terça-feira, 8 de julho de 2008

um passarinho. dois.

era cedo na manhã do domingo. a chuva da noite tinha ficado para trás. um vento quente entrou pela janela do banheiro e fazia sol do outro lado do vidro. fiquei um tempo olhando para mim mesmo dentro do espelho. a água saía da torneira e escorria pelo cano. até onde ela poderia chegar?  meus olhos pareciam acordados há muitos anos. não era como se fosse manhã para os meus olhos. eles estavam despertos e eu parecia tão bonito. eu não tinha consumido nenhum tipo de droga, mas me sentia belo naquela hora da manhã daquele domingo que passou. sempre que me vejo bonito, o primeiro pensamento que me vem é "o que foi que eu tomei para ficar assim?" ou "o que foi que eu bebi para pensar assim?" ou "preciso aproveitar antes que isso passe".


quando tomo ácido eu me sinto sempre realmente belo. quando cheiro cocaína eu me sinto acima da média da beleza e, mesmo sabendo que não sou tão belo, sei que sou mais do que a maioria das pessoas. quando fumo eu me confundo e nunca consigo me olhar por tempo demais. acabo sentindo medo, angústia, qualquer coisa ruim e que me desvia de mim. do meu eu exterior.


mas eu não tinha feito nada dessas coisas que são erradas de se fazer e que a gente só faz até uma certa idade (ahahahhahahah). nem bebido vinho eu tinha. era cedo demais de um domingo de manhã e o inverno parecia ter dado uma trégua e eu resolvi, naquele momento, em frente à pia daquele banheiro, que aquele seria um domingo perfeito. lembrei de você. há quanto tempo nós não nos víamos? como você estaria agora? onde você estaria naquele domingo? pq eu não podia estar contigo? pq não crescíamos juntos? pq vc não crescia comigo?


fiz a barba e, estranhamente, eu continuava me sentindo belo. as palavras do juiz voltaram à minha cabeça e eu não ficaria longe de você esperando uma solução de pessoas que não nos conheciam.  a justiça nem sempre é justa. meu coração doeu um pouco mais e eu faria qualquer coisa para passar por cima dos outros e chegar perto de ti.


na frente de casa a grama estava verde e o sol brilhava alto. a natureza eram todos os sinais de que o mundo seria belo se eu fizesse alguma coisa por nós. o sol brilhando seria a chave para que eu tomasse alguma atitude. um passarinho parou de voar perto de mim e ele tinha o peito amarelo e ele piou alto e depois desapareceu dentro do pé de manga. a imagem de um ninho cheio de filhotes famintos era a saudade que eu sentia de você. a passarinha esperando o papai alimentar os pequenos era a sua fome que não me deixariam matar. os bicadinhos na testa dos passarinhozinhos pequenos eram os carinhos que não tivemos para nos dar. qual seria o tamanho das suas mãos? para quem os seus olhos sorriam agora? quantos quilos você ganhou desde a última vez em que te levantei nos meus braços?


peguei as chaves do carro. antes de dar a partida voltei correndo para dentro de casa. peguei a cadeira de praia. peguei um espeto e uma garrafa de álcool. aquele seria um domingo perfeito e você estaria comigo. não importaria nada mais além de nós dois e além do sol que brilhava tão lindo e de todas as famílias de passarinhos felizes se escondendo dentro de todas as árvores da nossa cidade. nós dois estaríamos juntos meu passarinhozinho e você me faria voar sobre o domingo e o domingo seria perfeito para nós dois.


escondi o espeto e a garrafa de álcool dentro do porta-malas e joguei a cadeira de praia no banco de trás. poucas ruas nos dividiam. liguei o limpador e as merdas dos passarinhos foram, pouco a pouco, sendo lavadas do para-brisa. pensei em lavar o carro para você não sentir o cheiro do meu cigarro. pensei em lavar o carro para não levantar suspeitas. o policiamento tem sido ostensivo nos últimos meses. todo o cuidado é pouco. um carro bem lavado sempre levantará as menores suspeitas. 


avancei algumas ruas até chegar à sua e o domingo brilhava o sol sobre o mês de julho. no meio do inverno uns poucos raios nos aqueceriam e nós dois teríamos a eternidade de uma tarde de domingo somente para nós dois, meu passarinhozinho. eu seria o seu passarão-pai e nós dois voaríamos para longe e nós dois seríamos as asas que nos arrancaram. eu limparia as suas penas dos piolhos de passarinho e você devolveria a força aos meus braços até que você voasse sobre mim e até que você olhasse nos meus olhos e dentro deles encontrasse o seu pai de verdade que sou somente eu e sempre eu. e eu te lamberia os olhos até entender dentro do seu gosto o sabor exato de um filho quando volta para casa para nunca mais partir. seríamos um mesmo na tarde eterna do domingo perfeito.


coloquei um cd da joni mitchell para tocar e acelerei um pouco mais. antes de chegar na sua rua eu parei de andar rápido. você poderia aparecer a qualquer momento e você poderia estar mais perto de mim e o que eu faria com você não seria sequestrar criancinhas. o meu amor te deixaria um pouco assustado no comecinho, mas depois seríamos um só e a tarde que eu te daria seria nossa para sempre.


fiquei parado na esquina da sua casa. o motor parou de fazer barulho e uma senhora foi até o portão. talvez ela esperasse uma visita. talvez eu fosse o seu filho que nunca mais voltou. talvez ela soubesse de tudo o que eu pensava em fazer com você. talvez ela soubesse que eu planejava partir para muito longe levando você comigo. ela não sabia que os crimes sempre compensam. todo o crime sempre será recompensado quando praticado com o amor correspondente à dor que ele pode causar.


na frente da casa da sua mãe a rua parecia mais calma. liguei o motor e acelerei um pouco. avancei alguns metros e parei outra vez. a sua casa parecia vazia. abri a porta e saí do carro. o ar estava tão quente e tudo era um sinal para que eu avançasse um pouco mais. o gramado na frente da sua casa eram os seus caminhões de plásticos e a sua pequena bicicleta com rodinhas para te equilibrar. você já tinha idade para andar sem rodinhas. o tempo passa rápido demais. meu filho crescia sem que eu aprendesse a me equilibrar longe dele. meu filho ganhava velocidades, mas o medo de cair será sempre maior para os passarinhos sem pai. para as bicicletas sem rodinhas. a porta da sua casa se abriu e ela saiu te carregando no colo. assim que vocês chegaram na rua ela parou e te colocou no chão. você levantou os braços e talvez você tenha chorado e ela bateu com carinho na sua cabeça e os cachos loiros do seu cabelo eram os meus antes de ser teu pai. depois ela caminhou e você continuou parado na calçada sem saber o que fazer. ela andava olhando para a frente e ela iria embora sem olhar pra trás e ela te deixaria sozinho. elas sempre irão embora. cedo ou tarde, você também ficará para trás, meu pequeno. cedo ou tarde eu teria que ser o seu pai e você o meu filho.


você se virou para ver a rua às suas costas e eu estava lá. ela continuava andando sem notar que você não estava mais com ela. eu abri os braços e o tubo de àlcool explodiu no porta-malas. você abriu todos os sorrisos e a ponta do espeto ganhou fio mais perto de nós. 


