sábado, 14 de junho de 2008












às vezes eu não sei por onde começar. aí eu nem começo.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

noventa e cinco e um, a rádio da univates!

Seria preciso começar falando sobre rádio. Algo sobre como e quanto o rádio teve e tem um papel na formação e transformação de uma sociedade. Também deveria se mencionar o caráter específico de cada rádio, identificar em cada tipo de rádio o seu estandarte, a sua peculiaridade e a sua missão. Rádio comercial, rádio comunitária, rádio pirata, rádio AM, rádio universitária. Cada rádio tem o seu papel em uma sociedade plural e razoavelmente bem desenvolvida. Pode se dizer isso de Lajeado. Uma sociedade plural e razoavelmente bem desenvolvida.
Se pensar sobre Rádio Universitária, é praticamente impossível dissociar o seu papel social de dentro do núcleo da sua Filosofia. Pensando em Rádio Universitária, tomo por exemplo a Rádio da Univates (FM 95.1). A UNIVATES fica em lajeado, cidade onde estou exilado por questões profissionais, algo como um mergulho no inferno.

Antes de se falar sobre rádio universitária, é importante apenas retomar as diretrizes básicas que norteiam uma Universidade. A universidade tida como o centro do saber onde têm sempre vez prioritária a discussão, a pesquisa, o exercício da ciência no estado mais puro e belo da palavra. É na universidade que se encontram concentradas as cabeças pensantes de uma sociedade. É na universidade que está o supra-sumo da inteligentsia, da vanguarda, dos olhares ao alto. Homens que pensam criticamente a estrutura social. Cabeças à frente do seu tempo. Visionários. Cientistas, na pureza e na beleza da palavra.

E temos daí, de dentro do nosso Centro do Saber, a rádio da UNIVATES. A rádio da Univates é a voz de uma Universidade tida como a melhor Universidade particular do Rio Grande do Sul. Quem sou eu para dizer o contrário? A Rádio da Univates fala por si só. Nas suas ondas se refletem os prédios de uma arquitetura higiênica, quase germânica na sua funcionalidade. Nas suas ondas a assepsia é tão visível quanto na limpeza dos corredores impecáveis e dos banheiros imaculados. É quase como se estivéssemos na casa de uma tia asseada demais. Sempre tão limpinha. Eu, que sou apenas um aluno temporário de língua alemã, posso ouvir a a rádio da Univates e comprovar, de dentro da sua estrutura física, a limpeza do local. Impecável, na limpeza.

O problema da rádio da Univates é que ela entrega o jogo. Ela é o cartão-postal para quem está de fora dela, e os cartões-postais sempre são um pouco mais bonitos do que o lugar retratado. Ou deveriam ser. A Rádio da Univates é a Univates para quem está fora dela, é propaganda vinte e quatro horas por dia no ar. O problema da rádio da Univates é que ela mostra ser justamente aquilo o que ela é. E no reino da propaganda é preciso nunca mostrar a verdade, quando ela pode não nos beneficiar.

Me distancio da Rádio da Univates para pensar em uma Rádio Universitária e na sua missão social e intelectual. Desculpe, mas não me refiro ao social como uma rádio comunitária ou uma rádio que leia notinhas sobre enchentes, me refiro à uma rádio que entenda o seu papel social na forma mais genuína. Uma rádio comprometida com o ser humano. Assim como a Universidade. Uma rádio que não entrega apenas o que aquela sociedade quer ouvir. Uma rádio que não se submete ao sistema imposto e martelado todos os dias por todos os meios de comunicação e mostra uma nova visão, única e diferenciada, de um meio cultural. Mostra o seu lado. A rádio Universitária mostra o lado da Universidade. Entenderam? A rádio sempre deve ser um pouco menos higiênica do que os seus banheiros. Um pouco mais poluída pelas cabeças pensantes. Um pouco bagunçada pelos professores que extravazam-se de dentro da sala para as ondas do rádio. Pelos alunos nerds que invadem a cabine para tocar a última versão de um Radiohead ao vivo em Glastonburry. A Rádio Universitária é o retrato vivo de uma célula social que pulsa. Ou que deveria pulsar. Pulsar como as idéias quando são acordadas pelo saber.
Onde estão os alunos da Univates? Aqueles que não concordam que a Rádio da sua Universidade seja estandarte para Armandinho, para a nova "música de trabalho do Capital Inicial", para a última da novela das 8? Onde estão os professores que aceitam ter a rádio da sua Universidade tocando sucessos populares dos anos 80 como se aquilo fosse o ápice do seu bom gosto e conhecimento histórico de música? Onde está a alma viva da Universidade? Nas ondas dessa Rádio da Univates? Espero que não. Eu teria vergonha de ser seu aluno. Imagina os meus amigos ouvindo a Rádio da universidade onde estudo e escutando "beija flor que trouxe meu amor..." Imagina a cara do professor da Univates quando ele sintoniza na "sua" rádio e ouve a Pitty cantando. Ele deve pensar que, no fundo, aquela rádio talvez não seja tão boa assim, mas é limpinha. E talvez isso já seja o bastante no país da desordem.

Onde estão os programas voltados à história músical? Quem pode nos apresentar, nem que seja nas madrugadas de segunda-feira, algo como "as raízes do psicodelismo", "o techno alemão do pós guerra", "o industrial na música"? Estranho demais? Cabeça demais? Hermético demais ? Talvez a maioria desses adjetivos devessem combinar com o pensamento de uma universidade do primeiro time. Uma universidade com alunos e professores pensantes.

Ou poderia se pensar em um programa voltado ao debate de líderes de diferentes facções acadêmicas? Ah. "Facções acadêmicas"? Será que não existem facções acadêmicas na univates? Elas dialogam? O que elas pensam? Onde elas discutem? Como elas se expressam?

