segunda-feira, 28 de junho de 2010
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
terça-feira, 15 de setembro de 2009
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
terça-feira, 1 de setembro de 2009
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Estou sentado na sala de casa vendo televisão e esperando. Mais um avião amanhã e amanhã mais um pouco de medo. Penso em levar o que não pode ser levado. Não levarei. Espero abrir a gaveta do meu quarto e encontrar restos de um sonho. Se estiver mofado, pretendo não ligar. Pensei em pedir para a minha mãe guardar no freezer, mas empregada poderia descobrir e contar tudo para as vizinhas. Se estiver mofado que se foda. Eu não vou morrer disso. Já passei dessa fase.
Sandra fala na televisão. Está curada da gripe quase mortal. Vera ainda sente febre? Se sim será melhor. A febre mortal dura quatro horas, depois desaparece, depois volta para matar. Você me disse isso ontem quase dormindo voltando para casa. Você sabe quase tudo sobre as probabilidades de nunca mais estar. Você atravessa o significado das minhas palavras, enxerga coisas através das paredes que eu penso me proteger. Eu tento. Eu finjo. Eu penso que não. Mas é para você que eu escrevo. Você pensa. Você duvida. Você acredita que não. Mas você sabe para que eu estou falando agora.
Não foi por isso que você chegou até aqui? Para estar suscetível a? But today I donno why? I feel a Litlle more blue than then!
Vamos todos pro sul no sete!
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
domingo, 23 de agosto de 2009
Viajar é ter menos tempo para pensar. Chegar em casa depois de um mês longe dela implica não conseguir dormir. Encontrar os amigos, depois de um mês longe deles, implica não saber por onde começar. Aceitar o risco de não se reconhecer à primeira vista implica esconder as fotografias para um dia depois de hoje.
Os discos estão aqui, no lugar onde sempre estiveram, mas meus ouvidos ainda não chegaram. Ainda não estou, apesar de já. A bagagem voltará aos armários. Cada quilo excedente deixará o meu rosto. Cada gota do suor que brotou longe daqui será lavado de todas as camisetas que ainda estão presas dentro da mala. As garrafas de vinho serão abertas quando eu sentir saudade do que passou. É preciso que se apaguem os vestígios para entender o que sobrou.
Estar em casa não é equivalência para voltar. Voltar é não estou. Voltei sem ter chegado. É preciso respeitar o espaço do ainda não.
A água que molhou os meus cabelos no banho que acabo de tomar tem o cheiro do encanamento do prédio onde moro, mas meus órgãos internos ainda são feitos da água que existia do outro lado do oceano no tempo em que estive lá. Ontem. Quase hoje. Amanhã um pouco mais. Cada dia um pouco menos até ser outra vez.
Cruzar um oceano é não sucumbir ao pânico de se perder.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
google maps diary - Dallas/A 380 - Decatur
terça-feira, 4 de agosto de 2009
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
google maps diary
O que era para ser uma rápida travessia pelo estado do Texas, acabou se transformando em uma estadia que ainda não sabemos até quando irá se prolongar. Não sei se tenho condições de tentar te explicar como foi que tudo aconteceu. Sei lá. Foi mais ou menos assim:
Após atravessar Dallas estávamos exaustos. O Texas já era parte da nossa vida e os restos da noite passada em Jacskon foram deixados na privada daquela lanchonete. Dois senhores de camisa xadrez entraram no banheiro quando eu saí e não posso negar que não senti um pouco de vergonha por ter vomitado latinamente dentro daquele banheiro texano. Sentei na mesa e ele já havia pedido nhoque para nós dois.
- Tu já comeu nhoque texano?
- Nem.
- Então pq tu pediu?
- O que?
- Por que tu pediu nhoque no Texas.
- Pq é a tua comida preferida e pq a gente ta precisando de carboidrato. De glicose. A noite de ontem foi foda, man.
- Mas comer nhoque no Texas não tem. É que nem. Que nem comer sushi em Lajeado.
- Eu perguntei qual era o carro chefe e ela disse que o carro chefe era nhoque com tomate fresco.
A gente estava no Texas. Bem ou mal a gente estava no Texas e a nossa primeira refeição tinha sido o melhor e mais barato nhoque que já comera em minha vida. Sempre almoçar em postos de gasolina com caminhões estacionados em volta. Segundo meus pais, os caminhoneiros eram os que melhor conheciam a estrada, seus melhores restaurantes, a gasolina menos adulterada, o banheiro mais limpo com os chuveiros mais quentes.
Seus pais podem estar mortos, contanto que você tenha como voar, tudo está certo.
Acumulávamos milhas pois já estávamos nos acostumando a elas, assim como também estávamos nos acostumando àquele sotaque tão familiar para nós. Vimos os filmes certos, ouvimos as musicas certas e assim, acabamos por chegar também ao lugar certo. Falar texano era o jeito mais fácil. O jeito mais fácil de ser. De se fazer diferente aí nesse país onde tu tá agora.