de braços abertos o pássaro grande se ajoelhou na calçada e o passarinhozinho pequeno foi correndo até ele e a pássara grande que era a sua mãe te viu voar até mim. quando nos abraçamos o domingo virou a cena de um filme que nunca sairía de nós. ela gritou e os seus passos correram até nós. antes que eu pudesse girar com você nos meus braços e antes que o tempo pudesse parar e antes que a rua sorrisse o pai e o filho abraçados eu tive que te jogar dentro do meu carro. e eu precisei acelerar sem te amarrar no banco de trás e eu precisei correr e avançar estradas e encontrar algum atalho que nos levasse para perto do rio.


quando chegamos no rio você sorria e você pediu para eu correr mais forte e eu sabia que éramos feitos do mesmo tipo de amor. "agora nós não precisamos mais correr". nossas asas nos aqueceriam e você nunca mais ficaria sozinho meu pequeno passarinhozinho.


helicópteros nos perseguiriam, mas as nossas asas nos fariam fortes contra todos os ventos e aquela era uma tarde de domingo e aquele era o primeiro sol de todos os domingos que seríamos eu o seu pai e você o meu filho daquele dia até todos os que chegariam depois desse.


descemos do carro. eu te vi correr na grama verde e o rio estava cheio de inverno. liguei o rádio e ficamos correndo na grama como se fôssemos os dois uma propaganda de leite. ou de comida para café da manhã. ou de celular. éramos o comercial de tudo o que aproxima os que se amam. éramos o lanche da manhã. éramos a força que nos manteria juntos para sempre. o calor dos laços de sangue. o amor quando não deixa dúvidas. as fugas quando não deixam rastro.


depois as suas perninhas ficaram cansadas de correr e nós voltamos para dentro do carro. eu abri a cadeira de praia e ela era o seu abrigo contra as bombas nucleares que explodiriam em tão pouco tempo sobre nós. abri o porta-malas e o álcool estava lá e o espeto seria o churrasco que nunca fizemos e você seria a carne para que eu continuasse forte. fechei os olhos. o sol queimava. o sangue era vermelho dentro das pálpebras fechadas. o sangue é sempre mais quente. naquela tarde nós dois seríamos um só. eu e você seríamos o mesmo homem. eu te faria em mim e eu te ensinaria a andar como um deus caminhando na terra e eu te faria asas para ver o mundo lá do alto. lá em cima, naquele alto, ninguém nos tocaria. longe dos homens nós dois teríamos a nossa própria lei e não seria preciso mais estar vivo para continuar vivendo. 


partimos. e você voltou para mim. e eu ganhei a guarda definitiva sobre nós. o mundo é dos que são rápidos. a vida voa quando não temos asas.

segunda-feira, 7 de julho de 2008


acordei. era meio da noite quando acordei. não fazia tanto frio. não o frio de uma noite de julho. não o frio que faria se fosse essa mesma noite só que há dez anos atrás. não o frio que faria se eu ainda precisasse ir para a escola logo assim que amanhecesse. para escutar professores. para copiar matérias. para decorar números e para conviver com a pior espécie de ser humano com a qual eu já convivi: os meus colegas de segundo grau. filhos da burguesia. filhos da cidade. bem-nascidos. bem-alimentados. tão maldosos e tão fracos nas suas intenções. tenho medo deles até hoje. tenho medo do que eles fizeram de mim. um homem cheio de escudos e uma armadura de ferro que nenhum tiro pode sangrar. eles me ensinaram a sangrar por dentro. escondido de mim mesmo. eles me fizeram tão forte que até eu acredito nessa força inventada para sobreviver a eles. como diz a minha avó: quanto mais merda na terra, mais força no tronco. então foi assim. dezesseis anos de merda para hoje eu estar forte. e frio. e longe. eles me empurraram para o alto. mas o alto talvez seja alto demais do chão. e talvez a queda venha e, se ela vier, vai ser bem foda encontrar alguém disposto a empurrar a minha cadeira de rodas.


mas o domingo foi perfeito. e é dele que eu vou me lembrar.


quando acordei era madrugada e não fazia frio. sentei na cama e eu estava sozinho no quarto onde cresci, na casa da minha mãe, nessa pequena cidade perdida ao sul do sul do sul do brasil. ontem era uma noite de julho e teria sido fria se o planeta ainda ventilasse. fiquei um tempo sentado no escuro sem saber o que fazer. era madrugada. a janela estava fechada e nenhuma claridade atravessava as cortinas fechadas. deveria ser madrugada. levantei da cama e fui até o banheiro. fiquei um tempo sentado no vaso esperando que as minhas cochas aquecessem o plástico da privada. mijei e o jato era forte. ainda era forte. os azulejos eram o passado antes de ontem. meus olhos se acostumavam, lentamente, à claridade da madrugada e eu pensei que talvez tenha ido dormir cedo demais na noite anterior. eu pensei que estava ficando velho. eu pensei que tudo era rápido demais. pensei em fazer cocô. contraí os músculos da barriga, mas meu intestino parecia tão limpo. minha mãe perdia o brilho dentro do quarto. meu pai roncava e a cidade que eles habitavam nunca mais seria a minha. a casa onde eles me fizeram nascer nunca mais seria eu. as fotografias sobre a mesa de jantar eram páginas de um livro que eu não lembrava de um dia ter escrito.


voltei para a cama. a escuridão voltou a tomar conta dos meus olhos e um galo cantou em algum lugar do bairro. as ruas estavam silenciosas. os carros dormiam nas garagens. a noite era alta demais para uma madrugada de domingo. lembrei de são paulo. das suas ruas que nunca descansam. lembrei das histórias de assombração dentro do meu quarto há tanto tempo atrás. se eu abrisse os olhos eu veria minha irmã e eu sentados no chão invocando espíritos de luz em um jogo do copo em alguma noite de julho. muito mais fria. muito mais longe. muito mais bela. para os dias ficarem bonitos basta que estejam no passado. lembrei dos espíritos nos comunicando mensagens cifradas. o autor do incêndio na igreja era revelado para nós. o dia da nossa morte era segredo entre os da luz. o espírito das trevas nos insultava e era joão satanás o homem que tirava o nosso sono quando o copo girava rápido demais e nossos dedos tão pequenos eram toda a força para que ele não virasse.


mas preciso te contar sobre um domingo perfeito. é ele que importa agora.