Uma solução prática e urgente: a volta do "Só Sonzeira" no final dos domingos. Talvez aos poucos as coisas voltariam ao seu caminho.


Só para constar: nesse exato instante, na rádio da Univates, toca a música da Adriana Calcanhoto. Não aquela faixa conceitual de Maritmo. Nem a nova do Maré. É a música da novela mesmo. Aquela que os alunos gostam e os professores A-DO-RAM.
E, assim, o meu tempo aqui em Lajeado vai passando. E, por aqui, a tendência das coisas parece sempre tender a piorar um pouco mais. Pelo menos, nesse momento, alguém acredita estar cagando na melhor privada do estado. Pensamento positivo e bola pra frente! Essa é a ordem.

segunda-feira, 9 de junho de 2008


é tarde da manhã. a casa dorme. não existem grilos na madrugada fria.
por cima da neblina haveria uma nuvem se você estivesse aqui. a sua voz me faria menos sozinho. aqui os homens escondem de mim a máscara que me puseram. aqui estou do lado do mal. em frente a minha casa pintaram uma mancha branca no tronco de uma das árvores. não existem casualidades. apenas sinais. eternamente enviados por não sei quem e tantas vezes passados sem notar. a vida escorrendo lenta aqui nessa cidade. os homens emburrecendo mulheres em silêncios constrangedores na mesa do restaurante. a televisão passando as notícias. os comentários quase insones durante os comerciais. e eles comem tanto. tão demais. engolem o amargo do silêncio disfarçado de alimento. sofrem tanto os homens daqui. da dor de sentir-se sozinho. para sempre. abandonados de si mesmos. murchando um pouco mais a cada dia. chorando um pouco mais para longe de si. engolindo tudo o que pode ser letal. não existem casualidades. eu é que ainda não compreendo todos os sinais à minha volta. ou apenas finjo não entender para não sofrer por antecipação.
a noite está fria. e parece que vai ser longa.

domingo, 8 de junho de 2008


As noites de inverno são tristes aqui longe de tudo. Por volta das quatro da tarde o sol já não existe mais. Um nevoeiro que vem do rio encobre toda a cidade e, com ele, também se vai o pôr do sol. Quando faz claridade todos saem à rua.


Hoje o sol apareceu por volta das duas e meia da tarde. Eu, como todos os habitantes dessa pequena cidade, saí para pegar o sol. Dirigi até uma estrada deserta no meio da zona rural e fiquei ouvindo bob dylan. Quando a bateria do mp3 acabou liguei o rádio.


Por sorte eu estava no topo de uma pequena colina e por sorte o rio passava ali perto e por sorte o rádio estava sintonizado na frequência 94.9 e por sorte eu estava sozinho. como sempre. Por sorte era a ipanema fm e eu não lembrava mais que a ipanema existia e que quando eu era adolescente e estudava na unisinos era a ipanema fm que eu escutava todos os dias.


o nome do programa de tarde de domingo era algo como ipanema felicidade, apresentado por uma doce voz chamada marília. e marília tocou coisas tão bonitas e fez o domingo ficar tão mais suave com seus sons melancolimanete alegres. como uma tarde de domingo quando o sol aparece da forma mais inesperada. como as músicas quando tocam na hora certa. sempre quando nunca se espera.


é uma pena que a ipanema não pegue tão bem aqui em lajeado. é uma pena que a rádio da univates tenha colocado a sua frequência no 95.1, o que praticamente aniquila o caminho para a ipanema chegar até nós. o que praticamente aniquila a possibilidade de nossos ouvidos escutarem boa música. e assim, somos bombardeados por uma rádio universitária que de inovadora e inventiva pouco tem. uma rádio universitária que não ousa, que cumpre tão pateticamente o papel social que uma rádio comunitária deveria ter. o mal gosto acadêmico grita nos nossos ouvidos. se pelo menos esse lixo estivesse longe da ipanema fm... se pelo menos tivéssemos escolha. mas não. temos a rádio da univates. temos qualquer coisa disfarçada de inteligência. temos a melhor privada do estado. e temos uma rádio despejando cocô em nossos ouvidos.
























































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sexta-feira, 6 de junho de 2008


tenho tido sonhos estranhos e gengivas que dóem e que sangram. como quando eu era criança. sonhava com artistas famosos. fazia tempo que eu não sonhava com artistas famosos.


na noite passada eu estava na frente de uma casa para onde deveria levar uma mala de dinheiro. todos estavam armados. até mesmo o pedro bial. quando os nervos começaram a esquentar eu saí da casa e, do outro lado da rua, dylan estava indo fazer um show. eu fui falar com ele e nós corremos de mãos dadas pelo meio da rua e ele perguntou se eu veria o show daquela noite. pensei que ele fosse me convidar para ir com ele, mas ele desapareceu no meio da rua da minha casa.


pequenos rios de sangue sobre os meus dentes. isso não é sonho. isso faz parte de quando eu era criança e vomitava todos os dias. ultimamente tenho vomitado todos os dias. geralmente no banho. como quando eu era criancinha.


antes do banho geralmente eu chego em casa com muita fome. é complicado passar a tarde bebendo. depois de uma tarde no bar da rodoviária, quando o sol se põe o vinho já me derrubou. por duas vezes quase bati no poste aqui da esquina de casa.


