Os quero-queros gritando e elas não precisavam chorar tão alto assim para que fossem possíveis de pena, não de culpa. Ninguém precisava chorar alto para ser ouvido. Os quero-queros gritavam por todas as dores. Ele caminhava e, antes de dobrar a esquina, observou, no terreno baldio, um homem vestindo preto caminhando em círculos que espantava os quero-queros. Os quero-queros gritavam como nunca haviam gritado até então. Ele parou e ficou observando o homem caminhar os círculos sob quero-queros enlouquecidos. Lembrou dos ferrões escondidos sob as asas daquelas aves. Seria verdade? Seria verdadeira a história contada sobre o ferrão que machucava quem incomodava aquele tipo estranho de pássaro? Se fosse, aquele homem desenhando círculos sobre a grama, aquele homem alheio o frio, quebrando a geada com os pés, aquele homem parecia não saber dos perigos escondidos sob as asas cinzas das aves que nunca dormem. O sino da igreja tocou mais uma meia hora e os ponteiros eram a hora exata que a aula devia começar. Ele correu duas quadras e, quase sem fôlego, sentou-se na cadeira no instante em que o professor de matemática soltava a pasta sobre a mesa. Os colegas conversavam entre si. Ele estava sozinho. Seu pensamento andava em círculos e os seus olhos, mesmo sem enxergar, ainda miravam aquele estranho homem vestido de preto, espantando os bichos no terreno baldio. Aquele homem não tinha medo. Ou não conhecia os perigos escondidos onde não se pode imaginar.





A aula transcorreu sem problemas para ele. Fazia tempo que havia desistido de ser aceito como um dos meninos do colégio. Não fazia parte das rodas. Nos trabalhos em grupo usava da simpatia das meninas para não ficar sozinho. As meninas eram mais receptivas. Entendiam as suas fraquezas. Ou talvez enxergassem as suas fraquezas como um tipo de força. As meninas eram mais inteligentes, ele sabia disso. Elas enxergavam o que os meninos não podiam perceber. Ele enxergava o mundo como elas viam. Ele também sabia desenhar. Ele também tinha a letra bonita e ele também gostava dos livros. Como elas, ele também se perdia na paisagem e na neblina e no bosque escondendo árvores do outro lado do vidro. Os professores falavam e ele se perdia na paisagem cor de nuvem. Nos morros. Nos gritos dos quero-queros. Nos desenhos que tomavam conta de seus cadernos. Nas vontades proibidas. De vez em quando se pegava olhando para os tênis de Eduardo. Os pés grandes do garoto. O couro branco. O cadarço gasto. As meias azuis. Quase o céu. Depois arrumava o cabelo e o professor escrevia fórmulas que ele nunca entenderia. A aula inteira era o medo constante de sobrar. A manhã inteira era a vontade de não estar lá. Todos estavam onde ele jamais poderia chegar.
Como tudo o que parece não ter fim, as aulas foram passando. As trocas de professores. A prova depois do recreio. O recreio e a coca-cola. O banheiro vazio. Esperava os meninos voltarem para a sala de aula para ficar sozinho lá dentro. Enquanto mijava pensava nas horas que ainda faltariam para ele estar livre. Não calculava somente as horas daquela manhã. Sabia que não adiantaria terminar aquela manhã. Muitas outras ainda viriam e ele sabia que a metade do colegial era aquele instante. Julho. Logo as férias de inverno chegariam e ele teria completado a metade de um círculo maldito. Ele estaria no segundo semestre do segundo ano do segundo grau. Ele sabia que aquela era a pior época da sua vida, mas pelo menos passada a metade tudo já seria o começo do fim. Seria difícil, mas ele suportaria um pouco mais.
Não. Ele não faria nenhum tipo de concessão para ser aceito. A cidade era pequena. Quanto menor a cidade, menores as pessoas. Quanto menores as cabeças maior a ignorância. E a ignorância sempre foi vizinha da maldade. Ele sabia disso. Era a frase que ele tinha escrito em todas as capas de todos os cadernos. Não havia compaixão. Jamais haveria. Seus olhos estavam fechados para a cidade. Sobre a pele branca do rosto ele tinha um raio desenhado. Todos podiam ver. Todos sabiam que ele não era um deles. Que, cedo ou tarde, ele estaria longe.
Olhou-se no espelho do banheiro da escola. Do outro lado da parede os passos corriam o final do recreio. Ninguém chegaria atrasado. Ninguém, menos ele. O raio cortava o seu rosto ao meio e a fotografia colada na parede do quarto era ele. O homem de rosto magro, olhos fechados e cabelos de boneca, era ele. O homem sorrindo sem mexer os lábios com um raio dividindo-lhe a face, era ele. Ele era tudo o que ninguém jamais seria naquela escola. Naquela cidade. Naquela família. Ele havia nascido com algum tipo de dom, alguma iluminação, algum olho de cada cor. E, com toda a dor do mundo, atravessava os piores dias da sua vida. O colegial antes do fim.
Quando a escola finalmente silenciou ele saiu do banheiro. Entrou na sala de aula antes de as provas serem entregues. Sentou-se. Olhou para a folha e perguntou-se a si mesmo se valeria a pena tentar se enganar. Fechou os olhos. Olhou para os pés de Eduardo batendo contra a cadeira da garota sentada à sua frente. Eduardo olhou para ele e ele olhou para a paisagem branca do outro lado da janela. E, mais uma vez pensou em tudo o que faria quando finalmente estivesse longe dali. Ele seria alguém. E o seu nome seria conhecido. E todos saberiam quem ele foi. Resignou-se e voltou à prova. Escreveu algumas linhas. Escreveu. Escreveu. Escreveu. Era somente isso o que ele sabia fazer.
Do outro lado do vidro da janela o homem fechava os círculos e os quero-queros finalmente se acalmavam. Entregou a prova e guardou os cadernos na mochila verde. A escola ficou para trás. Um dia a menos. O tempo passava devagar. Demais.
O dia avançava perto da sua metade. O sol devia brilhar do lado de cima da espessa camada de nuvens, mas ele não estava lá. Ainda. O céu pesava e parecia mais baixo, ainda mais perto da sua cabeça. Olhou para o alto tentando encontrar alguma diferença entre as nuvens do alto e as nuvens à sua frente. O nevoeiro ganhava vento e ele levantou os ombros. Pensou na sua casa. Nos seus pais. Nos dias que ainda faltavam antes de a escola terminar. Em tudo o que ainda o distanciava do que ele viria a ser. Avançou o primeiro passo para a escola ir ficando, pouco a pouco, cada vez mais distante.
As fachadas das casas pareciam lavadas. A neblina escondia quase todas as imperfeições da paisagem. Rachaduras. Jardins queimados pelo inverno. Janelas quebradas. A neblina deixava o dia mais parecido com ele. Diluído. Avançava lento, como se fosse a última pessoa a habitar aquele espaço. Ou o primeiro homem a visitar o local da tragédia. As casas todas fechadas poderiam ser as pessoas todas mortas. A névoa assassina. Teve mais uma idéia para um filme que nunca faria. Em dias frios e cinzas as idéias vinham numa velocidade impressionante.
Um pouco antes do terreno baldio, nos fundos do seminário, notou estranhos ruídos abafados atravessando a cerração. Os pássaros estavam quietos. Ou não estavam mais lá. Seus passos pararam e ele olhava para o branco vazio tentando entender a senhora mais velha caminhando em círculos no exato local onde antes, quando o dia nascia, o homem espantava as aves. Ela caminhava um pouco mais devagar e mexia os braços como se falando sozinha. Ele avançou alguns passos. A cidade parecia não existir. E se todos estivessem mortos? E se todos aqueles círculos fossem alguma espécie de alucinação? Ultimamente vinha sentindo os dias como se fossem sonhos. A anciã desenhava círculos no que poderia ser o centro de uma comunidade. Ou de uma ilusão.