um galo cantou na rua de baixo e depois outro galo respondeu no quintal do vizinho e talvez já fosse quase dia. abri os olhos e o quarto continuava imerso naquela mesma escuridão. era madrugada de domingo e eu pensei em tudo o que estaria fazendo se o meu corpo não estivesse dormindo na mesma cama onde cresci. lembrei das punhetas antigas. da espessura do meu pau quando o seu tamanho ainda era um mistério. a textura da minha pele antes que eu crescesse. se eu estivesse em são paulo a noite de sábado seria tudo para fugir de mim mesmo. seria a festa e a bebida e a putaria e tudo o que pensam ser a vida. longe daqui a vida é uma sucessão incessante de posts frenéticos sobre tudo o que se faz. sobre o tanto que se bebe. sobre as drogas que nos distanciam e sobre o sexo que não nos contém. e eu fiquei feliz por estar longe de lá. longe das livrarias, dos cinemas, dos cafés... e eu adiei em meus pensamentos a volta para aquela cidade que não era mais eu. são paulo é um passado distante. lembrei dos meus livros esperando por mim na casa onde não cheguei a habitar. lembrei dos meus vinis me esperando na grande metrópole. a vitrola sozinha na sala esperando que eu voltasse para cantar as noites de vinho e amigos. a janela onde o abacateiro perde as folhas. o sabiá nos seus galhos espiando a tarde passando tão devagar. são paulo. lajeado. dois pontos distantes onde tento me equilibrar. onde preciso me equilibrar. onde sempre terei que habitar.


mas preciso te contar sobre o domingo perfeito.


ainda no escuro tirei o braço debaixo dos cobertores tateando a caixa de som ao lado da cama sobre a qual estão os livros. o celular estaria lá, ao lado da luminária de borboletas. o celular estava lá e ele veio até mim e a luz azul clara eram três e quarenta da manhã e talvez eu tenha ido dormir realmente cedo demais. acendi a luminária e fiquei deitado na cama sentindo muita fome. muita fome. muita fome. pensei em tudo o que havia comido antes de deitar. pensei nos quilos que perdi. acariciei minha barriga e ela estava magra. mas nunca magra o bastante para que eu pare de sentir fome e vontade de ser magro um pouco mais a cada dia. enfiei a mão dentro da calça e eu estava mole e triste. saí dos cobertores e, na cozinha da minha mãe, comi um iogurte desnatado encostado na pia da cozinha. as louças da noite passada estavam todas lá. os três cálices de vinho foram nós quando rimos depois da novela. os pratos foram ela quando eu recusei o excesso de gordura no assado. o cinzeiro eram os nossos baseados e minha mãe rindo antes de ir dormir e meu pai se queimando antes que a lareira nos aquecesse sem precisar. 


mas preciso te contar sobre o domingo perfeito. só ele pode esperar.










ps - aqui nesse café toca a rádio da universidade de lajeado. não preciso mais comentar sobre isso. sobre o quanto a rádio da univates é exatamente a rádio que essa cidade precisa. sobre o quanto a univates é a universidade que essa cidade reflete. sobre o quanto esse café semi-frequentado são os homens da manhã devorando sanduíches apressados antes de começar a semana. hoje esqueci de trazer os fones de ouvido. nenhuma canção me levará para longe. mas tem a rádio da univates. é sempre possível emporcalhar um pouco mais essa cidade. quanto mais merda, mais forte a planta. era assim que ela me ensinava a enfiar sementes na terra. quanto mais podre, mais colorida a folhagem. não tenho os meus fones. e um domingo perfeito jamais será escrito ao som dessa rádio. à tarde, com cat power em meus ouvidos, voltarei aqui para te contar o nosso domingo como teria sido se perfeição. com a rádio da univates tocando ao fundo fica impossível escrever. mas eu tentei. eu sempre tento. sempre tentarei.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

a entrevista
















ela - você está nervoso?

eu - nervoso com o quê?

ela - com toda essa coisa do filme...

eu - hmmmm. não.

ela - mas, assim, você não está nem um pouco preocupado se o filme vai ser um sucesso?

eu - hmmmm. não!

ela - e se ele não for um sucesso?

eu - ele já é um sucesso. pelo simples fato de estar acontecendo acredito que já seja um sucesso...

(pausa)

ela - mas, e se as pessoas não gostarem do filme?

eu - normal.

ela - mas e se falarem mal?

eu - alguém sempre vai falar mal...

ela - mas. assim, você não se preocupa com a reação das pessoas?

eu -  que pessoas? de quais pessoas você está falando? foda-se as pessoas. se eu desse bola para as pessoas não escreveria as coisas que eu escrevo.

ela - vc não está preocupado se vc vai ganhar algum troféu?

eu - troféu? eu faço arte. eu não faço esporte. se eu fosse esportista eu estaria pensando em troféu.

ela - (me ridicularizando) hummmmmm. eu faço arte...

eu - faço mesmo. ainda bem.

ela - nunca pensei que você pudesse ser tão cagão.

eu - o quê?

ela - cagão! cagão! cagão! 

eu - cagão pq?

ela - não tem nem coragem de assumir que está com medo. que cagão!

eu - eu não estou com medo. se eu tivesse medo eu não me exporia do jeito que me exponho.

ela - que mania é essa de falar em se expôr? só sabe falar em se expôr... pra quê isso agora? pensa que me intimida com isso de "se expôr"?

eu - pelos livros que eu publico você pode perceber que eu não tenho medo de me expôr...

ela - (quase gritando) livro-s? livro-s??? que plural é esse? pelo que eu saiba você tem apenas UM livrinho publicado.

eu - cagona é tu!

ela - eu?

eu - sim. tu! é tu quem está TODA cagada de medo pq eu fui ter a infeliz idéia de fazer esse filme bem aqui... tá TODA cagada de medo de as "pessoas" saírem falando mal de mim. tá com medo de que as pessoas entendam que eu só sei falar mal desse cu de mundo em tudo o que eu escrevo. tu morre de medo de que as pessoas não adorem o teu filhinho. não babem em cima dele. só que agora tu te fudeu querida. pq o teu filhinho tá CAGANDO para ti. o teu filhinho NUNCA foi adorado e nunca vai ser. e sabe pq? FODA-SE pq! FODA-SE. FODA-SE. FODA-SE.










ela continuou lavando a louça. peguei as chaves e saí de casa. antes de bater a porta ela ainda resmungava alguma coisa na cozinha, mas eu preferi fazer de conta que não estava escutando. lembrei de quando eu era criança e não via ofensa maior de um filho para a sua mãe do que deixá-la falando sozinha e sair de casa. e falar palavrão. e não ter pena dela.






naquele dia eu saí de casa sentindo muita raiva dela. quase bati o carro por duas vezes. minha mãe devia ser entrevistadora. minha mãe daria um banho na gabi gabriela.




o foda é que eu amo essa mulher que, não sei como, é a minha mãe. ela me ensina a ser forte com o mundo. pq ela é mais forte do que ele. ela é muito mais forte do que eu. depois dela acho que nenhum chumbo grosso pode me derrubar.

quinta-feira, 3 de julho de 2008



























na tradição popular diz-se que os elfos vivem em sociedade, como os homens. possuem reis sumamente respeitados. amantes do jogo e da dança, passam a noite inteira em bailados infatigáveis que só cessam com o canto do galo, pois temem a luz e o olhar do homem. aquele que, numa noite enluarada, nos ermos e descampados, se deixe fascinar por uma filha dos elfos, está perdido para sempre. em geral, porém, suas danças não têm testemunhas. de manhã percebe-se apenas, na erva, o traço ligeiro dos seus pezinhos. 




os famosos e os duendes da morte
04.07.2008















...