abro a geladeira e sempre tenho vontade de comer. não sei o que vem antes. se é a vontade de comer ou a geladeira que se abre. eu sei que isso só se dá pq não estou magro e nem gordo no presente momento. quando estou muito magro eu entendo que a imagem não combina com a ação e eu desisto da geladeira para ver a novela. quando estou gordo a imagem se torna ainda mais repulsiva e eu abandono a cozinha para caminhar pela cidade e passar frio. dizem que o frio emagrece. e a magreza enobrece. então o frio enobrece também. claro que o frio enobrece. aqui tem um mendigo loiro e eu me sinto em um filme francês sempre que passo por ele. ele é jovem e loiro e belo. deve ter algum dilema existencial que o levou às ruas. existe tanto charme na sua pobreza que eu chego a me perguntar se ele não é um desses artistas plásticos contemporâneos que fazem do próprio sangue a sua obra de arte. ou algum jornalista vivendo alguma reportagem de crítica social. de qualquer forma, nenhuma das alternativas me deixa à vontade para fingir ser seu amigo e convidá-lo a um copo de vinho. una copa, como dizem aqui. sim. isso também é brasil, embora muito mais perto de montevidéo do que do rio de janeiro.


fiquei parado na frente da geladeira esperando que ela parasse de girar. fiquei ajoelhado com a cadela pulando ao meu lado. peguei-a com força e a arremessei contra a pia. ela gemeu e voltou para a poltrona da minha mãe. peguei uma linguiça, bolachas de manteiga, dois activias e um pouco de tofu. o tofu e os activias eram para neutralizar os malefícios do salame e das bolachas de manteiga.


na sala a televisão passava notícias sobre celebridades e eu pensei ter escutado o nome de bob dylan na voz de um jovem ator candidato a ator sério no horário nobre. na verdade o jovem ator candidato a galã sério era um cara muito parecido comigo. senti a mesma raiva que sempre sinto em todas as vezes que alguém se antecipa a mim e ocupa um lugar que deveria ser meu. eu sou o jovem ator sério candidato a galã clone do bob dylan. só de raiva abri uma garrafa de vinho cara. e ateei fogo à lareira. eu sabia que alguma coisa estava errada comigo. nenhum candidato a jovem ator sério galã talentoso clone de um ícone pop está enfurnado em uma cidade da fronteira do brasil com uruguai, fumando, comendo e bebendo vinho.


terminei a garrafa e larguei o prato na mesa. enquanto chegava no banheiro escutei os passos tímidos da cadela pulando no chão e estacionando em frente à mesinha. que comesse tudo. todos os meus resto eram seus. e depois que vomitasse a noite inteira. igual a mim.


tirei a roupa e fiquei pelado tremendo de frio na frente do espelho. eu não estava magro, mas ainda não era propriamente gordo. apertei as gorduras do abdomem e elas enchiam as duas mãos. e eram frias. seja gordo ou seja magro. só não seja um meio-termo. nunca seja o meio-termo. como disse deus: eu vomito os mornos.


liguei o chuveiro e peguei uma escova. coloquei bastante pasta e esfreguei os dentes com força. limpei todos os cantos da minha boca até que o gosto da linguiça desaparecesse. depois virei a escova e pressionei o seu cabo contra a garganta. uma pressão subiu pelo abdomem e fez com que me curvasse. a água escorria pelo ralo e o chão estava tão perto de mim. um gosto de sangue azedo na boca e eu engoli quatro goles da água quente do chuveiro e, antes que a água chegasse ao estômago, um golpe certeiro da escova contra a garganta fez um jato de água marrom e vermelha tingir de colorido os azulejos do chão. pequenos pedaços de linguiça boiavam. alguns descansavam sobre as unhas dos meus pés. cuspi mais algumas gotas de sangue e tive vontade de chorar. eu não era mais o jovem ator galã promissor clone de um ícone pop. eu teria que vomitar muito vinho com linguiça para chegar aonde eu precisava chegar.


eu teria que saber para onde estava indo se queria chegar em algum lugar. no meio disso eu acho que desmaiei. ou só não lembro mais. ou a história perdeu a graça. tem dias em que não estamos inspirados. não adianta forçar.
ps - a foto foi a jordana fez lá na ceva 20 e ela sempre está inspirada.

terça-feira, 3 de junho de 2008


poderia ser tanta coisa para te dizer. fico tentando imaginar do que se fazem os textos que escrevo. fico tentando descobrir quando foi que os meus dias se tornaram um refúgio. um eterno retiro. a procura de um pequeno esplendor que coroe o final de cada tarde. sempre sozinho. cada vez mais em silêncio. tão longe que até eu mesmo corra o risco de me perder de mim.


sonhei com viagens a noite inteira. a cada novo sonho o meu mote era sempre o mesmo: a iminência de uma viagem. 


de uns tempos para cá a minha voz tem sido ouvida. os meus textos, subitamente, começaram a ser lidos embora as minhas idéias ainda não tenham começado a tomar a projeção que espero, um dia, elas tomem. continuo mudando tanto de idéia o tempo todo. o engraçado é que quanto mais as minhas idéias se transformam, mais os meus conceitos se solidificam. conceitos antigos, que eu pregava há tanto tempo e que, de uns tempos para cá, vinham me parecendo tão superficiais voltaram a ser fundamentais para mim. se o significado para o tempo seja mudar o tempo todo, então voltar ao que é superficial pode ser uma parte decisiva do processo. uma rota sempre necessária à jornada. se os tempos são a mudança, pensamentos quase infantis e adolescentes no seu ímpeto de ser eterno, a mudança também pede um retrocesso tanto no pensar quanto no agir. trazer à carne o significado dos conceitos para não perder-se em abstrações. ou voltar a um ponto inicial. 


nenhuma visita nunca será idêntica à outra. pelo simples fato de a visita anterior ter sido um fator decisivo à mudança que virá para a próxima. a visita me transforma e querer reviver o passado é lutar contra o ato de viver. morte, portanto.


se o tempo é mudança, mudança é quase certo que seja apenas mais um significado para estar vivo.


um passado ancestral recomeça, pouco à pouco, a se materializar na minha cabeça. como usar o termo "recomeçar" se nada começa duas vezes do mesmo jeito que foi? lembro de quando os meus avós se referiam à “há vinte anos atrás...". vinte anos atrás parecia ser tanto tempo há tão pouco tempo atrás. muito mais tempo do que o meu na terra até então. envelhecer é redimensionalizar não apenas o espaço, mas muito mais o tempo. envelhecer é reaprender as dimensões do pensamento que nunca pára de crescer. como o adolescente que não sabe o que fazer com as extremidades, cada vez mais distantes de si, esbarrando pela casa, tropeçando na mobília. assim somos nós vivendo. tentando entender a direção para onde nosso pensamento segue. o espaço que expandir o entendimento, nos toma. vamos levando os dias tentando encontrar algum equilíbrio sem perceber que o equilíbrio não está em nenhum outro lugar, senão na sua própria procura. se perceber assim implica cair no precipício. é preciso prestar atenção à paisagem antes da queda.