De dentro do seu quarto o cheiro da fritura vinha acompanhado da fumaça do cigarro dos dois. De vez em quando ela ria e ele tossia. Ele devia estar gripado, pensou. Depois os passos da mãe vieram pelo corredor e ele sabia o que aconteceria. Ela abriu a porta sem bater e não foi preciso que falassem nada para ele saber que o almoço estava na mesa. Fechou a janela do computador, arrumou o pênis dentro da calça e atravessou o corredor escuro. Nas paredes ele sorria. Até uma certa idade. Até a idade em que merecia figurar em fotografias expostas nas paredes da casa.
Ele continuava com o jornal. Ela deu mais um gole no copo de uísque e o pai leu em voz alta o trecho de uma reportagem que fez os dois rirem com um pouco de vontade. Encheu um prato de comida enquanto ela acendia um cigarro. O pai fechou o caderno de esportes e sentou-se à sua frente. Os dois comiam enquanto a mãe fumava brincando com os gelos dentro do copo. Da janela da cozinha ele observava a névoa um pouco menos espessa. O sol não estava lá. Nem estaria. Pensou nos círculos e teve vontade de perguntar aos pais se eles haviam visto o mesmo que ele. Fazia alguns dias que pensava estar vivendo um sonho sem fim. Não que a sua vida parecesse um sonho. Nem que fosse um pesadelo. A realidade parecia um pouco disforme e difícil de ser entendida. Se os círculos não estivessem lá, melhor não atrapalhar o almoço. Como uma doença que ele conhecia, tentava disfarçar para si mesmo uma saúde que não existia nele. O homem e a anciã andando em círculos. Talvez fosse um sonho. Ou talvez a realidade estivesse se tornando, pouco a pouco, um pouco mais interessante.
A mãe apagou o cigarro na água suja entre as louças da pia e sentou-se na mesa com os dois. Os três comeram em silencio e o barulho das mastigações misturado com a tosse do pai e o silêncio dos quero-queros tornava o dia o primeiro de um novo tempo. Ele sabia, mesmo sem querer, que um novo tempo começava. Ele esperava sem saber o quê. Alguma coisa não estava mais igual. Nunca mais estaria. Fechou os olhos e sentiu na sua face o raio azul se desenhar igual ao rosto colado na parede do seu quarto. Ele sentia como se cada momento daquele dia fosse para nunca mais ser esquecido. E observava com mais atenção as unhas mal-cuidadas da mãe. Os pelos saindo pelo nariz do pai. A rachadura atravessando a porcelana branca do prato. As bolinhas de gás dentro do guaraná. De onde elas vinham? Para onde elas iriam? E sentiu saudades de um tempo que era vivido naquele instante. E, pela primeira vez, observou atentamente o passado cobrir o presente e transformar o silêncio em saudade.