quarta-feira, 2 de julho de 2008

o café está vazio. apenas um homem em uma das mesas. esse homem sou eu. do outro lado do vidro a cidade acontece. faz sol aqui. há dias que faz sol. a pequena cidade corre. finge ser uma coisa que ela não é. como todos daqui, a cidade também finge ser uma coisa que ela não é.

a vida de ator é sempre um pouco triste e bastante solitária. talvez a vida de um ator seja mais solitária do que a vida de um escritor. gosto das artes solitárias pelo simples fato de elas não fingirem ser uma coisa que elas não são. elas são solitárias. simples assim. elas não vendem nenhuma falsa promessa de socialização.

ontem tivemos uma experiência teatral aqui nessa pequena cidade. o jornal local vendia o curso como uma noite de transcendência. uma noite transcedental. eu não deveria começar nada nas terças-feiras. talvez a noite transcedental seja a pedra do meu caminho. talvez eu não tenha tomado o devido cuidado com ela. é preciso atenção com o que promete nos transcender. é preciso cuidado em dobro com aqueles que nos prometem visões e com aqueles que são intensos. com aqueles que choram vendo o sol se pôr. com aqueles que escrevem mensagens de amor incondicional e de sentimentos explosivos. a falsidade é quase vizinha dos intensos demais. tenho um pacto fiel comigo mesmo em relação aos intensos: botar pra correr. simples assim. se uma garota chega dizendo que sente-se tocada pelas palavras quase xamânicas dos meus textos, sorry beibe, vou te botar pra correr. se um adolescente me mandar um email dizendo que ele é o personagem que eu escrevi, sorry beibe, vou te botar pra correr. o foda é que tão difícil colocar os intensos para correr pq, de certa forma, eles nos fazem um bem danado. eles nos fazem acreditar que estamos no caminho certo. mas é preciso cuidado. 

eu me inscrevi para participar da noite transcedental. e é sobre ela que quero te contar. não sobre essa bobagem de querer descobrir pq algumas poucas pessoas tentam se aproximar de mim. essa é uma questão que não me levará a lugar nenhum. eu perco tempo demais com questões que não me levarão a lugar algum. 

estacionei na frente da casinha cor de laranja com o nome de um curso de yoga na frente. a aula transcedental seria lá.

o professor era um homem sem idade. não parecia uma dessas pessoas que vivem nessa cidade. nessa cidade todos são tão iguais. nessa cidade os homens não usam cachecol. não usam roupas com cortes diferentes. não ousam nas cores. não usam óculos escuros com formato antigo. aqui não se confundem as idades. os jovens usam roupas de surfista. os outros usam roupas funcionais. tudo o que possa camuflá-los entre o bando. como se sempre existisse uma fera faminta pronta a lhes devorar, todos passam os dias, os anos, a vida, tentando ser mais um no meio do bando. a fera come os mais fracos. a fera devora quem se destaca da paisagem. a fera me comeu. e foi bem legal. hoje eu sou um fantasma nessa cidade. meus contatos são espirituais, quase fantasmagóricos. 

o professor era diferente. usava um casaco de couro vermelho. mas não é por isso que ele era diferente. um professor de vermelho dentro de uma casa cor-de-laranja. alguma coisa estava errada. pelos meus cálculos alguma coisa estava errada. as cores eram quentes demais e eu sempre desconfio de tudo o que é quente demais. pessoas quentes demais me deixam cansado antes mesmo da festa começar. prefiro os gelados.

o professor sorriu e perguntou o meu nome. 
- ah, você é o escritor da cidade. já ouvi falar sobre você.
- não sou escritor e não sou da cidade. 
- estão fazendo um filme aqui né? se precisar de alguém para ajudar...
- você deve estar me confundindo.
- eu vi uma foto sua no jornal. era você sim o escritor da cidade.
- eu não sou da cidade.
- vocês são parecidos.
- pode ser.

o diálogo foi interrompido pela chegada de dois garotos. um garoto e uma garota. ela tinha a pele mais clara que eu já havia visto. todos aqui tem a pele bastante clara, mas a dela era diferente. era  a pele clara que somente as pessoas que gostam de ser claras conseguem ter. aqui todos têm vergonha de ser tão brancos. a única coisa que pode ser pior do que ser branco demais, para eles, é ser quase negro, moreno escuro, cafuso, mulato. aqui os brancos queimam a pele no verão e escondem o corpo branco no inverno. a garota da aula transcedental não. ela era dessas pessoas que sabem ser brancas sem ter vergonha de si. aqui todos têm sotaque de colono. todos são meio alemães. aqui todos ridicularizam os colonos. ela não. ela era meio colona. meio a nico. meio a marianne faithfull. meio essas musas que o cinema nunca mais soube fazer. ela falava com a voz mais fina do mundo e ela sabia que aquela voz seria feia em todas, menos nela. naquela voz fina eu podia escutar os ecos de uma mãe colona. de uma avó histérica. de um dialeto pomerane que a faria diferente de quase todos. quase igual a mim. talvez fôssemos parceiros de imigração num distante tempo partindo de uma terra encantada. a pomerânia. longe daqui. talvez ela fosse de uma criação que conhece a cidade há tão pouco tempo. talvez fôssemos primos sem saber. ela carregava nos olhos uma ancestralidade. por entender-se ancestral, nunca faria parte do bando camuflado da cidade. talvez ela estivesse morta. assim como eu.

ela disse "oi" e sentou-se em um banco. 

o garoto sentou ao lado dela. ficaram em silêncio. o garoto parecia um pouco mais jovem. talvez ela tivesse 18 e ele 17. ele enroscava os dedos e olhava para as mãos magras e brancas. talvez fossem irmãos. ele olhou para ela e sorriu. ela comprimiu os lábios, olhou para mim e depois olhou para as mãos dele e disse alguma coisa que eu não consegui escutar. ele mordeu os lábios e naquele instante um laço de sangue os transformou em irmãos.

o professor olhou para o relógio e perguntou se estávamos dispostos a começar. ela disse "sim". eu acenei a cabeça com um sorriso que já me parecia ridículo antes mesmo de começar. o garoto se pôs de pé e esticou os braços. o professor pediu que tirássemos nossos sapatos. encontrei um canto escondido antevendo o suor encharcar as minhas meias. antevendo o dedão gasto furando a malha branca e encardida. o chão parecia frio. tirei os sapatos e as meias. voltei ao centro da sala. ela ainda tirava as botas. a meia branca com flores amarelas fazia com que fosse um pouco palhaça. ele desamarrou o all-star e a meia cinza parecia tão quente. seus pés pareciam limpos e, naquela hora, eu os lamberia, se eles deixassem. eu estava descalço e o frio era só por não confiar que eu poderia ser tão limpo quanto eles e manter as meias sem pensar no cheiro úmido que viria delas. nada pode ser pior do que um cheiro úmido. eles faziam com que eu me sentisse úmido perto deles. eu não era o escritor da cidade. o professor parou de olhar para mim e se colocou entre os dois pegando na mão de cada um. eles estenderam as suas respectivas mãos até mim e eu sorri para ela quando os nossos olhos se encontraram antes de a roda se fechar. ela tinha mãos úmidas. ele tinha a mão fina e suave. olhei para o esmalte e as cutículas cresciam de um jeito um pouco relaxado. talvez ela fosse a escritora da cidade. talvez ela não fosse daqui. talvez os dois fossem, assim como eu, forasteiros interessados no estudo da hipocrisia humana que se desenvolve nas pequenas cidades de colonização alemã do interior do brasil. talvez eles fossem a prova concreta de que a vida nas pequenas cidades não seja tão pequena quanto a geografia dos seus contornos. talvez eles viessem da mesma pomerânia dos meus avós. talvez eles também tenham sido alfabetizado nesse dialeto sem regras.