"ou o buraco era muito fundo ou ela estava caindo muito devagar..."  


o corpo celestial de onde vem o pensamento cresce dentro de um corpo físico que mingua. os braços cansam. os órgão esfriam. a noite sempre vem. mas eu sei que, se ultrapassar a próxima arrebentação, talvez um oceano de calma prometa me fazer repousar por algum tempo. um tempo de morte, avesso às mudanças. se mudar o tempo todo é estar vivo, talvez a eterna repetição seja morrer. do outro lado do mar existe, ou pode existir, uma europa. ou uma áfrica. os braços precisam ser fortes e as velas bem esticadas para dominar a direção do barco independente do vento. as correntes e os vendavais estão no mar aberto e atingir o porto indesejado é mais fácil do que se imagina. 


para onde estamos indo? às vezes é importante se fazer certas perguntas. principalmente quando as suas respostas são tão distantes. quase inexistentes. nada saber, simplesmente para constatar cada pequena descoberta.

















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segunda-feira, 2 de junho de 2008

luz silenciosa





o rosto das pessoas. as mães. os casais de namorados em silêncio. a comemoração vazia.
ontem, no fim da tarde, a festa em arroio do meio da gincana the horse era a continuação desse filme que me arrebentou por dentro.

sábado, 31 de maio de 2008

frio. muito frio no sul do brasil.









neva aqui. meu coração está cansado de sempre esperar. meu coração está cansado de sempre ter aquilo que espera e depois ficar sem saber o que fazer com o presente nas mãos. o que fazer com o seu corpo na cama. tudo o que eu peço e por tudo o que eu choro e por tudo o que eu espero. quando tenho não sei o que fazer.


estou em um café. a neve se dissipa do outro lado da janela. o acesso a internet quase não há. as noites fico sozinho esperando alguma coisa acontecer. alguma vontade brotar. qualquer vontade que resista à neve caindo lá fora.

ontem ficamos conversando em volta da lareira. o fogo nos aquecia. eu. meu pai. minha irmã. avançamos a madrugada discorrendo sobre nossos sonhos. lembramos tão pouco do nosso passado. quando estamos juntos os nossos olhos miram um futuro belo. de sonhos que se realizam e eu posso ser feliz. e eu posso não olhar para trás. 

depois eles foram dormir. e eu assisti mais uma vez ao "inferno". quando o filme terminou era madrugada e fazia muito mais frio dentro de mim do que do outro lado da janela. ele sempre me leva para longe. e mesmo que nenhuma gota escorra dos meus olhos, eles me desencadeia um pranto sem fim e eu choro sem saber por onde. e eu grito no silêncio que não se rompe. e eu deito na cama tentando entender a genialidade de kieslowsky. 

a neve se dissipa e tudo indica que a tarde desse sábado nos dará algum resto de sol. eu espero por ele. uma festa está marcada para as quatro horas da tarde. rock das quatro às seis da manhã. coisas que só acontecem aqui. na cidade ao lado uma gincana mobiliza os garotos. eu verei os seus rostos sorrindo e os seus braços comemorando cada tarefa concluída. à noite sentirei vontade de morrer. e algum filme me tirará o sono na madrugada fria. e se eu quiser. se eu puder. pegarei o carro e beberei em algum balcão de um lugar mal iluminado. algum amigo de infância sentará ao meu lado para que eu volte ao que nunca fui. para que eu seja o que nunca mais serei. até voltar para casa. e dormir. uma noite a menos para a eternidade dos dias. seguiremos. sem saber que o frio vai aumentar. sem saber o que verão nunca mais irá voltar.

terça-feira, 27 de maio de 2008

é claro que você sabe do que estou falando

























não sei direito quanto tempo faz que estou dormindo, mas começou assim:

observava os detalhes da maçaneta da porta do seu apartamento. sim, eu sou um pequeno homem. por um tempo os meus pés pararam sobre o pequeno tapete em frente à sua porta. na porta atrás de mim ela batia pratos. elas sempre batem pratos depois do almoço. e foi assim que começou. eu, estático entre duas baterias. às minhas costas minha mãe. à minha frente a sua. sob os pés eu seria bem-vindo. pelo menos era o que estava escrito. não sei você sabe, mas eu sempre pensei nas visitas quando lia aquelas letras azuis. bem-vindos. eu pensava nas visitas que você recebia quando eu não estava lá. eu queria estar todas as tardes do outro lado da sua porta. ou do lado de dentro do seu coração. dois namorados quando se tornam antigos. eu queria ter o tempo inteiro com você. nós tínhamos a nossa música, mas você não sabia lembrar de mim quando ela tocava. assim como eu lembrava de você. mesmo quando não era ela. mesmo quando uma música qualquer era bonita demais para ser somente minha eu tomava emprestados os seus ouvidos imaginários para escutar como se fosse você.