Quando o almoço terminou ele voltou para o quarto. Na passagem pelo corredor ele sabia que os seus sorrisos dentro dos retratos não eram mais ele. Sabia que um dia voltaria àquelas imagens para sentir saudade, mas hoje não. Hoje seria melhor não perder tempo com sentimentos que dificultariam ainda mais os seus dias. Bastava a solidão. Bastava a escola. Bastava os seus pais. Com a sabedoria dos que ainda são crianças, instintivamente optava por não criar mais problemas. Não que eles não existissem. Eles existiam. Eles estavam lá. Todos os sorrisos eram a prova concreta de que um dia ele acreditou em alguma coisa e teve pelo menos um momento pleno de felicidade. Ele ainda não sabia que, por mais que negasse, aquelas fotografias eram o último vestígio de um tempo vazio de dores. Ele ainda não ousava se reconhecer tão profundamente.
Entrou no quarto e bateu a porta com força. Tirou o uniforme da escola. Tirou o all-star ainda úmido. As meias estavam molhadas e os pés gelados. Ficou um tempo sentado sobre os cobertores ainda desarrumados da noite anterior. A cama tinha um cheiro azedo e o travesseiro acumulava peles mortas do seu rosto. Desligou a luz e ligou a televisão. O rosto com o raio brilhava na parede e mudava de cor conforme as cenas na televisão. Ficou olhando para os olhos fechados daquele homem magro mudando de cor e cantarolou com a boca fechada alguma canção que havia muito tempo não escutava. A guitarra encostada na parede nunca mais tocaria as canções do homem no retrato. A cama bagunçada não o cobria, sempre uma parte do seu corpo ficava exposta e o frio entrava pela janela.
O jornal da tarde começou e ele ficou olhando para o rosto dos apresentadores. Tirou o volume da televisão para ficar olhando somente para aquelas bocas se mexendo. Hora sérias, hora leves. Fechou os olhos e entrou com as mãos dentro das calças. Ele estava pronto para ser feliz. Os ruídos da casa foram ficando cada vez mais distantes e ele pensou em tudo o que sentiria vergonha depois. Dobrou os joelhos e criou uma cabaninha para que o barulho da fricção dos dedos raspando contra os cobertores não fosse tão alto. De vez em quando ele parava para prestar atenção aos ruídos da casa. O barulho das louças na cozinha indicava que ela estava longe. O pai nunca entrava em seu quarto sem antes bater. Os homens sempre se entendem um pouco melhor. Se o mundo fosse feito de homens ele talvez seria mais importante para os outros. Ele supriria carências que somente as mulheres podem suprir aos homens. A possibilidade de um mundo masculino o enchia de tesão e a sua mão trabalhava com muito mais intensidade. A casa foi ficando cada vez mais silenciosa. Os ruídos da louça na cozinha não estavam mais lá, mas ele, perdido na escuridão sob os cobertores, não atentou ao perigo.
Quando os passos da mãe rangeram as tábuas do corredor ele não sabia que é preciso o dobro da atenção nos momentos de loucura. Quando a mãe atravessou o corredor ela não podia imaginar que, do outro lado da parede onde a criança sorria para cada retrato, o seu filho crescia e os cobertores, que antes cheiravam à criança, agora absorviam secreções. Ela não conhecia a espessura dos líquidos que o filho produzia sozinho, no silêncio do seu quarto. Ela não sabia o que ele guardava por trás dos olhos quando eles se fechavam. Ela não enxergava os olhos fechados do menino. Ela não notava a falta de sorrisos no rosto do filho. Acostumada aos retratos na parede, eram aquelas as imagens que, para ela, faziam o garoto. Aprisionado em fotografias que não eram mais ele, ele não conseguia demarcar novos territórios. Ele ainda não conseguia mapear um novo terreno para um afeto que não estava mais lá. Ela fumava. Ele olhava para o chão. Ela terminava mais um copo de uísque. Ele entrava no quarto. Ela chorava vendo os retratos da família. Ele não entendia.
Um pouco antes de terminar a fricção, a porta do quarto se abriu com força e ele arrancou a mão de dentro da calça. Ela fechou a porta antes que pudesse entender o que acontecia sob os cobertores do garoto. Ele fechou os olhos para nunca mais abrir. Mais uma vez. Mais uma vez para sempre. E o que ambos pensavam sobre o outro jamais deixaria de ser apenas uma vaga suposição.
Ele fechou os olhos. O homem na fotografia abriu os seus. E o garoto entrou nos sonhos de uma imagem que não existia mais.


terça-feira, 29 de julho de 2008

o mundo anda estranho nesses últimos dias. não sei se é a ausência do frio nesse mês de julho. o julho mais quente da minha vida. não sei se é a ausência de vontade. mas tudo anda tão estranho. as pessoas. as confianças. as esperas.

eu ainda acho que eu espero demais de quem está perto de mim. eu ainda espero que faça frio. que vente. que chova. que o pasto amanheça coberto de gelo.

sofro quando há uma nova realidade dentro daquela que existiu até tão pouco tempo atrás. nesses dias de calor, quase nada é o que parece ser. mas vamos levando. de vez em quando eu rio. de vez em quando você está comigo. e quando ficamos juntos e quando olhamos para o mesmo futuro as coisas até parecem fazer algum sentido. e fazem.

resolvi parar com tudo o que me tira do mundo real. isso implica muitas coisas. muita coisa tem me tirado do mundo real ultimamente. isso implica eu mesmo tentar controlar um pouco a minha cabeça.

passei dois dias tremendo. agora parou. hoje de meio-dia pensei que iria morrer, mas não foi tão forte como há dois dias atrás. há dois dias atrás eu vi alguma coisa feia puxando a minha perna e eu tremi por quatro horas sem parar. e comi sal, mas nada mudou. e bebi leite, mas nada mudou. e rezei, mas eu ainda não acredito. e eu pensei em chamar uma ambulância. e eu pensei que realmente estava morrendo. mas não foi dessa vez. 

quando se está em processo de limpeza parece que as sujeiras vão tomando novas dimensões. o que antes não era notado assume características um pouco gigantes demais. pequenos problemas me desestabilizam e eu queria que alguém me dissesse que estou fora de mim ou que alguém me pegasse pelos ombros e me sacudisse até que eu saísse de mim e deixasse de ser eu para voltar a mim mesmo.

agora eu vejo máscaras onde antes havia um rosto. agora eu choro acordado onde antes era um sonho. vai passar. o tempo vai mostrar e vai nos dividir e eu vou voltar a ser eu mesmo. sozinho. vazio de vícios. limpo de virtudes. essencial. o bastante para que eu me baste só. só nós dois. o que vem de fora nos separa. o que nos mata não nos fortalece. eu quero e eu rezo e eu vou estar do lado do bem. e vou descansar em paz aqui na terra antes de voltar para o mesmo ponto de onde partimos. aqui na vida do agora eu quero a paz do eterno. eu não quero e eu não vou morrer ainda. hoje não. amanhã também. e assim por diante.

mas agora eu estou morto.