ficamos um tempo em círculo sentindo o calor das nossas mãos passar de um dedo para o outro. o professor respirava com força dando a entender que deveríamos respirar todos igual a ele. ele fechou os olhos. depois abriu. e olhou para nós dando a entender que, além de termos todos que respirar profundamente, também deveríamos fechar os nossos olhos. o rapaz olhou para a menina e os dois fecharam os olhos ao mesmo tempo. tentei fechar os meus olhos junto com eles, mas as minhas pálpebras se atrasaram em uma fração de segundos, tempo o bastante para que eu fosse devorado pela fera que percebe os diferentes e mastiga os desiguais. ensaiei um sorriso tentando aplacar a fúria assassina. "eu sou um deles" - pensei baixinho sem querer admitir que os meus pensamentos pudessem formular a frase odiada.

depois de um longo tempo o professor falou baixo e pausadamente: "caguem nos seus pudores". pensei em abrir os olhos. ou falar sem abrir os olhos: "sim, eu sou o escritor da cidade". alguma coisa me dizia que eu não estava assim tão sozinho. eu queria que eles lessem os meus textos. eu queria que eles soubesse de mim. eu precisava que eu entendesse que eu era um deles. estar de mãos dadas respirando a mesma roda não era o bastante.

ficamos um tempo assim. senti que o professor já havia saído da roda quando a sua voz surgiu de um ponto distante da sala pedindo que nos aproximassemos lentamente ao som da música. esperei o som se estabelecer. era uma espécie de um mantra indiano com toques eletrônicos. uma world music que empurrava os meus pés para o chão e me fazia querer dançar por dentro. senti o garoto dar um passo na direção do centro da roda. antes de ser o último, dei um passo também e ficamos mais perto um do outro. a garota demorava a dar o seu passo e talvez ela fosse devorada pela fera. pensei em puxar o seu braço e obrigá-la a dar o seu passo para protegê-la dos perigos de não ser igual. o garoto deu mais um passo tímido, mas o bastante para os nossos braços se encontrarem. apesar das camadas de mangas sobre nossos braços eu sabia que ele era quente. dei um pequeno passo tímido e pude sentir um cheiro de xampú. o cheiro do xampú da minha avó. ficamos assim. eu e o garoto nos espremendo em um lado da roda, e ela com os dois braços estendidos mantendo-se longe de nós. indiferente à fera. despreocupada com ser igual.

a música terminou e ficamos sentindo as nossas respirações todas ao mesmo tempo. o ar parecia um pouco sujo. ela deu dois passos de uma só vez até e que os nossos braços ficassem bastante pertos. seguindo as ordens do professor, continuamos "cagando para os nossos pudores" avançando à frente até que as pontas dos nossos narizes se encontrassem. senti um cheiro ruim. um hálito de gente normal e algum de nós estava se entregando à fera. algum de nós era diferente dos três. meu pau ficou duro e eu afastei a bacia do centro da roda. meus pés se desiquilibraram e as pernas tremeram um pouco antes de recobrar o equilíbrio. eles continuavam respirando no mesmo ritmo. 

ficamos assim por duas horas.  de vez em quando nossas mãos suavam. de vez em quando alguém ensaiava um sorriso. de vez em quando o professor falava mais uma vez para que cagássemos nos nossos princípios. 

um pouco antes de o exercício chegar ao fim, os meus olhos começaram a chorar e o meu corpo começou a tremer e uma onda de tristeza bastante profunda se abateu sobre mim. misturado com a tristeza eu sentia uma estranha alegria. algo próximo de um estranho alívio. algo que fazia de mim um escritor. algo que fazia de mim estar perto deles. quase um igual. senti os dedos da garota me apertarem com força em volta dos meus e aquele era o sinal de que eu precisava. ela havia sentido o meu estado e ela se preocupava comigo. naquele momento eu não era mais o escritor. naquele momento eu era sim uma espécie de ator ou de qualquer artista que faz uma obra coletiva e, por isso, sente menos a dor da solidão da falta de inspiração e a frustrante falta de vontade. eu era alguém em um grupo e alguém me dava a mão e alguém me apertava com força se eu chorásse ou se o meu corpo fizesse coisas que nunca fez. eu transcenderia junto deles. 

a música terminou mais uma vez e eu prestei atenção no volume das respirações tentando entender se eles também estavam alterados, assim como eu estava. eles respiravam profunda e suavemente e talvez a fera tenha me devorado. 

pouco a pouco, seguindo as ordens do professor, abrimos os nossos olhos e ficamos nos olhando profundamente por um longo tempo. eles sorriam quando se olhavam e voltavam a ficar sérios quando olhavam para mim. talvez eu fosse o escritor da cidade e talvez por isso eu nunca seria um deles.

a aula terminou. ela calçou as botas e ele amarrou os cadarços do all star. e foram embora antes que eu terminasse de colocar minhas meias úmidas. o professor sorriu e perguntou se eu estava bem. respondi que sim. que era sempre bom fazer uma arte coletiva.

no caminho de volta para casa eu tentava engolir a pedra da terça-feira. e eu tentava voltar a ser um escritor. a fazer uma arte solitária sem estar só. e me perguntava, sem eu mesmo escutar, por que eu não era um deles. por que as pessoas iguais a mim, assim como eu, aqui nessa pequena cidade, também se escondem umas das outras?

terça-feira, 1 de julho de 2008

a mãe precisa erotizar o filho. quanto mais erótica for a relação entre os dois, mais amorosa ela será. mais amada será a mãe e mais amado será o filho. o amor da mãe é a equivalente ao tesão que ela sente por ele. como resistir ao olhar do tesão? essa é a posição do filho. carente de tesão. sempre carente de amor. os entupidos desse amor saberão amar. os carentes desse amor saberão procurar. procurar. procurar. por toda a vida. procurando. procurando. procurando. não existe cuidado completo sem a vontade constante de comer. por isso cuidar dos nossos pais demanda um sorriso conformado e um amor falsificado. não mais queremos comer a carne velha que já nos deu dias de amor. cuidar dos pais nunca será amar como mãe. não sei por quê. ainda não sei. o tempo muda tudo. muda como vemos o próprio tempo. é ele quem nos define.


se isso fosse um blogue agora eu teria que dizer que são exatamente 14 e 38 de uma tarde de terça-feira. um dia me disseram para nunca começar nada em uma terça-feira. demorei para entender. mesmo sem entender todas as terças-feiras trazem a certeza de nada a começar.  a frustração da segunda-feira precisa da recompensa do descompromisso oficializado da terça-feira. na terça-feira o meu pensamento não se completa e não se traduz naquilo que gostaria de falar. a terça-feira é uma pedra no caminho. é preciso cuidado com ela.