e eu pensava tanto nas suas visitas. e cada esfregão dos meus pés sobre “bem-vindos“ era apenas para apagar o seu sorriso para portas onde eu não estivesse do outro lado. eu gastava com a sola dos meus tênis as letras que não eram para mim. por um tempo a sua casa era o buraco da fechadura. por um tempo as louças eram nós dois. eram as mãos das nossas mães nos lavando os cabelos. nos secando as dobras. nos aquecendo depois do banho. o esmalte desbotando um pouco a cada prato. um copo quando se quebra. e os sonhos de quando elas foram mocinhas. e o ralo acumulando sujeiras. e o encanamento que, mais cedo ou mais tarde, entupiria. não importava o quanto elas cuidassem. o encanamento, mais cedo ou mais tarde, entupiria. e as paredes teriam que ser quebradas. e os azulejos de passarinho seriam destruídos. e os azulejos de passarinho não seriam mais vendidos em loja alguma. por isso elas raspavam as unhas contra o fundo do ralo. pontinhos de arroz. sujeirinhas de carne envoltas em fios de cabelo. as pontas dos dedos trocando esmalte por farelos de sujeira. mortos de comida. solidões. do outro lado da porta éramos todos tão iguais. os azulejos de passarinho azul. os ralos limpos. os canos e os seus entupimentos eternos.

sábado, 24 de maio de 2008

olho para o meu rosto no espelho do banheiro. não há nada de belo dentro dele. é o rosto de um homem. não há nada de belo nisso. nem nas histórias que não me contém.

 do outro lado da janela o sol queima a cidade. do outro lado do mundo a minha casa está vazia. os meus pais. onde estão? em algum ponto da cidade eles esperam por mim. em algum ponto da vida eles desistiram de esperar. é sempre mais confortável mandar embora aquilo que pode nos ser estranho. aquilo que um dia possa vir a nos ameaçar. assim foi. ou assim será. estou perdido no tempo e confuso entre presentes. o limite exato. o último instante. quando o futuro passa à condição de passado. é nesse instante em que me encontro. sempre fugindo daquilo que tento encontrar. 
os meus pais olham o tempo passar por mim, mas não são capazes de observar. os sentimentos sempre confundem a visão do aflito e a realidade se distorce e se confunde em tanto e tantas mentiras adquirem o doce gosto da verdade sem que para isso tenham sofrido qualquer alteração na sua essência. bob dylan cantando hurrycane sem saber que absolvia um culpado. a segurança dos que não se levam a sério. quem nunca se levou nunca se levará.
I'm talking about you bitch.
putinha maquiada do outro lado do espelho.
I'm talking to myself bitch.
putinha maquiada do outro lado do espelho.
e eu sei que dentro do seu olhar você carrega toda a fatalidade do tempo que já começou a te consumir. a vida nunca mais será doce. você entenderá cada vez menos sobre tudo. menos sobre você mesmo. você irá chorar com muito mais frequência, mas as lágrimas serão tão poucas. cada vez menos. você falará mais e a sua voz adquirirá tantas certezas. mas o seu sono será a insônia e as dúvidas só ganharão tamanho e as doenças redesenharão a sua dimensão em todas as noites, a cada noite que o sono não vem. você alcançará todos os seus sonhos. e mesmo assim não irá sorrir. e mesmo assim não irá acreditar. a medida que os sonhos acordam as verdades adquirem o perigo de uma escada cada vez mais alta. o equilíbrio se faz mais necessário a medida que a altura aumenta. a morte é sempre mais perigo quanto mais longe estamos do chão. segure-me. só não espere de mim que eu te entregue a minha alma.

de frente para o espelho eu disfarço. e desenho fios amarelos em volta dos olhos. eu tento mentir sem entender que as imagens são mentiras que desenhamos para que todos acreditem, menos nós mesmos. como que faz de conta que tudo está bem. e assim o mundo melhora. a vida perde todo o seu estranho. e existir se torna simples. por um instante que seja. como dilatar o tempo quando se torna raro e pequeno os momentos mais bonitos? eu sou um garoto normal mas eu maquio o meu rosto quando a casa está vazia. eu sou um garoto normal mas eu tenho quase trinta. eu sou um garoto normal. mas eu finjo que não. tão bem que até sou. até que posso ser. 
um dia eu serei um homem. um dia eu serei tudo o que ela espera de mim. tudo o que ela pensa que eu sou quando sai de casa e eu sei que por mais que ela demore para voltar, ela sempre voltará antes do esperado. o barulho da chave penetrando a porta nunca será belo. nossos abraços nunca serão inteiros. e eu nunca conseguirei aceitar toda a beleza que os seus olhos trazem somente para mim. quando foi que começamos a nos perder? quando foi que eu deixei de te precisar. quando foi que eu te matei pela primeira vez. eu te beijei com força sem saber que a força dos meus dedos em volta do seu pescoço te machucavam com tamanha força.

o chuveiro está ligado e o vapor desfaz os contornos precisos do meu rosto de homem. do outro lado do espelho eu posso ser tudo o que não quero. talvez eu seja. talvez eu precise dele para me mostrar a verdade da qual eu preciso fugir. os vincos acumulando poeira. as extremidades da minha boca pendendo para o chão. os risos da adolescência para sempre ecoando dentro do banheiro vazio. os meus olhos. tão cinza. os meus olhos. tão fundos. os meus olhos. tão longe. no quarto toca uma gravação antiga dos carpenters. ecos de um tempo que não foi meu. ecos de uma vida que nunca seria a minha. os ossos acentuam o contorno da minha pele e a magreza me deixa mais homem do que eu gostaria de ser. por mais que eu tente ser magro. por mais que eu espere ser belo. por mais que eu deseje ser aquilo que não sou. eu nunca serei ela do outro lado do espelho. fecho os olhos para que meu rosto receba uma primeira e fina camada de pele ainda mais clara. sempre mais jovem. a falsidade sobre os poros velhos demais. a suavidade da esponja e todos os carinhos que eu nunca senti. a ponta dos seus dedos sobre mim quando eu te amei. a ponta suave dos seus dedos sobre o meu rosto. quando você me amou. a ponta suave dos nossos corpos se tocando pela primeira vez. quando um dia nos amamos.