sábado, 26 de julho de 2008

ontem tive a tarde de folga aqui em cotiporã. depois do almoço voltei para a cabana com meu amigo. ficamos batendo papo e bebendo chá. quando as moças da limpeza pediram que a gente fosse dar uma volta no pomar, saímos pelos arredores da pousada até encontrar um portão que delimitava a propriedade. nos olhamos. e avançamos. talvez fôssemos nós dois 15 anos atrás. atravessando quintais. explorando pequenos riachos. descobrindo árvores grandes demais para nossos braços de criança.

caminhamos por uma trilha estreita e fazia sol e o sol esquentava pouco. as árvores mais espinhentas eram as que mais nos chamavam a atenção. como se fossem espelhos nossos, as espinhentas eram toda a proteção que vamos criando. nos reconhecíamos na vilania dos espinhos. crescíamos no afiado das pontas. eram elas tudo o que precisávamos ser se a nós fosse dado o direito de crescer. é bom trabalhar com amigos. era o dia de folga dele. era a minha tarde livre. a primeira de muitas. 

avançamos a trilha até chegar a um grande chiqueiro do outro lado do matinho. os porcos gritavam enlouquecidos e talvez fossem nós antes dos dezoito. talvez fossem nossos chinelos arrebentados. nossos pés quando pisados sobre prego enferrujado. nossos dedos quando picados de abelhas. nossas tristezas de crianças. o medo de que a mãe morresse. o dia em que deveríamos partir. as tardes quando passariam a ser de trabalho. ontem, no meio da tarde, explorando terrenos, eu poderia ter me dado conta de que a infância continua aqui. nos dias livres. nas poucas horas de trabalho que bastam para pagar as minhas poucas contas. gasto tão pouco. tenho quase nada. quase lugar nenhum me prende. e a cabeça transborda idéias que ainda me renderão mais dias de trabalho e contemplação.

ontem de tarde eu era feliz com meu amigo. nós dois perdidos no infinito dos quintais desconhecidos.

ao lado do potreiro a bergamoteira pendia os galhos e a quantidade de frutos era um fardo que ela não deveria jamais suportar sozinha. avançamos. avançamos nossas mãos e os frutos cor de laranja eram gomos e gomos eram massagens refrescantes do lado de dentro das nossas gargantas. no meio do matinho havia uma casa. eu tive medo.

- melhor a gente ir embora, eles podem nos dar tiro. estamos em um terreno privado.
- cala a boca guri. isso aqui é terra de italiano. italiano recebe a gente rindo.
- é verdade. esqueci que aqui não tem alemão.
- é. alemão é quem sempre desconfia de quem aparece no potreiro para comer bergamota.
- ainda bem que a gente tá longe deles.
- é. mas eu tô com saudade da minha mãe.
- a tua mãe é alemoa, mas ela é louca.
- sim, ela veio de berlim.
- por isso.

depois a gente ficou cansado de comer bergamota, mas o meu amigo ainda encheu os dois bolsos do casaco para comer de noite se desse fome. ou saudade.

na volta vimos um porco dormindo sob o sol. quando chegamos mais perto notamos a rigidez das suas patas e ele estava morto. duro. debaixo do sol os seus pêlos brancos pareciam feitos de cera e uma tristeza tomou conta do meu coração. 

depois voltamos para a cabana e ouvimos mais uma música que nos deixou animados para pegar o carro e ir conhecer veranópolis. e foi legal. comprei cuia, bomba e erva. e agora é sábado de manhã. acordei para ver o sol nascer daqui do alto. as araucárias sob a primeira luz da manhã são deus quando posso enxergar. os quero-queros estão mais silenciosos hoje. deve ser o sábado. deve ser o inverno. alguns pedaços da grama perto do açude continham vestígios de geada, mas o frio do ano passado ainda não chegou. nem deve chegar.

quando o sol terminou de nascer eu voltei para a cabana e fiz o meu primeiro chimarrão. coloquei cat power e li as notícias do mundo sentindo o gosto amargo da solidão das rodas de chimarrão quando não há com quem trocar. o chimarrão e a solidão aqui no topo da colina são menos tristes.

pensei em são paulo. pensei em berlim. e pensei em mais um vício que vai me trazer saudade para quando eu estiver longe daqui. 

é tão fácil se apegar. 

quinta-feira, 24 de julho de 2008

o dia nasce. os passarinhos me acordam. eu te beijo antes de fugir pela janela do seu quarto. ninguém pode saber de nós. nem nós mesmos. ninguém deve saber, nem nós mesmos, mas o paraíso mora aqui.

tomamos o mesmo café sem que em nós se conheçam os lençóis percorridos da noite passada. os nossos olhos se entrelaçam e as linhas que me aquecem são as mesmas que te fizeram dormir. adormeço entre o cheiro dos seus cabelos. ninguém deve saber, mas o paraíso mora aqui, nas minhas mãos quando guardam em mim o cheiro que um dia foi teu.

de manhã eu descanso para você trabalhar. de manhã eu sonho com preocupações que não tenho. com prazos que não me são cobrados. com os sonhos quando são reais. com a vida que invento e finjo tão bem que todos acreditam nela. menos. ninguém deve saber, mas o paraíso mora aqui.

de tarde caminho por essa nova cidade onde estou antes do fim. compro vinho e taças novas para a noite no supermercado vazio. compro mais um aquecedor portátil para o chá. compro flores para o vaso. compro um vaso para as cores. troco os móveis de lugar até fazer daqui cenário perfeito onde você nunca irá habitar. você não deve saber, mas o paraíso mora em ti.

os cheiros da limpeza. as camareiras varrendo assujeiras. a grama sendo cortada do outro lado da janela. os passarinhos. o sol se pondo na fenda exata entre a cortina amarela e o vidro. o paraíso mora lá, mas ninguém pode saber.

a estrada. as flores que roubei. o dia que acabou. o paraíso esteve aqui, mas eu não pude suspeitar.

a noite antes do ocaso. o acaso. o nosso. 
o paraíso coube aqui, mas você não pôde enxergar.