se isso fosse um email eu te diria que toca cat power. que faz sol do outro lado da janela. que a cortina está-fechada. que a porta está trancada. que meus ouvidos são você cantando em alguma cidade do planeta atravessando a mesma tarde que eu. penso em quantas pessoas podem estar, nesse exato momento, escutando exatamente essa música da cat power. levando-se em consideração que essa música específica que escuto é um experimento músical bonus do dvd speaking for trees. um dvd que nunca foi lançado no brasil. penso em quantas pessoas no mundo podem estar nesse momento escutando exatamente essa música. no que elas podem estar pensando? penso em quantas pessoas no mundo podem estar, nesse momento, lendo alguma coisa que escrevi. e sinto uma vergonha misturada com alguma coisa que me faz muito bem. que me faz um riso bem safado. não sei explicar. por mais que eu procure, nunca encontrarei a explicação para tanta procura. nunca terei o amor que nunca me foi dado. e procuro. procuro. procuro.


na terça-feira minha avó joga bingo com as amigas. hoje a tarde é de números no lugar dos assuntos que não existem mais.


tudo está bem. eu só estou sangrando.


















leonora carrington. 








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sábado, 28 de junho de 2008

era de tarde. era uma tarde de chuva. era na casa da minha avó. foi minha avó quem me criou. até os três anos o idioma era o alemão. alemão pomerone. ou apenas o pomerone. era essa a língua que eu entendia. minha avó se referia a nós, como, os alemães. "eles" eram os brasileiros. eles moravam em casas que não eram feitas de madeira. 

de vez em quando o meu avô voltava mais cedo do trabalho e me pegava no colo e ficávamos olhando para a rua ouvindo um rádio de pilha. o nome da rádio era "rádio independente AM". a rádio sempre falava nomes de pessoas mortas. eu não entendia as palavras que o locutor falava por que ele falava a língua dos brasileiros. mas eu entendia os nomes que ele dizia. às vezes, depois de algum nome, meu avô gritava para a minha avó que aquele nome tinha morrido. os passos da minha avó corriam pela casa. quando chegavam ela tinha a testa franzida ainda mais e pedia para o meu avô repetir o que ele havia dito. ele respondia na língua dos pomeranes que aquele nome havia morrido e minha avó entrava de volta para casa sem mudar a expressão da testa. 

a tarde caía do outro lado da rua. os brasileiros voltavam para casa. a novela começava e em todas as janelas de todas as casas da rua todas as cortinas trocavam de cor ao mesmo tempo. todas as luzes eram as cores da mesma emissora costurando os infinitos silêncios entre nossos diálogos. eu não entendia o que os brasileiros falavam na televisão. de vez em quando minha tia ria e eu perguntava por que ela estava rindo. mas essa não é a história que quero contar. a história das risadas da minha tia eu não vou contar agora.

era de tarde e chovia. eu estava deitado na cama da minha avó. no teto a lâmpada brilhava e as paredes ficavam amareladas. como tudo o que é memória, as paredes eram amareladas e um pouco quentes. do lado de cima do outro lado do telhado as gotas explodiam. às vezes suaves, às vezes todas ao mesmo tempo, às vezes pesadas pisando passos lentos. quando olhava para os lados a janela se escondia atrás da cortina e o pequeno retrato do casamento era uma mulher de vestido negro e um senhor de rosto sério. aqueles eram eles. mesmo não sendo. 

depois eu ainda estava deitado, mas o meu rosto estava coberto. quando abria os olhos a claridade da lâmpada atravessando a coberta eram flores de luz. embaixo dos tecidos a cama era como voltar para um lugar de onde eu nunca devesse ter partido. ou do qual nunca tenha sido expulso. olhei para o lado e minha mãe sorria debaixo da coberta deitada ao meu lado na cama da minha avó. os seus braços compridos iam até o alto e as suas mãos levantavam o tecido brilhando cada vez mais alto até que ela cansasse e soltasse o pano com força para cima de nós. e o vento gelava os nossos ossos por que éramos feitos de gelo. eu fechava os olhos e ela mantinha os lábios pressionando contra a minha testa. eu abria os olhos e eram os seus cabelos pretos ou as flores coloridas desenhadas na coberta. ela respirava e o hálito quente que saía do seu nariz penetrava nos meus cabelos e eu suava. ela apertava as minhas costelas e elas doíam, mas era bom. ela balançava o meu curpo e meu pau ficava duro, mas eu ainda não sabia. depois ela saía da cama, abria a janela e ficava olhando para a chuva. e fumava um cigarro inteiro de costas para mim.

eu acho que essa foi a minha primeira sensação de conforto.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

quando eu tinha dezessete anos eu fui embora daqui pq eu não aguentava essa cidade. o mundo no interior do rio grande do sul era grande demais para mim. eu destoava da paisagem. as pessoas me olhavam de um jeito estranho, como se me dissessem que eu não era um deles. eu nunca pertenci a essa cidade. eu nunca pertenci a ninguém. por isso as brigas atravessando as madrugadas. minha mãe chorando. meu pai tentando entender. minha irmã namorando na sala. era assim. tentávamos nos suportar. eles tentavam suportar a idéia de eu partir tão cedo. imploravam uma faculdade. um diploma. uma vida segura. 

eu ria.
e só chorava antes de dormir quando eu rezava para algum deus que me arrancasse daquela casa. que me arrancasse dessa cidade.

quando eu tinha dezesseis fugi para o rio de janeiro, mas não fiz muita coisa. andava pelo catete vendo a cidade. passei quarenta e cinco dias. o tempo que durou a minha grana. eu sempre fiz dinheiro. de um jeito ou de outro. pintava estátuas de gesso antes de as lojas de 1,99 acabarem com o artesanato. dava aulas de teatro em escolas de gente rica. com 14 anos tive carteira de trabalho assinado. profissão: professor de teatro.
quando saí de casa para procurar emprego minha mãe me desejou sorte.
quando voltei no final do dia com a proposta de começar a trabalhar na semana seguinte, ela me contou que sentiu pena de mim. ela tinha certeza de que eu teria, naquela tarde, a minha primeira decepção. ela não sabia que a primeira decepção sempre foi ela não acreditar em mim. esperando que a minha vida fosse feita de decepções. ela, como a maioria dos alemães, sempre espera pelo pior. que é para a realidade não os pegar com as calças curtas. é assim a cabeça aqui.

quando voltei do rio de janeiro as ruas dessa cidade haviam ficado menores. todos os olhares eram para rir da minha cara. a minha volta era a minha derrota e a cidade grande não havia me aceitado. ainda bem. ainda bem.

com 16 anos eu era seguidor de um guru. 
com 17 anos eu larguei a vida que não queria e entrei em um ônibus. quando cheguei em sp era noite e chovia. eu estava na rodoviária com uma mala na mão. uma mochila pesada nas costas. e um sonho bem grande era eu. a cidade parecia que não existia. a rodoviária não tinha vidros. passei a noite sentado em um banco tentando imaginar o que eu poderia fazer quando o sol aparecesse. esperei o metrô abrir. eu não tinha nenhuma pessoa para procurar em sp. nenhum telefone. nenhuma cama. havia a grana para a volta, se as coisas dessem errado.