Logo após o almoço fomos cochilar no carro. É sabedoria do viajante saber descansar nas horas certas: depois do almoço e no final do dia. É sabedoria do colono evitar o sol nos horários de maior atividade e sonhar um pouco assim que ele se põe. É sabedoria natural descansar depois da principal refeição e sonhar após a hora mais bonita do dia. Fazemos desses nossos únicos rituais sagrados para essa viagem. Dois cochilos diários. De resto, pode tudo. Basta manter esses dois cochilos para que todo o organismo se habitue a funcionar do jeito certo. A ressaca fazia ele roncar alto no banco do motorista, ao lado do meu. Minha barriga estava quieta. Concentrada em digerir o nhoque. O sol não desenhava nenhuma sombra inclinada sobre o chão arenoso. O sol estava à pino, como falam aí no sul. O sol derretia o asfalto da I 30 W, a maior distancia entre Jackson e o Dallas, onde estávamos naquela tarde de domingo. O sol derretia a lataria do carro e a brisa que soprava era morna, ajudando um pouco a derreter e a misturar toda a farinha, o queijo e os tomates frescos dentro do meu estômago. Dentro do meu estômago, mais uma merda começava a ser feita.
Um caminhão vermelho estacionou ao lado e o cheiro de borracha misturado com fumaça de diesel entrou no nosso carro. A porta do possante, como falam aí, demorou um tempo para abrir. Do outro lado da minha janela, duas botas, depois calça justa, depois camisa xadrez vermelho e azul e o cara ficou um tempo olhando para o nosso carro. Na real, o cara passou o tempo inteiro entre acender e depois pisar em cima da ponta o tempo todo olhando para nós e para o nosso Volkswagen. Eu não olhei para ele, mas através da visão periférica percebia seu vulto de frente para a nossa lataria. Não. Não era sonho. “Texas sucks”, eu pensei. Meu pensamento era, pouco a pouco, cada vez mais pensado em inglês, o que poderia ser o mesmo que estar virando eu também mais um deles e o que também significava que, pouco a pouco, eu deixava de ser um latino gaúcho vindo da cidade mais feia daquele estado perdido no sul daquele grande país feudalista onde vocês ainda moram. É questão de pouco tempo eu parar de falar e de escrever em português.
O caminhoneiro, sem mudar de posição, falava olhando para nós que agora olhávamos para ele.
- VW K70 1969 - 1974
In the early 1970s, VW was close to collapse as the company had no idea how to replace the Beetle. This was its first-ever front wheel drive car and it showed, being slow, ugly and clumsy. Sensibly, they then called in Guigiaro to design the Golf for them, and the rest is history.”
O caminhoneiro ficou olhando para nós. Meu colega se inclinou para ser melhor visto pelo texano, respondendo que “The top of the list is followed by:
number 2 - Volvo 264 1975 – 1982
number 3 - Vauxhall Ventora 1972 - 1976
number 4 - Morris Marina 1971 – 1980
number 5 - Ford Mustang II 1974 - 1978
number 6 - Ford Cortina 2000 E 1973 - 1974
number 7 - Fiat Strada 1978 - 1988
number 8 -Chrysler 180 1971 - 1981
number 9 - Austin Allegro 1973 - 1983
number 10 -Alfa 6 1979 - 1986
Meu colega tinha implantado um chip do google para usar durante a viagem e, por mais que a sua pronuncia não fosse nativa (apenas uma sugestão texana), o simples fato de ele também ter implantado um chip google, já o colocava em um patamar menos latino do que a maioria dos latinos que desarmonizavam a paisagem Texana com seus cerebros nus. O caminhoneiro perguntou onde haviamos conseguido aquele modelo. Disse que colecionava os piores carros produzidos nos anos 70 e que aquele era o número um da lista official do Google. Nós sorrimos pois sabíamos que estávamos sentados dentro de uma reliquia cultivada por poucos. Nós nos entendemos e, no fundo, comemoramos o bom de seencontrar, mesmo que em um posto de gasolina perdido entre Dallas e lugar nenhum, alguém com uma mesma vontade que a nossa: atravessar o país a bordo do pior carro produzido durante os anos setenta.
Pediu que o esperássemos almoçar.
Sem saber o que fazer, sugeri ao meu colega que testassemos a sorte: se o caminhoneiro comesse nhoque, esperaríamos. Caso contrário, seguiríamos viagem a bordo do número um, do pior carro dos anos 70: o nosso Volkswagen K70 ano 69.