terça-feira, 22 de julho de 2008

COM O FILME FOI-SE O BOSQUE

 

As filmagens do longa-metragem baseado no meu segundo livro, “Os Famosos e os Duendes da Morte” chegaram ao fim aqui em Lajeado. Foram três semanas de grande intensidade para as mais de cinqüenta pessoas, vindas dos mais distantes pontos da America Latina,  para dar vida a um a história que escrevi contando um pouco do que foi a minha adolescência aqui nessa região. Agora Lajeado será eterna nas telas de cinema do mundo inteiro. Dentro de pouco tempo milhares de dvd’s chegarão às locadoras de todo o país, difundindo nossas belezas e o nosso povo. Agradeço do fundo do meu coração por toda a comunidade que se mobilizou para que a nossa cidade aparecesse mais bonita para o mundo. À toda a figuração, aos restaurantes que tão bem nos alimentaram, ao hotéis, motoristas, aos atores, aos músicos da região. Lajeado estará belíssima na tela. Nós, lajeadenses, teremos um pouco mais de orgulho ao dizer que somos daqui.

Eu poderia estar feliz. Nesse último dia em lajeado saí para andar pelas minhas ruas. Essa cidade é minha, assim como é das mais de setenta mil pessoas que fazem daqui o seu lar. Caminhei para me despedir antes de voltar à Berlim onde darei continuidade a mais um projeto envolvendo literatura e cinema.

Eu deveria estar feliz. Mas não estou. Caminhar por Lajeado me encheu de uma tristeza profunda. De uma raiva frustrada. Caminhar por Lajeado me fez entender que esse não é mais o meu chão. Essa não é mais a minha terra. Pena. Triste.

Descendo a Avenida Bento Gonçalves, quase na rua Alberto Torres, o céu parecia mais nítido. Alguma coisa parecia diferente na paisagem. De longe era um pouco complicado entender o que estava diferente.

Alguns passos foram o suficiente para que eu entendesse a gravidade daquela estranha visão. Alguém havia roubado um pedaço da nossa paisagem. Alguém havia tirado de nós o nosso bosque. Não importa quem seja o dono. Não importa no nome de quem estava a centenária araucária localizada no exato ponto em que a Bento Gonçalves se encontra com a Alberto Torres. Não importa dar nome aos bois. Nem aos burros. Nem aos ignorantes.

A araucária não está mais lá. Junto com ela foi-se o bosque. Junto com o bosque foi se uma paisagem. Junto com a paisagem foi-se mais um pedaço de Lajeado. Mais um pedaço de mim. Mais um tanto da nossa história.

Pelo menos o filme está feito. Pelo menos um pouco de nós eu consegui prender nos meus livros. Pelo menos havia um senhor com a sua bengala, e ele também olhava atônito para aquela paisagem de destruição. Fiquei parado ao lado dele como quem vela um morto sem ainda ter se dado conta da sua morte. Olhávamos para uma paisagem que não estava mais lá. Ele tremia e os seus olhos choravam. “Estão acabando com tudo”, ele disse, e me perguntou se eu tinha estudado naquela escola. Respondi que não. “Ainda bem”, ele me respondeu. “É triste ver o que a nossa escola está fazendo com ela mesma”. Ele tirou os óculos e foi embora. Seus passos lentos não olharam para trás. Eu fiquei mais um tempo sentindo a terra e as raízes expostas daquelas árvores que um dia foram um bosque. Que um dia foram Lajeado. Que um dia foram minhas. Os galhos todos no chão. As lembranças desaparecendo devagarzinho, para nunca mais voltar.

Olhei para o colégio Alberto Torres e senti muita raiva. Senti muita vontade de gritar. Senti vontade de escrever sobre a ganância. Sobre a absoluta incoerência que leva uma escola a depredar a paisagem da minha cidade. Senti vontade de questionar os alunos, os professores, os funcionários. Eu queria saber se todos concordavam com aquilo. Será que os professores também foram a favor da queda de todos os séculos que aquela araucária carregava? Será que os alunos sabiam e achavam certo que um bosque inteiro fosse removido do coração da nossa cidade? Pouco a pouco a minha raiva foi dando lugar a uma grande pena e a uma triste constatação de que estamos todos perdidos. De que não somos donos de nada. De que as nossas lembranças não estão nas nossas mãos. Quando a escola mais tradicional da cidade destrói a própria história a olhos vistos, pouco resta a ser feito a não ser lamentar. E chorar profundamente sobre a ignorância do ser humano. Sobre, como disse Caetano Veloso, “a força da grana que ergue e destrói coisas belas”. O desejo incontrolável de se destruir e de se destruir e de se destruir a qualquer preço, custe o que custar. Doa a quem doer.

Chorei lembrando da araucária e daquele bonito bosque que deixava um pouco menos triste a nossa cidade. Agora acabou. Em breve teremos mais paredes. Em breve mais alunos sentarão em mesas onde um dia houve um bosque. Em breve todos esqueceremos. E todos seremos esquecidos. As tradições serão perdidas. As reputações serão destruídas. As escolas não mais serão exemplo de educação e respeito ao meio ambiente, nem ao próximo, nem à cidade que a fez crescer.

À tarde telefonei para a escola. Havia uma esperança. Talvez aquela área de terra não pertencesse ao Alberto Torres. Talvez fosse de propriedade de algum empresário ávido pelo lucro. Talvez o Alberto Torres não fosse o responsável por mais essa barbárie. Talvez ele não fosse o assassino de um bosque.

Quando o funcionário da escola atendeu ao telefone tivemos uma breve, porém esclarecedora conversa:

-       boa tarde. Gostaria de saber se os responsáveis pelo desmatamento do bosque na esquina da Bento Gonçalves com a Alberto Torres foi a própria escola.

-       Sim. Mas aquilo não foi desmatamento. Foi a remoção de arvores para construção de um prédio.

-       ah, que pena.