peguei um metrô e fiquei andando na rebouças. gostei das árvores e passei alguma horas andando por lá. chovia, mas era estranho. eu não me molhava. caminhei até encontrar um hotel que coubesse no meu dinheiro. fiquei em uma espelunca no largo da batata.

eu sabia que o meu guru estava em sp selecionando atores para uma peça. eu não sabia os horários. sabia que seria em um tal de sesc consolação. parei um táxi e perguntei quanto custava para ele me levar até o sesc consolação. fechamos o preço. e eu embarquei.

quando chegamos perto do sesc ele se perdeu e ficou vagando pelas ruas da santa cecília. paramos em um farol e o meu guru atravessou a rua. ele estava atrasado e corria para a seleção de atores da peça que eu faria.

saltei do táxi e comecei a gritar no meio da rua. o guru me olhou assustado e disse para eu não tocá-lo. comecei a chorar tentando explicar o que eu fazia lá,  naquela rua, naquela cidade, vindo de tão longe. depois ele me contou que eu parecia um matador. cabeça raspada, magreza profunda e olheiras salientes. eu mataria por amor. eu mato por amor.

o guru me jogou em uma sala com mais 400 atores de são paulo. a produtora pediu o meu currículo. eu pedi-lhe papel e caneta  e inventei um currículo de mentira. escrevi coisas que não fiz. inventei peças de minha autoria. direções. atuações em clássicos. minha vida sempre foi uma grande mentira. mas eu acredito nela. e é isso o que importa.

fiz a peça. ele me viu no meio dos 400 atores e eu fiquei com ele. depois ele me escolheu entre os atores da sua companhia e fomos para a europa. o mundo era grande demais para mim, ele dizia. ele dizia que eu precisava conhecer novas paisagens. viramos a europa assim. alugamos um audi e ensaiávamos uma ópera. eu carregava o mapa e as trouchinhas da sua cocaína. era dia do meu aniversário e ninguém sabia. nem ele. naquele dia eu fiz dezoito. paramos em um acostamento e ele pediu para eu fazer mais uma carreira. eu fiz e ele cheirou. depois ele olhou para mim e disse: fique longe disso, pó é uma porcaria. 

fiz mais uma carreira para ele. o mapa da alemanha ficou cheio de farelinhos brancos. no relógio marcavam seis e quinze. a hora exata em que eu nascia. lembrei da minha mãe. lembrei do mundo tão longe. o estofado de couro daquele audi estacionado em uma autobahn. a voz rouca da lauryn hill cantando no rádio. os pingos de chuva. a cocaína. eu precisava conhecer o mundo. ele sabia disso. ele me ensinou.

obrigado meu guru. o mundo ficou menor depois que entramos na mesma vida.
faz tempo que não te vejo. não sei se vc ainda lembra das coisas que eu lembro. mas eu te agradeço hoje. tanto tempo depois. tão longe daqueles dias. fugir de casa e ganhar um pai. foi assim que eu acreditei. o mundo é grande. a pior solidão está aqui. nessa pequena cidade. na cara das pessoas. na obviedade dos seus dias. obrigado meu guru. o mundo brilhou sempre mais depois que eu parti. obrigado. 
às vezes fica um pouco complicado escrever quando uma perfeição da natureza está sentada na mesa ao lado. esse é o inconveniente de escrever em cafés. a perfeição da natureza bebe coca-cola sem ser light e come um sanduíche pesado e continua sendo a prefeição da natureza. a má alimentação não lhe tira a perfeita angulosidade dos ossos. o rosto mantém-se firme em bochechas com pouca saliência. a papada não há. para onde a perfeição da natureza empurra as toxinas da má alimentação?

ontem teve um jantar na casa dos meus pais. bebi demais. não sei como a amy aguenta. vomitando a quinta privada da casa e imundiciando o quarto todo de vômito eu só pensava "mas meu deus como a amy aguenta". e da-lhe água gelada. e dá-lhe leite quente e TODA a salada saindo da minha barriga na velocidade de um tornado. a casa virou uma nojeira. meus pais dormiam e a maldita cadela lambia toda a minha sujeira. porquinha safada. viva o sonho cadela. coma meu vômito putinha. chutei ela para o lado. mas ela mordeu meu calcanhar. peguei ela no colo e ela lambeu minha cara. triste cadela. a vida é triste. bastante. não sei como a amy aguenta.

o que acontece é que tudo demanda uma energia filha da puta. esse lance de beber e ser feliz. e sempre vem a onda braba no dia seguinte.
mas hoje a onda braba veio com mais uma remessa do submarino. speaking with trees chegou na porta de casa e a tarde foi cat power cantando em uma floresta no interior do estado de nova iorque. como eu amo essa puta. a tarde foi eu e a cadela na cama vendo cat cantar entre árvores. um dia de folga. um dia inteiro para a ressaca. para as olheiras. para esqualidez do meu corpo. vinte quilos a menos. vinte anos mais velho. três toneladas mais chato. insuportável até para mim mesmo.

eu tenho que te mandar um original do meu livro novo. mas não dá. reli o livro semana pasada com os atores do filme e ele me pareceu TAAAAAAAAAAAAO esquisito. confesso q penso todo o dia em mandar o original para vc. mas eu não acredito naquelas palavras hoje. vc espera?

bem. eu tinha idéias ótimas para escrever aqui. mas elas se foram na privada da noite passada. e ficou só uma PUTA de uma dor de cabeça.
e meus chutes não machucam. machucam muito mais a mim mesmo. quando vc chora. quando eu choro. 

a perfeição da natureza foi embora. e só ficaram as peruas. como elas riem alto. como elas são loiras falsas. onde está você? perfeição da natureza. me deixou sozinho sem um texto para escrever.

terça-feira, 24 de junho de 2008
























lá fora deve estar fazendo alguma espécie de sol, mas eu não sei. fecho as cortinas para sentir a noite menos roubada de mim. cheiros chegam da cozinha. ela faz carnes enquanto ele lê o jornal do dia. a internet traz tudo tão mais rápido do que as páginas do jornal. mas a internet não tem paulo sant'anna. a única coisa que presta no jornal que ele lê. quero ser um velho como ele. como meu pai. como paulo sant'anna. como o tonacci, cineasta de serras da desordem. como bob dylan hoje em dia.
leio miranda july antes de dormir e ela me faz querer parar com tudo para apenas ficar lendo as suas palavras compondo frases que beiram a perfeição.
chris garneau e cat power são a trilha de todos os dias para todas as horas.
chá de bugre eu bebo o dia inteiro quando estou em casa. o aquecimento sempre está ligado em 30 graus, o que me faz quase não sair do escritório. xícaras de chá e uma taça de vinho por dia. somente uma. apenas uma. é preciso se controlar sempre um pouco mais. meu filho está aqui. meu filho corre entre as minhas pernas antes de dormir. antes que eu me canse dele. ele ainda não sabe, mas eu sempre canso rápido demais.
no dvd o pai e o filho do sokurov é o presente emprestado da thereza que veio de são paulo. uma das meninas mais bonitas está comigo sempre. o pai e o filho é um poema filmado e como poema tem o seu sentido em qualquer ponto que seja visto.
queria saber de mais coisas, mas não.
queria ver mais pessoas, mas só hoje não.
queria ter mais amigos, mas eu sempre canso de tudo cedo demais.
menos de você. você me faz feliz quando aparece carregando um pouco mais na beleza a cada manhã.
os cabelos quando são cortados. as peles quando emagrecidas. os olhos quando choraram demais. ou quando ficaram secos.
no frio os meus pensamentos se processam lentos.
esses são meus dias. antes do fim.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