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sexta-feira, 31 de julho de 2009
Google Maps Beats
Jackson não é apenas o Jackson City Hall. Eu nunca entrei no Jackson City Hall, mas visto de fora, tem cheiro de oficialidade americana e, só de passar na frente, é como se o nosso olhar fosse contaminar a pureza protestante que mantém a ordem da cidade.
Alabama. Esse lugar que eu só conhecia em música.
Todas as bandas do Vale do Taquari vão tocar “Sweet Home Alabama” em alguma hora da noite, assim como todas as rádios do Vale do Taquari vão tocar “Stairway to heaven” na madrugada. Não importa a hora, se passou da meia noite, “Stairway to heaven” vai tocar em alguma estação das rádios que pegam por lá.
Mas Alabama, Vale do Taquari e “Stairway to heaven”, nada disso faz parte do dia de hoje. Hoje eu estou em Jackson e amanhã, se tudo der certo, atravessaremos o Texas. Repetir assuntos é obrigação do companheiro de viagem e ser parceiro é só mais uma palavra para preferir estar só: eu sou parceiro de poucos.
Alguns pensam que podem trabalhar usando a força dos meus braços, usando a agilidade dos meus contatos e a criatividade do meu cérebro.
Aqui em Jackson o mundo anda no tempo de um folk dos anos noventa. Quando os velhos uivavam para o lua e os últimos suspiros das suas juventudes eram gastos em canções sem muita importância. Auto-afirmar-se é uma das muitas utilidades do folk, mas nem sempre dá certo. Hoje os coiotes envelheceram e a matilha vela a primeira geração antes do próprio fim chegar. Tudo é uma questão de tempo tanto para os que vivem em Jacskon, quanto para os que vivem em Lajeado.
Mas aqui em Jackson, ao contrário da cidade onde tu está agora, a iminência da partida é só um jeito de não pertencer.
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quarta-feira, 29 de julho de 2009
a minha vida não tem nada a ver com a sua.
terça-feira, 28 de julho de 2009
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Toca Townes van Zandt nessa tarde de sexta-feira. Finalmente coloco um ponto final no livro “Os Famosos e os Duendes da Morte” e Townes van Zandt é mais o livro do que o Dylan simplesmente pq o Townes foi para Dylan o que Dylan foi para mim e é para o livro. Hoje eu sou muito mais Townes do que Dylan. É preciso sempre descer um pouco mais. Agora eu devia subir no meu cavalo e desaparecer do mundo. É mais ou menos isso o que vou fazer. Sumir por dois meses. É fundamental ficar longe quando as coisas ameaçam acontecer. A distancia traz uma calma necessária. Não vou ficar longe daqui. Escrever sou eu. Esse blogue sou eu. E eu ainda não tenho a certeza de Townes van Zandt para cruzar as montanhas do Colorado no lombo do seu cavalo. Não gosto de celulares. Prefiro o conforto do não estar. Mas para ser Townes é preciso muito mais do que isso.
Hoje a cidade está parada. As pessoas choram na televisão e a única coisa que eu preciso fazer é a massagem que você me deu de presente. Sim. Eu recebo as suas mensagens, apesar de não respondê-las. Absorvo o que você me proporciona, mas não devolvo na mesma moeda. Nossas trocas não obedecem a nenhum padrão econômico. Dizem que é assim que as amizades operam. Você me conta sobre o sol, o sal, o calor. Você diz que quer me levar para o seu paraíso muitos quilômetros acima de onde estou. Eu leio e desligo o celular. Jamais ousaria contaminar a sua perfeição com as minhas palavras reais. Hoje você é Townes van Zandt e eu não vou te lembrar do mundo que te pertence. Que existe uma cidade feia chamada São Paulo. Que aqui os carros congestionam um passageiro por veículo. Somos a maior cidade do mundo e ainda não aprendemos a olhar para o lado. É perigoso ser carona. A corda sempre vai arrebentar no lado do mais fraco.
Se hoje eu não estivesse aqui seria uma sexta-feira com ela chegando em casa no fim do dia, gelando cervejas para assistir a novela e estocando doces para o fim de semana fazer sentido. Existe sabedoria nos rituais que se conservam com alegria mesmo cientes de que serão eternos. A sabedoria da alegria talvez seja saber que nada é para sempre. Nem minha mãe voltando para casa toda a sexta-feira. Nem meu pai fumando o cigarro enquanto ela prepara o almoço. Nem as piadas que ele lê em voz alta. Nem as mãos cortando cebolas. Nem os olhos chorando de saudade. Nada vai durar para sempre. Aproveite o que a realidade te dá. Aproveite o rosto da tua filha. Muito antes do que tu possa imaginar, ele não será mais teu pq, na real, ele nunca foi. Não há como ser as coisas que nunca foram. É complicado acreditar que o que não foi, nunca será.
O contrario disso é ele quem tenta me convencer. Sou eu que tento acreditar.
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