E assim terminou o nosso triste diálogo. E assim vou me embora de Lajeado carregando na bagagem um pouco menos de vontade de voltar. E assim me preparo para sempre perder um pouco mais. Para sempre me decepcionar com a ignorância humana. Para sempre esperar pelo pior de quem somente deveria nos ensinar a plantar. Nos ensinar a preservar. Nos ensinar a manter o pouco que ainda temos de belo. Pobres alunos. Pobres professores. Pobre senhor Alberto Torres. O seu nome ficou mais feio depois desse inverno. Nosso ar ficou mais sujo depois desse julho.

Mas logo esqueceremos. E tudo seguirá igual. E nem vai doer tanto assim. Foram apenas algumas árvores. Foi apenas uma remoção para construção de um prédio. Melhor assinar abaixo-assinados em favor da Amazônia...

 

Trise. Triste fim para um filme que poderia ser belo. 




























segunda-feira, 21 de julho de 2008

para quê a gente tem um blogue?

sexta-feira, 18 de julho de 2008

então vai  continuar tudo assim.
antes a porta da garagem abriu e quando a porta da garagem é hora de tentar voltar a habitar esse mundo e tentar fazer de mim uma pessoa normal. um filho como o filho da vizinha. mas ele joga bola. e eu nem sei o quê eu sou. ele sempre jogou bola. e nunca soube que eu sou.

quando a porta da garagem abre eu desligo o som. fico um tempo parado pensando se deveria fingir estar dormindo. lembro do desodorante. espirro desodorante por todo o quarto o que não me dá NENHUMA espécie de prazer. o cheiro é frio demais e o preço é bem caro e isso é uma daqueles coisas que eu penso quando tento definir o que pode ser "jogar dinheiro fora". às vezes as minhas frases são longas demais e eu esqueço o que estava falando no meio dela. há algum mal nisso? você leva a sério as perguntas que eu te faço? você acredita na anticarpintaria dos espaços virtuais? você acredita na anticarpintaria da vida? você ri quando me ouve falar? você chora toda a vez que fica em silêncio? eu queria saber mais sobre você. mas tenho vergonha de te perguntar. eu não sei por qual nome te chamar. nunca saberei.

o problema é sempre ter que demandar energia demais para as coisas da vida. deve ser por isso que tenho estado cansado. pela primeira vez na vida eu tenho um nome a guardar. e cansa guardar o próprio nome. como é complicado manter esse filha da puta. como é difícil sempre se irritar além do tamanho real de cada problema. é tudo grande demais. e é complicado suportar quando fica assim. controlar a minha conta é coisa que nunca fiz. nunca tive a minha conta e a minha conta nunca teve dinheiro ganho do meu trabalho. todo o dinheiro que ganhei passou por mim para o que eu devia e eu nunca pude planejar nada para a frente pq todas as dívidas pendiam nas minhas costas. e eu era mais leve. e eu ria mais. e eu acreditava que a felicidade estava longe. num lugar que seria para inabitado forever. inabitado forever. felicidade. e eu era mais feliz. ou menos triste.

quando alguma amiga que teve filhos entra no msn eu nunca puxo assunto. parece que estou sempre roubando de outro filho um tempo que não foi meu.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

 

Eu estou no quarto. Ela chega em casa. Ouço o barulho do carro na calçada. Ouço o barulho da porta da garagem se abrindo. Ouço a risada do meu sobrinho quando ela desliga o motor do carro e o barulho termina. Procuro o desodorante por cima da mesa, aqui ao lado do computador. O desodorante que ela odeia. Quando o barulho da porta do carro batendo eu espirro o desodorante que ela odeia por todo o meu quarto. Os seus passos caminham pesados pelo corredor e ela larga sacolas na mesa da cozinha. Depois os passos voltam com força no corredor  e depois o barulho da porta do banheiro se fechando. O barulho dos passos pesados do meu sobrinho batendo com força na porta do banheiro querendo entrar. Ele chorando e eu pensando em abrir a porta e ele chorando e ela gritando e eu abrindo a porta e ele chorando sentado no piso do corredor e ela cagando do outro lado da porta. Ele não olha para mim. Continua chorando e olhando para a porta fechada.


Eu falei para ele: - duvido que você consegue parar de chorar antes de ter vontade de parar de chorar.


Ele olhou para mim e pensou por um tempo. Ficamos nos olhando por um tempo. Um tempo que foi curto se fossem contados pelos segundos que duraram. Ele olhou para mim e os dois olhinhos eram o medo de ficar sozinho quando somos os três anos de idade. A sua boca encurvada para o chão era a força mortal da gravidade sempre nos empurrando um pouco mais para baixo. Ela puxou a descarga e ele lembrou que deveria voltar a chorar e eu fechei a porta. A porta do banheiro se abriu e ela pegando ele no colo. As coreografias que vamos memorizando ao longo dos dias. As seqüencias e o seus movimentos a cada novo passo um pouco mais complicados.  Ela beijando o rosto do meu sobrinho e depois abrindo a porta do meu quarto.


E ela falou para mim: - tu tava fumando aqui dentro?

E eu respondi: - não.


Ela bateu a porta e os seus passos voltaram para a cozinha, mas dessa vez eles pareceram mais pesados por causa do peso do meu sobrinho que ela carregava no colo e por causa da raiva que eu sentia dela, um pouco mais.


Voltei ao texto. O barulho da louça batendo na cozinha foi ficando cada vez mais distante e a raiva que eu sentia dela ia se confundindo com uma raiva que eu sentia de mim mesmo e por um estômago ardendo um pouco por saber que sempre que eu preciso ser eu mesmo, eu não consigo. O texto seguia devagarzinho e eu sentia todas as palavras se contaminando um pouco mais de uma raiva que eu sentia de verdade e que nunca seria literatura.