 o sol se desfaz contra a neblina do chuveiro e os meus contornos assumem a doçura de um castiçal antigo. descrevo pequenos raios no contorno dos olhos e eu serei sua se você me quiser. abrir os olhos é sempre descobrir o real.

a casa está vazia. procuro a maquiagem perfeita. o contorno ideal. a espessura exata. a casa está vazia e eu posso ser eu. antes da queda. antes da surra. antes do banho. o chuveiro está ligado e antes que eu entre embaixo dele eu ainda posso ser eu. antes que ela escorra do meu rosto e se lave até o ralo eu ainda posso ser eu. antes que ela parta e eu me veja sozinho. antes que eu me bata. o chuveiro está ligado como quem avisa que o fim existe. os diagnósticos quando são positivos. os falsos negativos. as janelas imunológicas. as taxas quando atingem alturas inconcebíveis. as metástases. os quadros quando irrevertem.

o chuveiro está ligado dentro da casa vazia. a pintura não dura para sempre. o meu rosto sempre será o mesmo. por mais que eu tente que não. por mais que eu finja que sim. sempre haverá um homem por baixo de mim.  o limite indefinido do meu pau sempre cresce pelos motivos menos compreensíveis. pequenas cócegas contra os lábios tão finos. o batom me tinge em vermelhos e eu sangro pelo que nunca serei. pincéis de mágoa contra as pálpebras fechadas. os lilazes nunca reluzem quando enfeitando a mim. as cores nunca me furtam. os furos pequeninos fios negros que nunca abandonarão o meu rosto. pequeninos espessos fios negros arrebentando a pele para me fazer mais eu. grotecismos. grotescidades. nomes feios. palavras de som nojento. pequeninos buracos negros do que sou crescendo no meu rosto. a tristeza da mulher barbada na tarde de segunda-feira. o circo quando dobra a sua lona. a vida quando as luzes se apagam. 
eu nunca serei sua. eu nunca seria ela. eu nunca serei uma. se de algum eu sempre serei, serei minha até o fim. as punhetas quando em frente ao espelhos. os cabelos quando pingam sobre os ombros frios. o volume quando pulsa entre as pernas. a gilete quando segura na mão esquerda. o corte quando rápido. a vida quando não mais. a tarde quando a última. 

do outro lado do espelho eu sou uma mulher. um pouco grande demais. um pouco velha demais. quantos paus despertariam do seu sono ao me ver assim? meu pai? algum ator da televisão? o garoto que entrega jornais todas as madrugadas e passa por mim quando volto para casa sozinho em uma noite de sábado?

eu estou pronta. meu gênero se transmuta em outras e eu teria um nome se a mim fosse dada a benção de um batismo. é preciso mostrar para vir a ser. é preciso julgar para absolver.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Os dias seguem lentos aqui na grande cidade. preparo-me para partir mais uma vez. para um lugar que sempre muda todas as vezes quando volto. as plantações redefinem a paisagem longe daqui. as estradas adquirem novas texturas conforme o tom das cores que as envolvem. o sol muda lentamente de posição e as sombras escondem pontos dentro da paisagem que eu não pensava perceber assim, na escuridão.

os homens na grande cidade escondem as emoções e vamos todos levando a vida de uma forma tão blasé. como reagir intensamente a tudo o que nos cerca se tudo o que nos cerca se tudo o que nos cerca é tão intensamente possível de uma grande reação? e assim vamos, pouco a pouco, nos tornando um pouco mais frios. surpreender-se implica não ter medo. assumir o ridículo. e desgastar um tanto de energia.

na pequena cidade as surpresas são tão grandes. como se carecessem de surpresas as reações podem ser desmedidas e muito maiores do que eu, um cara acostumado com a grande cidade, poderia imaginar. os homens nas pequenas cidades sofrem mais por que pensam mais. a eles é dado o tempo para pensar. as horas para suportar. a vida vazia para viver. retirar-me é como redescobrir em mim a incerteza das reações dos poucos que ainda permito me rodear. retirar-me é sempre ser surpreendido pela inconstância dos colonos. que sempre esperam demais. que sempre cobram demais. que sempre sabem tão pouco sobre si mesmos. pq encontrar a dor e o lado negro dentro do próprio coração pode ser tão perigoso.

os colonos agarram os pés à terra. e lá seguem os dias. comendo migalhas do mundo sorrindo de longe. contentando-se com notícias de jornais que eles nunca lerão. acordando surpresas que nunca serão reais. a vida dos colonos é perigosa para quem não é um deles. para quem, há muito tempo, deixou de ser um deles.

a partida assusta os colonos. e entender que um colono deixou para trás a vida presa à vida, pode ser triste demais para continuar levando adiante. como eu disse, hoje repito: é preciso leveza no espírito, paz no coração e inteligência aguçada para não confundir o sucesso de outrem no fracasso de si próprio.

termino o chá nesse pequeno café perdido em alguma charmosa rua de são paulo. em pouco tempo embarco para o sul. conversarei com as plantas e beberei com poucos. abraçarei minha mãe e beijarei o meu filho. o mundo não será melhor e nem os dias mais bonitos. voltar à casa para ver dentro dela toda a sujeira que sempre esteve lá. que sempre estará. olhar os meus amigos e não reconhecer dentro dele o que um dia nos moveu. observar sozinho a cidade envelhecer. as risadas perderem a cor. as conversas desgastando-se em sentido. carecendo de verdade. as noites perdendo a vontade. o interior me chama sem que eu queira voltar. mas eu vou. eu preciso. mais uma vez. dessa. a última.