günter grass - heimweg - geheimnis - raveonettes 2008

é sempre na alemanha que sangro. é sempre a alemanha a terra amada. por mais que eu me impregne de latinidades e por mais que eu tente encontrar uma raíz, é nas terras distantes que ela pode germinar. aqui sou a semente. lá serei as extremidades atravessando a terra. serei um homem em berlim. nunca serei um deles.

pensamentos confusos de uma noite fria de domingo. lá fora quase neves. casamentos pomeranes. noivas de negro chorando a morta das mutiladas por senhores feudais. é preciso sempre olhar para trás. é preciso nunca esquecer de onde viemos. as brincadeiras mais ingênuas são cartões-postais correndo contra o tempo para chegar na hora certa. sempre saberemos, sem nunca entender, que as horas nunca serão exatas. nunca foram.

o chá esquenta a garganta e meu coração derrete um pouco mais a cada gole. a lareira queima na sala onde meu pai morre um pouco mais a cada noite. não adianta chorar. nunca será o bastante para reverter os fatos. a família morrendo. minha mãe dormindo um pouco mais fora de hora a cada dia. meu pai a cada noite mais insône. meus olhos querendo se fechar sempre antes do fim. o quarto está quente. o sono sempre vem. cedo ou tarde, o sono sempre virá.

sejamos eternos enquanto durarmos. 

mais um domingo. mais um domingo. mais um domingo. às vezes eu tenho dezesseis e as lâmpadas são velas desenhando as paredes do meu quarto. retrocedo três séculos para ser seu hochditsbira chamando os primos para o casamento. todas as fitas serão costuradas nos meus ombros e nossos bolsos serão o quente das mãos protegidas pelo inverno. sentirei menos frio. quebraremos a louça e eu dançarei te vendo limpar o chão de um homem que não seria eu. os véus sobre seu rosto e as mulheres da vila protegendo seus seios dos meus olhares. 

engordo-te um porco. descasco e engulo o coração cru de um quero-quero.  alisto-me em guerra contra mim mesmo. 

os galos serão rabos por ti. as vacas serão gordas por ti. os dias virão. que retrocedam as horas antes de chegar o nosso fim.

sábado, 21 de junho de 2008


















suíça café. 09:43.
nuvens sob o céu. sábado. Escrevo com cafés a história do amor em desencontro. escrevo como se o mundo fosse agora a cena de um filme. como se eu fosse um personagem estranho a mim mesmo, autor da própria obra. escrevo para desfazer a lógica. e para surpreender minhas expectativas com as letras que eu mesmo orquestro. os dias ficam mais belos quando a inspiração está por perto. 
nas mesas em volta, como em todas as mesas das pequenas cidades do sul do brasil, o silêncio só é quebrado pela mastigação de pães. poucos bebem café. no meu ouvido cat power. sempre ela. é ela que fornece  a tônica dessa narrativa que toma forma. um pouco mais a cada dia.

vamos. uma bela história começa a nascer. outra vez.
cat power esconde a falta de assunto nos cafés gaúchos. e revela paisagens que, de tão internas, quase não percebo.
o dia será lindo. que venham as horas.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

são 12 e 10 e estou na cama. acordei de madrugada com o barulho da chuva. eram cinco da manhã. o nariz corria corria corria. os pingos batendo no telhado de zinco. os cobertores subindo pela orelha. depois a fome pintando devagarinho do calor escuro das cobertas. as frutas que só devem ser comidas no café da manhã. meus pés saltitando até a cozinha para escapar do chão iglu. 

fiquei encostado na pia comendo maçã. através do vidro da janela as gotas corriam e depois desciam até a grama onde as flores estão lá, sem estar. o verde está quase todo seco pela geada que faz nas madrugadas. os dias congelam e meu coração quase não bate mais. com meus quilos se foi o desejo. com a magreza ganhei friezas. meu coração bate tão devagar. meus pensamentos são tempestades que tento controlar, sem conseguir.

a televisão da manhã tem um dos melhores programas. globo rural. o feijão valorizou esse ano. saltou de 30 reais a saca para 100 reais. os agricultores sorriem e comemoram. depois foi a vez do trabalho escravo nas fazendas do oeste paulistano. a mulher de 53 anos já no fim da vida. os adolescentes descalços que ainda não nasceram. o mundo é sempre belo debaixo dos cobertores antes do mundo acordar.

puxo o mac para a cama. descubro que meu amigo de longe também acorda antes do sol. ele me conta sobre a lua e como ela continua forte antes do sol nascer. aqui chove. imagino o que existe por cima das nuvens. ele me faz imaginar. os cartões postais podem ser imaginários. sempre vou preferir uma frase bonita à qualquer fotografia. sempre vou preferir os meus sonhos e expectativas à qualquer possibilidade real.

continuo na cama. alguém chegou em casa e a cachorra latiu. o dia deve começar. a tarde seguirá chuva e a noite será lareira. e vinho. e fome. emagrecer. sempre um pouco mais. dormir. sonhar. fugir. sempre um pouco mais. sempre mais longe. o inverno chegou finalmente. nada mais pode ser feito que não esperar.

terça-feira, 17 de junho de 2008

às vezes eu me sinto roubado. de tarde gosto de sair para sentir o sol. as árvores sempre ficam mais bonitas sob a luz do inverno. às vezes escuto rádio, mas as músicas que tocam aqui não me fazem partir. às vezes sento em um café, mas as mesas daqui são silêncios coletivos. vazios em dose dupla onde os casais sem mais assunto. gosto de sair para jantar. não aqui. onde os restaurantes são televisores e as casas de onde nunca saímos. de onde nunca sairão. os pratos entopem artérias à custa de casamentos falidos por barrigas obesas demais. às vezes eu toco o silêncio. quando a madrugada não são carros de som. às vezes eu toco o silêncio. quando observo em cada esquina um sorriso que não está mais aqui. às vezes eu toco o silêncio. quando você, para quem sempre contei minhas verdades, ficou surda sem que possa perceber. às vezes eu toco o silêncio. quando os seus lábios são tristezas. às vezes eu toco o silêncio. quando você se torna você. quando os seus medos voam para longe e ventos sem poeira trazem de volta o seu olhar. e nos furamos. e sangramos devagar. quase sem notar. como se nunca tivesse. o tempo antes de nos começar. 

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