Depois os pezinhos bem leves do meu sobrinho batendo contra o chão não eram mais barulho, eram uma musica triste e antiga, e ele voou até  a porta do meu quarto. Ele não voou como uma ave, mas como pessoas quando os seus passos se enchem de sentimento e quase se descolam do chão. Senti alegria naquela hora. Mas eu duvidei que fosse de verdade. Saltei da cama e abri a porta. Os olhos do meu sobrinho estavam ainda vermelhos e o mais triste era saber que eles ficariam assim para sempre. Ou ainda piores. Coloquei os joelhos no chão e, por muito pouco, não éramos feitos do mesmo tamanho. E nos olhamos dentro dos nossos olhos vermelhos quase como se fôssemos da mesma altura. E ficamos um tempo assim. Quando eu estava quase chorando ele sorriu. E o sorriso que ele sorria tinha tanta falsidade ou tanta ingenuidade ou tantas dessas coisas que as crianças sentem e que as tornam burras e inteligentes ao mesmo tempo. E eu chorei de pena do meu sobrinho misturada com pena de mim e com pena dela tirando as coisas das sacolas na cozinha. Eu chorei de pena do meu sobrinho por que ele só tem três anos e eu já tenho quase dez vidas a mais do que ele e a vontade de chorar e os olhos vermelhos nunca vão passar. Mas ele quer ser mecânico de avião e isso até que me acalma. Pelo menos ele vai ser homem.


Depois ele pediu para eu brincar de médico e fazer caricias nos seus pés sem deixar que ele sorrisse. Fiquei um tempo acariciando a sola macia dos seus pezinhos e minhas mãos tinham quase o dobro do tamanho deles. Minhas mãos cresciam e envelheciam e a pele se enrugava e eu sabia de tudo isso pela primeira vez. Ela entrou no meu quarto.


E ela falou para ele: - sai desse quarto. Ta fedendo a maconha.

E ele falou para mim: - maconha! Maconha!


E eu sorri para ele quando ele mostrou a língua para mim. E senti nojo daquela língua cor de rosa quase branca. 

eu queria ter alguma verdade para postar. eu queria ter alguma vontade para continuar. eu queria ter alguma história para seguir. ou um fluxo para respeitar.

fui na loja de discos aqui da cidade.

- a fraternidade é vermelha.
- eu, christiane f.
- blondie. greatest videos.
- a liberdade é azul.
- a igualdade é branca.
- roxy music e t-rex live.
- we are scissor sisters.


vou tentar ser feliz com a nova pilha de dvds não assistidos. porém meus. para sempre.

sábado, 12 de julho de 2008

é madrugada. bastante madrugada. ou exatamente a sua metade. são 3 e 15 da manhã e agora já é sábado. a garrafa de vinho está bem boa. santa ana reserva malbec. argentino safra 2005. baixíssima acidez. não parece malbec dada a suavidade. é um vinho bem bom. não conheço muito de vinho. minha última descoberta havia sido o graffigna. custa em média 9 reais nos mercados aqui no sul e vale a pena. mas esse santa ana. uau. nem se compara com o graffigna. é bem melhor. custa quase o dobro, mas vale a pena. uma coisa que aprendi com uma nova amiga argentina é que vinho argentino deve sempre ser malbec e vinho chileno deve sempre ser cabernet. ela disse isso e depois falou "isso se você for hard como eu". ela disse isso na primeira noite em que nos conhecemos e naquela noite que foi a nossa primeira eu sabia que ela era uma garota legal essa andréa. trocamos poucas palavras, mas os nossos olhares sempre se entendiam. nossos sorrisos eram iguais nos momentos em que somente nós dois captávamos toda a ironia contida nos diálogos alheios naquela nossa primeira noite juntos. eu fumando e você sorrindo com uma taça na mão e bebendo o meu concha y toro. naquela época, há tão pouco tempo atrás, eu pensava que concha y toro era a aposta certa para impressionar na medida exata da nossa elegância etária e financeira. eu ainda não sabia nada sobre graffigna. nem sobre esse santa ana de agora. agora toca the who. see me feel me e eu lembro de uma adolescência que não pude ter. eu lembro de um jeito de enxergar a vida que demorou para eu perceber. mas quero falar sobre a garota argentina. na nossa primeira noite juntos o jantar acabou e eram folha e carnes e nós dois entendendo nos outros os diálogos que sobravam em nós. ou palavras que nos faltavam. o mundo quando é grande demais e ficamos nós dois olhando um para a cara do outro naquela fração de segundo, a última antes de cair na risada. mas você foi a melhor garota dos últimos tempos e a última com quem eu teria um filho. eu casaria se a imigração te pedisse uma prova para poder continuar vivendo no brasil. não sabem que o brasil é quem precisa de provas concretas para que você continue aqui entre nós. para que buenos aires não te leve de volta. toca white stripes e agora eu te vejo deitada aqui na cama do meu quarto. e te vejo dividindo a mesma taça e nossos beijos todos através do cristal. eu te vejo me enxergando dentro do poster do bob dylan. eu te vejo sorrindo ao reconhecer no anjo da guarda toda a auto-irônia pregada na parede. eu te vejo olhando obcecada para as minhas mandalas tentando entender a simetria dos meus olhos. tentando desviar de mim o que existe em você. como te olhar dentro deles sermos nós dois um mesmo passado. às vezes eu queria que ser jack white valesse à pena. às vezes eu queria ser a fram quando ela escreve com fúria e pressa e fôlego. às vezes eu queria ser o coração dois segundos antes do tiro para os cem metros livres. ou queria ser as baquetas de meggy white quando ela erra o compasso mas ninguém sabe que. ou me ver dentro dele dançando alguma música pela primeira vez. a primeira vez que entendi the cure em uma pista de dança. a primeira vez que tocou the smiths em uma noite de domingo numa pista cheia de iguais. a primeira vez que eu fiquei sozinho em uma pista de dança lotada às três da manhã de uma segunda-feira rezando para não cair ou rezando para que alguém me arrastasse para o banheiro e me fizesse nascer de dentro de mim. e me fizesse respirar fundo e I love new york. depois voltar ao bar e pedir mais uma dose de contreau e ter vontade de vomitar e depois rir e pensar que a vida é tão bonita, mas logo tudo vai acabar. agora tudo acabou. jack white grita aqui, mas não é mais como antes. necessitava desse desabafo o dia inteiro. a hora em que abriria um novo vinho e acenderia o portão para a noite. a luminária está acesa. as duas. a que está ao lado da cama sobre o amplificadora. coloquei borboletas do paraguai em volta dela e as asas sacodem quando a música fica alta o suficiente para a caixa vibrar. agora não. agora são exatamente 3 e 33 da manhã e eu tenho medo dessa hora. tenho medo dos números. e dos homens quando se tornam santos. não gosto de textos assim. acho que ninguém vai ler esse texto até esse ponto. duvido que alguém chegue tão longe ou acompanhe por tanto tempo uma mente confusa. duvido que você suporte amar por muito tempo o meu coração intraquilo. duvido que você nunca mais vá me sentir a falta quando eu estiver longe. eu sempre estive longe. sempre estarei. é como se a voz de jack white atravessasse o tempo e habitasse em todas casas de uma cidade que seria perfeita. de um país que seria o nosso. misturar um pedaço da argentina, um canto do uruguai e o sol do brasil e a pomerânia talvez seja agora. três pedaços de uma mesma terra e um diamante talvez nascesse. seríamos frios e eu seria uma espécie de rei. eu me coroaria mais do que agora. eu sentaria em um trono se a multidão de súditos fossem todas células de mim mesmo. 