berlim. logo estarei nas suas ruas. chorando a sua falta de luz. sorrindo os seus passos lentos. tristes. e inteiros. longe é um lugar onde nunca poderei estar.

terça-feira, 20 de maio de 2008

encontrei um refúgio. um pequeno lugar onde posso guardar o pouco que sobrou da longa batalha dos últimos meses. há um refúgio nessa cidade. como nos tempos ancestrais, é preciso sempre voltar à selva. por menos bela que ela seja, é preciso sempre olhar para o que não é bonito. talvez eu tenha sorte, mas eu não posso fazer nada se é assim que as coisas são. é preciso calma para entender os movimentos do tempo. é preciso guardar as asas para nunca ter que voar.


a tarde cai tão devagar sobre essa cidade feia onde tento um refúgio. a casa está vazia. dylan continua gritando na vitrola. há vinho por toda a parte. as poltronas contém amigos que sempre podem chegar contanto que saibam a hora certa de partir. todos os meus amigos sabem a hora exata de partir. alguns partem cedo demais. outros nunca chegam. nunca chegaram. nunca chegarão. o vento dos idiotas está longe. soprando em terras distantes. o vento sopra sobre os idiotas que fingem voar sem nunca tirar os pés do chão. o vento sopra sobre os idiotas que sempre buscam aquilo que não ousam desejar. o vento sopra sobre os idiotas que me usam e pensam que eu não enxergo a miséria disfarçada de tristeza dentro dos seus corações. o interesse disfarçado de amizade. os crimes mais cruéis são sempre aqueles que cometemos contra os nossos próprios princípios. mas eu tenho um refúgio. eles não. eu parto. eles nunca. o vento sopra e os seus cabelos nunca voam para longe. para os idiotas, as terras distantes são apenas mensagens trazidas de fotografias. páginas de internet. álbuns que nunca foram seus. as tardes nos seus refúgios não escondem a solidão do cansaço. eles estão longe atormentados por pensamentos que não se concretizam. não se concretizaram. que nunca se concretizarão. até quando? se você tiver a resposta nunca encontrará a saída.


quando faz silêncio eu viro o disco. sem saber que o lado b é sempre mais perigoso. a agulha passa rente a abismos infinitos que podem cegar o coração de quem não ousa partir. abandonar tudo. esquecer todas as voltas. desentender todos os caminhos. morrer sempre para continuar vivo. a sabedoria dos que entendem que nem toda a impermanência  do mundo será o bastante e nem nunca será medida.


estou refugiado. muito mais perto do que qualquer um possa imaginar. nem eu mesmo. quando saio de casa para comprar vinho e vinis antigos esse pode ser todo o trabalho de um dia. que a noite venha. e que eu me perca de mim mesmo no imenso trajeto entre o quarto e a vitrola da sala mais uma vez. que o vinho me leve cada vez mais para longe. os trajetos de terra foram cumpridos. dylan cantou para mim e eu chorei. e uma estrela caiu para que todos pudessem ver. e o vento derrubou o seu microfone. e todo o estádio cantou junto por modern times como nunca se viu. talvez aquele tenha sido o fim. eu estive sozinho. como sempre estarei desde então.


a solidão sem desespero é o caminho para a felicidade. ninguém espera por nós. que seja belo enquanto for intenso. que o vento sopre os idiotas para longe de nós. e que a natureza seja linda. longe daqui.

sábado, 10 de maio de 2008

letter to hermyone


Liebe,
acabei de chegar em casa. passei a semana inteira em cotiporã. um povoado no topo da montanha onde será filmado o longa. fiquei com a equipe mostrando cenários. todas aquelas pessoas ali, dispondo da sua vida para contar a minha história. foi forte. bastante forte.
agora relaxo. e curto a minha mãe como vc deve estar curtindo a sua. sempre desconfie dos diagnósticos. por mais tristes ou mais doces que eles sejam. os diagnósticos são apenas o retrato de uma realidade. e toda a realidade é temporária. os retratos não. 
joni mitchell toca na vitrola músicas lindas e ela me fez lembrar você.
um vinho e tudo o que uma noite de sábado sempre vai representar.
queria você aqui. ou queria uma daquelas noites de sábado no meu porão. nós três quando ainda ousávamos nos encontrar. vendo o mundo tão triste no conforto das nossas certezas sem saber que tudo mudaria um tanto demais para o pouco tempo que passou.
se eu tiver sido o seu passado serei eterno em um tempo sem fim.
muita saudade
de longe

carta para um leitor aflito

Querido Giulliano,
chega uma hora na vida em que as nossas decisões passam a depender apenas da nossa própria decisão. o que você é depende, em primeiro lugar, da sua própria aceitação. com o tempo a aprovação dos pais passa a ser relativa, às vezes menos importante. ou mais profunda. mais sábia. mais medida. você tem uma decisão nas mãos e já fez uma escolha. nesse momento essa é a escolha mais importante da sua vida. você deu o primeiro passo. você disse "sim". 
contar aos seus pais é o menos importante. esse momento é apenas seu. você não está fazendo nada de errado e nem nada que vá contra a sua vontade. respeite os seus segredos. e mantenha-os com você quando a sua dimensão assim pedir.

te pergunto por quê contar à sua mãe?
para que ela te ajude? para que ela te aprove? para que ela te ame?
ela SEMPRE vai te amar. sempre! e sempre vai temer e sempre vai pensar que você é um pouco mais criança do que realmente é. pense bastante antes de entregar o seu segredo. o tempo é o melhor amigo de tudo. espere. espere. espere.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

there will be silence














A tarde está cinza e a noite ontem foi realmente muito fria.
Vi dois filmes. Conte Comigo e Feminices.
Fico me perguntando até onde Laura Linney será capaz de chegar. E se Domingos Oliveira é um cartão-postal do meu futuro. Se for assim, que a velhice chegue agora!

