





poderia ser tanta coisa para te dizer. fico tentando imaginar do que se fazem os textos que escrevo. fico tentando descobrir quando foi que os meus dias se tornaram um refúgio. um eterno retiro. a procura de um pequeno esplendor que coroe o final de cada tarde. sempre sozinho. cada vez mais em silêncio. tão longe que até eu mesmo corra o risco de me perder de mim.
sonhei com viagens a noite inteira. a cada novo sonho o meu mote era sempre o mesmo: a iminência de uma viagem.
de uns tempos para cá a minha voz tem sido ouvida. os meus textos, subitamente, começaram a ser lidos embora as minhas idéias ainda não tenham começado a tomar a projeção que espero, um dia, elas tomem. continuo mudando tanto de idéia o tempo todo. o engraçado é que quanto mais as minhas idéias se transformam, mais os meus conceitos se solidificam. conceitos antigos, que eu pregava há tanto tempo e que, de uns tempos para cá, vinham me parecendo tão superficiais voltaram a ser fundamentais para mim. se o significado para o tempo seja mudar o tempo todo, então voltar ao que é superficial pode ser uma parte decisiva do processo. uma rota sempre necessária à jornada. se os tempos são a mudança, pensamentos quase infantis e adolescentes no seu ímpeto de ser eterno, a mudança também pede um retrocesso tanto no pensar quanto no agir. trazer à carne o significado dos conceitos para não perder-se em abstrações. ou voltar a um ponto inicial.
nenhuma visita nunca será idêntica à outra. pelo simples fato de a visita anterior ter sido um fator decisivo à mudança que virá para a próxima. a visita me transforma e querer reviver o passado é lutar contra o ato de viver. morte, portanto.
se o tempo é mudança, mudança é quase certo que seja apenas mais um significado para estar vivo.
um passado ancestral recomeça, pouco à pouco, a se materializar na minha cabeça. como usar o termo "recomeçar" se nada começa duas vezes do mesmo jeito que foi? lembro de quando os meus avós se referiam à “há vinte anos atrás...". vinte anos atrás parecia ser tanto tempo há tão pouco tempo atrás. muito mais tempo do que o meu na terra até então. envelhecer é redimensionalizar não apenas o espaço, mas muito mais o tempo. envelhecer é reaprender as dimensões do pensamento que nunca pára de crescer. como o adolescente que não sabe o que fazer com as extremidades, cada vez mais distantes de si, esbarrando pela casa, tropeçando na mobília. assim somos nós vivendo. tentando entender a direção para onde nosso pensamento segue. o espaço que expandir o entendimento, nos toma. vamos levando os dias tentando encontrar algum equilíbrio sem perceber que o equilíbrio não está em nenhum outro lugar, senão na sua própria procura. se perceber assim implica cair no precipício. é preciso prestar atenção à paisagem antes da queda.
"ou o buraco era muito fundo ou ela estava caindo muito devagar..."
o corpo celestial de onde vem o pensamento cresce dentro de um corpo físico que mingua. os braços cansam. os órgão esfriam. a noite sempre vem. mas eu sei que, se ultrapassar a próxima arrebentação, talvez um oceano de calma prometa me fazer repousar por algum tempo. um tempo de morte, avesso às mudanças. se mudar o tempo todo é estar vivo, talvez a eterna repetição seja morrer. do outro lado do mar existe, ou pode existir, uma europa. ou uma áfrica. os braços precisam ser fortes e as velas bem esticadas para dominar a direção do barco independente do vento. as correntes e os vendavais estão no mar aberto e atingir o porto indesejado é mais fácil do que se imagina.
para onde estamos indo? às vezes é importante se fazer certas perguntas. principalmente quando as suas respostas são tão distantes. quase inexistentes. nada saber, simplesmente para constatar cada pequena descoberta.
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neva aqui. meu coração está cansado de sempre esperar. meu coração está cansado de sempre ter aquilo que espera e depois ficar sem saber o que fazer com o presente nas mãos. o que fazer com o seu corpo na cama. tudo o que eu peço e por tudo o que eu choro e por tudo o que eu espero. quando tenho não sei o que fazer.

encontrei um refúgio. um pequeno lugar onde posso guardar o pouco que sobrou da longa batalha dos últimos meses. há um refúgio nessa cidade. como nos tempos ancestrais, é preciso sempre voltar à selva. por menos bela que ela seja, é preciso sempre olhar para o que não é bonito. talvez eu tenha sorte, mas eu não posso fazer nada se é assim que as coisas são. é preciso calma para entender os movimentos do tempo. é preciso guardar as asas para nunca ter que voar.
a tarde cai tão devagar sobre essa cidade feia onde tento um refúgio. a casa está vazia. dylan continua gritando na vitrola. há vinho por toda a parte. as poltronas contém amigos que sempre podem chegar contanto que saibam a hora certa de partir. todos os meus amigos sabem a hora exata de partir. alguns partem cedo demais. outros nunca chegam. nunca chegaram. nunca chegarão. o vento dos idiotas está longe. soprando em terras distantes. o vento sopra sobre os idiotas que fingem voar sem nunca tirar os pés do chão. o vento sopra sobre os idiotas que sempre buscam aquilo que não ousam desejar. o vento sopra sobre os idiotas que me usam e pensam que eu não enxergo a miséria disfarçada de tristeza dentro dos seus corações. o interesse disfarçado de amizade. os crimes mais cruéis são sempre aqueles que cometemos contra os nossos próprios princípios. mas eu tenho um refúgio. eles não. eu parto. eles nunca. o vento sopra e os seus cabelos nunca voam para longe. para os idiotas, as terras distantes são apenas mensagens trazidas de fotografias. páginas de internet. álbuns que nunca foram seus. as tardes nos seus refúgios não escondem a solidão do cansaço. eles estão longe atormentados por pensamentos que não se concretizam. não se concretizaram. que nunca se concretizarão. até quando? se você tiver a resposta nunca encontrará a saída.
quando faz silêncio eu viro o disco. sem saber que o lado b é sempre mais perigoso. a agulha passa rente a abismos infinitos que podem cegar o coração de quem não ousa partir. abandonar tudo. esquecer todas as voltas. desentender todos os caminhos. morrer sempre para continuar vivo. a sabedoria dos que entendem que nem toda a impermanência do mundo será o bastante e nem nunca será medida.
estou refugiado. muito mais perto do que qualquer um possa imaginar. nem eu mesmo. quando saio de casa para comprar vinho e vinis antigos esse pode ser todo o trabalho de um dia. que a noite venha. e que eu me perca de mim mesmo no imenso trajeto entre o quarto e a vitrola da sala mais uma vez. que o vinho me leve cada vez mais para longe. os trajetos de terra foram cumpridos. dylan cantou para mim e eu chorei. e uma estrela caiu para que todos pudessem ver. e o vento derrubou o seu microfone. e todo o estádio cantou junto por modern times como nunca se viu. talvez aquele tenha sido o fim. eu estive sozinho. como sempre estarei desde então.
a solidão sem desespero é o caminho para a felicidade. ninguém espera por nós. que seja belo enquanto for intenso. que o vento sopre os idiotas para longe de nós. e que a natureza seja linda. longe daqui.