quarta-feira, 9 de julho de 2008

eu acho que o problema é quando a pessoa se expõe demais.

ouvir bob dylan. beber vinho. ler. tomar um expresso duplo e uma água sem gás depois do almoço e antes de anoitecer. pensar em alguma coisa bem ruim que poderia me acontecer. ter alguma idéia genial para depois não entender. viver um momento de euforia fugaz. viver um momento de decepção logo após a euforia. checar o email obsessivamente durante todo o dia todos os dias. checar o orkut mesmo quando é manhã cedo. checar o hotmail que não uso mais. apagar spams de festas em que nunca irei. deletar spams de peças de teatro que jamais verei. deletar spams de viagras e pílulas para perder peso e tudo o que não me falta também não me faz feliz. responder a alguém de quem não gosto com um carinho que não sinto. pensar no envelhecimento meu e dos meus pais e do mundo e de todas as pessoas que passam pela vida ao mesmo tempo que eu. ninguém vai sobrar para contar a nossa história. escrever alguma coisa pensando em alguém que não conheço. ouvir cat power bem alto e escrever durante uma música inteira sem parar. fazer um set-list para a próxima meia-hora. tirar um auto-retrato e depois jogar na lixeira. entrar na folha on line e não encontrar nenhuma novidade sobre o mundo e meus problemas. ler blogues de inimigos, de rivais e de afins. ler os blogues dos amigos sem prestar muita atenção quando os textos ficam longos demais. entrar no msn e desconectar logo em seguida. tomar banho duas vezes por dia. olhar para o céu e desejar estar no sol vendo o mundo de longe. pensar em deus como se fosse em mim. ou entre nós. pensar no fim do mundo como se tivesse sido ontem. colocar uma moeda no cofrinho e pensar no quanto de dinheiro em moedas esquecidas se esconde lá dentro. fazer um desenho pensando em coisas que me irritam. criar diálogos imaginários com pessoas com quem gostaria de discutir. responder entrevistas que não foram feitas para mim. dirigir o carro do meu pai com saudade de quando eu era a criança no banco ao lado. sentir impaciência quando eles estão por perto, os homens da cidade de lajeado. tomar um café na padaria suíça e escutar a rádio da univates e perguntar a mim mesmo até quando passarei fome ou até quando comerei sentindo culpa. escrever um texto para depois apagar. olhar para o elefante azul que minha irmã pintou para o filho dela na parede do meu quarto. não entender como foi que a minha irmã virou mãe e nem por que tudo foi tão rápido? lembrar de alguma fotografia que minha mãe tirou. ligar o ar-condiciando e pensar no preço que custa ao bolso deles, os donos da casa. ligar o ar-condicionado e pensar no quanto custa ao mundo esse luxo que é só meu. pensar no quanto de dinheiro me faria feliz. pensar no quanto estou feliz hoje e no tanto que não posso reclamar de nada. de quase nada. ter um pouco de medo de morrer quando penso no que vai vir. ter um pouco de vontade de morrer quando penso que talvez nada venha. é quase certo que não. é bem mais certo que não. sentir o coração cansado. chorar sempre na hora mais errada e cada vez com mais frequência. coisas que eu faço todos os dias. pensar em quem seria eu se eu fosse uma mulher. pensar que eu seria uma senhora grã-fina. pensar que logo serei um velho grã-fino. pensar nas palavras que eu só escutava quando era criança. pensar no quanto de tempo eu  vou continuar sendo eu assim do jeito que eu sou. ler a zero-hora e achar tudo tão chato e tudo tão igual e tudo tão nada, menos quase tudo o que o paulo sant'ana escreve e  quase tudo o que a martha medeiros deixa de escrever para entregar à multidão de dois mais dois igual a mim. quero ser a martha medeiros, mas ninguém pode saber. penso na fran e lembro dela e hoje ela não mais a garota que um dia eu conheci. pensar nas águas passando pelo rio e indo para o guaíba e ver paisagens de natureza e me emocionar com tudo isso. com as plantas crescendo. com o sol caindo. com o pasto afiando orvalho até o último limite antes do sol nascer. pensar no quanto eu te amo. pensar no quão nada eu seria se você parasse de me amar. chorar pensando nos filmes que virão. emprestar problemas ao romance que não vem. que talvez nunca mais virá. esperar respostas de pessoas que não entendem o que quero perguntar. responder o que não me foi perguntando. escrever o que não me é aceito. escrever até nunca mais ser entendido. deitar na cama e desligar a luz da cabeceira e os olhos caindo sobre as páginas do livro que nunca termino. coisas que eu faço todos os dias. 

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