A peça que escrevo avança a passos lentos. Talvez o tempo me traga a urgência que sinto nos filmes do Domingos. Em tudo o que ele faz. Quando a morte arreganhar os seus dentes mais uma vez talvez eu volte a escrever com a mesma compulsão dos mestres quando se aproximam do fim. O novo romance também estagnou. Minha cabeça está devagar e eu prometi que vou fumar menos. Comprei passagens para São Paulo. Vou mudar de casa. Vou sair do porão onde morava. Vou comprar uma vitrola na feirinha do Bixiga e vou comprar todos os vinis que eu sempre quis comprar, mas que nunca tive coragem. Vou levar uma das muitas garrafas de whiskie do meu pai. Todas as garrafas de whiskie que ele tem foram dadas por mim, nos inúmeros free shops que atravessei no ano passado. Um Red Label a mais ou a menos não fará falta para ele. E terei vinhos. Muitos vinhos. E foda-se a nutricionista. Eu vou beber pensando em mim. Nos caminhos que ele me abre quando Dylan toca na vitrola e o vinho escorre pela garganta. E uma cama gigantesca vai ocupar quase todo o quarto. Extra king size eu pedi. E eu ganhei. Vamos dormir e dormir e dormir e dormir e depois trepar até que a gente se perca de nós mesmos. Depois eu ficarei sozinho pq sempre existe algum avião para te arrancar de mim. E sempre existe alguma beleza na minha solidão.

Eu vou voltar. E a janela da sala será um pequeno bosque onde folhas secas cairão perto de nós. Em São Paulo as folhas caem? Eu tento lembrar, mas não consigo. No quintal do meu porão aí nessa cidade as únicas folhas que caíam eram as da ameixeira. Aqui as árvores ficam nuas e o chão fica cor de laranja e é bonito. Gosto de tomar ácido em tardes de inverno. Gosto de deitar sobre as folhas de plátano sentindo o sol atravessar os galhos nus e esquentar o meu corpo e escutar as asas das borboletas batendo sobre a minha cabeça e correr entre os seus troncos e brincar com os meus amigos como quando éramos criança. Nós ainda somos. O tempo se confunde em nós e as idades não passam de estados de espírito que nos visitam nos momentos mais inesperados . Quando anoitece nós corremos até a ponte onde o sol sempre é bonito. Alguém toca violão e as canções sempre parecem a primeira vez. Você nunca esteve aqui para ver a fogueira quando anoitece. E depois se abrigar na cabana e ligar o som antigo e dançar no meu quartinho onde eu cresci e onde as paredes ainda estão pintadas com o símbolo gigante do AC/DC. Você sabe tão pouco sobre mim, mas me ama como se me conhecesse inteiro. Gosto de encher bexigas de ar e deixá-las vagando pelo chão da casa. Gosto de ver as cores ficando mais fortes à medida que o ar se esvai de dentro delas. Gosto de atravessar as tardes vendo os balões murchando e os discos criando sulcos e as agulhas quebrando de tanto usar. Gosto de você perto de mim me mostrando que o mundo é bonito e que a vida vai sempre ser boa comigo. A vida ficou tão boa para mim desde que te conheci. Eu sempre te digo isso, mas eu não sei se você entende. Eu não sei se você entende como a vida pode ser ruim com alguém, mas ela foi ruim comigo até eu te conhecer. Por isso eu me joguei daquela janela no meio daquela noite e por isso eu mudei para um porão. E por isso você me salvou de lá de baixo. E por sorte eu não fui embora para sempre. Você estava lá enxugando o meu sangue e levando o meu corpo morto para o hospital. Mas agora é a luz e agora você está comigo e hoje eu sou forte. E a nossa janela fica há apenas dois andares do chão. A queda, se acontecer de novo, não vai me matar. Você está perto de mim e eu prometo que não vou cair.



E eu terei um pequeno escritório. Pintarei as paredes de preto e colarei todas as estrelas que comprei nas viagens que fizemos juntos. E colocarei um retrato do meu sobrinho brincando na terra em uma tarde de verão aqui no Sul. É sempre bom ter alguma criança-índigo para cuidar de nós. Mesmo que seja somente através de uma fotografia. Uma cadeira confortável para as minhas costas que não são mais as costas de antes da queda. Eu estou um pouco torto. Ainda mais torto. Eu sempre consigo ficar ainda mais torto.

E teremos amigos para conversar. Noites para atravessar. E o mundo acontecendo lá fora será apenas um mundo acontecendo lá fora. Meus trajetos serão da cama para o escritório. Com paradas estratégicas em frente à pequena vitrola para escutar Dylan e observar as bexigas diminuindo de tamanho. Teremos finalmente a nossa pequena Berlin para habitar. Nossa pequena Buenos Aires para sonhar. Nosso Uruguai dentro de nós. Seremos todos os lugares que habitamos juntos todos juntos dentro das paredes da nossa pequena casa. Eu estarei em São Paulo outra vez, mas será como se não. 

E eu serei o seu Bob Dylan. Mesmo sem saber cantar. E eu cantarei baixinho para você se você prometer que finge não me escutar. E eu serei lindo para você. Se você fingir não me notar. E eu te amarei todos os dias se você fingir também me amar.













.



pelo visto teremos o inverno mais frio em cinqüenta anos. sinto o inverno aqui. um copo de whiskie. cat power rolando na vitrola. o mundo me esperando no meio da noite fria. cat power. whiskie. o inverno. gauchismos sou eu nesse inverno que começa prometendo inesquecimentos. o mundo rola devagar.
maffesoli.
dois filmes.
o inverno sou eu me descobrindo inteiro.
o melhor. em cinqüenta anos.
traga me as cinzas. meu corpo é sem gelo. meu copo é sagrado.

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